Fontes de iodo: Laticínios ou bebidas vegetais 1939

O médico australiano Basil Hetzel foi o pioneiro na descoberta da importância do iodo na saúde da criança, com repercussões em adultos e seniores. Hoje, o legado de Basil Hetzel é aplicado em todo o mundo e os seus ensinamentos foram adotados pela Organização Mundial de Saúde através da criação do International Council for Control of Iodine Deficiency Disorders (ICCIDD).

O iodo é um oligoelemento indispensável para a saúde, pois é necessário na síntese de hormonas tiroideias. Estas são fundamentais para o desenvolvimento de vários órgãos, com especial importância para o cérebro, para o crescimento das crianças e para regular funções tão importantes como a frequência cardíaca e temperatura corporal. A deficiência em iodo é a causa mais comum de deficiência cognitiva. A deficiência crónica de iodo pode levar a distúrbios que incluem deficiência mental e formação de bócio, aumento da glândula tiroide que implica uma produção inadequada de hormonas da tiroide.

A principal fonte natural de iodo são os alimentos. Através da análise combinada entre o teor de iodo nos alimentos e os dados de consumo alimentar, pode-se afirmar, que atualmente a principal fonte de iodo são os lacticínios.

Diversos trabalhos publicados sobre a quantificação de iodo nos lacticínios estimam uma contribuição entre 25% e 70% da dose diária recomendada, sendo este o grupo de alimentos que mais contribui para a ingestão diária de iodo.

Os laticínios são reconhecidos como alimentos importantes desde 4000 A.C. Estes alimentos são uma excelente fonte de proteínas de alto valor biológico, cálcio, zinco, fósforo, magnésio, vitaminas do complexo B, vitamina D e vitamina A.

Dentro do grupo dos laticínios, o leite e o iogurte são os mais consumidos pela população portuguesa. O leite é um dos alimentos mais antigos da história da humanidade, contendo muitos nutrientes essenciais ao crescimento e desenvolvimento. Os iogurtes apresentam algumas vantagens comparativamente a outros laticínios, nomeadamente por possuírem maior digestibilidade devido à degradação parcial de proteínas, lípidos e hidratos de carbono. O valor nutricional do iogurte é muito semelhante ao do leite, apenas com uma ligeira perda de algumas vitaminas devido ao aquecimento, durante o processamento. Em relação ao conteúdo de iodo os iogurtes apresentam, normalmente, um teor mais elevado quando comparados com os leites.

Antigamente, o consumo de leite era uma prática comum e inquestionável. Atualmente, e com o aumento da prevalência de problemas com a sua digestão, como a intolerância à lactose e a alergia à proteína do leite de vaca, surgiram no mercado bebidas alternativas, nomeadamente as bebidas vegetais. A recente expansão do mercado de bebidas vegetais pode ser parcialmente atribuída também ao aumento da popularidade da prática vegan, que exclui da sua dieta todos os produtos de origem animal e seus derivados, incluindo o leite de vaca.

Sendo o leite uma fonte tão importante de iodo na dieta, e considerando que o seu consumo está a ser substituído em parte pelo consumo de bebidas vegetais, levanta-se uma preocupação acrescida sobre a contribuição das bebidas vegetais para o aporte de iodo. Esta preocupação ganha particular relevância pois uma parte considerável da população portuguesa apresenta défices nutricionais de iodo, conforme foi evidenciado em diversos estudos nacionais e europeus.

As bebidas vegetais, como bebidas de coco, soja, arroz e amêndoa, apresentam teores de iodo inferiores aos dos leite e iogurtes e muito reduzidos face às necessidades nutricionais. Confirmando-se, assim, as preocupações sobre o aporte de iodo nos consumidores deste tipo de bebidas. Indivíduos e grupos de população com dietas restritas em produtos lácteos podem apresentar risco de um aporte diário de iodo insuficiente, sendo necessária a caraterização de iodo em alimentos para adequação de dietas a estilos de vida alimentares, e ainda para suportar a decisão sobre campanhas de fortificação dos alimentos em iodo. Os consumidores deste tipo de produtos necessitam garantir a ingestão adequada de iodo a partir de outras fontes alimentares, com por exemplo, pescado e produtos do mar ou ovos.

Inês Delgado
Técnica Superior no Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge
Mestre em Engenharia Química e Bioquímica

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