CPLP/30 anos: Rede valoriza saberes tradicionais para fortalecer segurança alimentar

Um mecanismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) tem permitido intercâmbios entre comunidades tradicionais africanas e brasileiras, com foco na troca de saberes ancestrais, valorização dos modos de vida locais e fortalecimento da segurança alimentar.

A professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Jaqueline Sgarbi, defendeu, em declarações à Lusa, a valorização dos saberes tradicionais e das comunidades locais como base para a construção de políticas de segurança alimentar nas nações da CPLP.

A investigadora brasileira coordena o projeto Ecossistema de Tecnologias Socioterritoriais Afro-Brasileiras em Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional (Ecosan), que tem formado uma rede com investigadores, comunidades, profissionais e ex-alunos africanos.

No âmbito do Ecosan e da rede de universidades da CPLP, têm-se realizado missões técnicas, escolas de verão e atividades de formação em países como Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, explicou.

De uma das iniciativas resultou a criação de uma especialização internacional em Segurança Alimentar e Nutricional, envolvendo diferentes países da CPLP, além de apoiar a estruturação de um mestrado em agroecologia em São Tomé e Príncipe.

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Na entrevista à Lusa, Jaqueline Sgarbi afirmou que uma das metas do Ecosan é criar, na Unilab, um espaço com tecnologias socioterritoriais que possam ser úteis tanto para o Brasil quanto para os países africanos lusófonos.

Em concreto, referiu a instalação de cisternas, hortas circulares e sistemas agroflorestais na universidade, localizada no estado brasileiro do Ceará.

A escolha dessas tecnologias ocorre porque elas dialogam com as condições e necessidades dos territórios rurais dos dois lados do Atlântico, em particular por promoverem a produção sustentável de alimentos e conviverem com limitações como o acesso à água.

“O Brasil é uma referência em termos de tecnologia. O rural do Brasil é um rural dinâmico. A gente tem essa dicotomia: agronegócio, agricultura familiar”, pontua, ao dizer que é muito fácil entregar tecnologia de ponta que não condiz com realidades locais.

“Temos países com uma democracia frágil, instituições governamentais também fragilizadas, questões ligadas a infraestrutura, estradas, água”, listou.

Jaqueline destacou que o projeto tem promovido intercâmbios entre comunidades tradicionais africanas e brasileiras, com foco na troca de saberes ancestrais, na valorização dos modos de vida locais e no fortalecimento da segurança alimentar nos territórios participantes.

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“Então, a ideia é, a partir da valorização de saberes ancestrais, de saberes locais, de modos de vidas tradicionais, isso possa ser valorizado, apoiado, manejado da forma que as comunidades querem”, concluiu.

O objetivo, salientou, não é apenas reproduzir técnicas, mas adaptar experiências às realidades locais, inclusive invertendo a lógica “de abordagem vertical, de cima para baixo” das universidades.

“Nossa perspetiva é entender os territórios e as tecnologias a partir do que já é feito nesses espaços”, afirmou.

No âmbito da iniciativa, ajudou a organizar um intercâmbio entre lideranças femininas da Guiné-Bissau e da comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, no Centro-Oeste brasileiro, entre os dias 22 e 26 de junho, acompanhado pela Lusa.

As participantes desempenham um papel central na segurança alimentar das suas comunidades e o propósito de trazer as guineenses ao Brasil foi permitir refletir sobre as experiências brasileiras a partir das suas próprias realidades, e não apenas que reproduzam práticas observadas.

O território Kalunga abriga aproximadamente 39 comunidades, abrangendo uma área de cerca de 262 mil hectares, onde residem cerca de 8 mil quilombolas (descendentes de escravos fugitivos), espalhados por três cidades goianas, na região do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros.

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Na freguesia do Engenho II, na cidade de Cavalcante, os Kalungas estruturaram há 20 anos uma forma organizada em que homens e mulheres, a maioria de pequenos agricultores, conseguem beneficiar do ecoturismo no bioma cerrado e do turismo comunitário.

Durante caminhadas por entre ruas de terra, casas rurais e trilhas para lavouras, as similaridades do uso de plantas medicinais, manejo ancestral do solo e do envolvimento da comunidade para o plantio conectou os dois povos.

A roça de toco, como é chamada, é um sistema de cultivo consorciada desses camponeses que preserva árvores e raízes, favorecendo a regeneração do solo e da vegetação local, sem uso de agrotóxico.

À agrónoma guineense Leodinilde Pinto Caetano chamou a atenção o plantio em consórcio realizado pelos Kalungas, com milho, feijão e abóbora cultivados no mesmo solo.

“Oitenta por cento da nossa população vive nas zonas rurais, dependem da agricultura, da comercialização dos produtos”, conta, ao dizer que replicar saberes é uma forma de contribuir para o desenvolvimento do próprio país.

Formada em agronomia pela Unilab desde 2018, Leodinilde trabalha na organização não-governamental Tiniguena, que desenvolve atividades agrícolas com comunidades locais de Guiné-Bissau, e não perdeu laços de trocas com o Brasil desde então.

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Para a professora de sociologia rural na Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás Fabiana Thomé da Cruz, que integra o projeto Ecosan, as técnicas ancestrais dos Kalungas de manejo e uso do solo é um exemplo de soberania alimentar.

“Pensando em termos de soberania alimentar, se acontecesse um colapso e não pudéssemos suprir de insumos a produção agropecuária, nessas regiões, nesses territórios, onde a agricultura que se faz é ancestral, essas comunidades seguem a sua soberania, porque continuam produzindo alimentos” indica.

“Porque não dependem de insumos externos. As técnicas, os manejos que essas comunidades fazem garantem com que elas consigam produzir alimentos, vidas e saúde para as pessoas e para o ambiente”, concluiu.