Uma reunião com 34 diretores de Serviços de Nutrição e um congresso com mais de 250 inscrições. Lamego acolheu dois dias de discussão sobre o presente e o futuro da Nutrição, entre colaboração institucional, inovação científica e humanização dos cuidados. Ao portal VIVER SAUDÁVEL, Clara Matos, diretora do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD), faz o balanço dos eventos e explica os desafios de uma equipa que acompanha 21 municípios.
A expressão “Todos os caminhos vão dar a Lamego”, utilizada pela organização, ganhou um sentido particular nos dias 17 e 18 de setembro. À cidade chegaram responsáveis de Serviços de Nutrição, profissionais de diferentes áreas da saúde, investigadores e estudantes, para duas iniciativas promovidas pelo Serviço de Nutrição da ULSTMAD.
Primeiro, a V Reunião dos Diretores dos Serviços de Nutrição do Sistema Nacional de Saúde, no Auditório da Unidade Hospitalar de Lamego. No dia seguinte, o III Congresso do Serviço de Nutrição da ULSTMAD, organizado em parceria com a Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega (APSAT), levou ao Teatro Ribeiro Conceição o tema “Nutrição 360º – Ciência e Tecnologia ao Serviço das Pessoas”.
Para Clara Matos, os encontros evidenciaram a capacidade de mobilização e de trabalho conjunto da profissão. Da reunião destaca a consolidação de uma rede nacional de colaboração; do congresso, o crescimento da participação e a ligação entre conhecimento científico, inovação e cuidados centrados nas pessoas.
Uma rede para construir respostas comuns
Depois de Viana do Castelo, Coimbra, Évora e Setúbal, Lamego acolheu a quinta edição da reunião, que juntou 34 diretores de Serviços de Nutrição, provenientes de 28 das 39 ULS de Portugal Continental, do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), de um Instituto Português de Oncologia (IPO), do único hospital a funcionar em regime de parceria público-privada e de três grandes grupos hospitalares privados.
O papel estratégico destes serviços na criação de valor em saúde orientou a discussão, que cruzou integração de cuidados, liderança, avaliação do desempenho, implementação de políticas públicas, vigilância nutricional e formação.
“Mais do que reforçar a reflexão e a partilha de experiências, conseguimos consolidar uma rede nacional de colaboração coesa, comprometida com a melhoria contínua dos cuidados nutricionais e com a construção de respostas conjuntas para os desafios do presente e do futuro”, declara Clara Matos, que traça um balanço “extremamente positivo”.
Criada durante a pandemia de covid-19, esta rede dos diretores dos Serviços de Nutrição evoluiu de um espaço informal de partilha para uma plataforma de trabalho colaborativo. Entre os resultados estão as propostas de uma matriz comum de indicadores de desempenho em Nutrição e de um modelo de uniformização de registos em Nutrição, discutidas e sujeitas a votação em Lamego. Os documentos serão agora consolidados, integrando as decisões tomadas.
Ciência e tecnologia com as pessoas no centro
No congresso, as mais de 250 inscrições superaram “largamente as expectativas da organização”. Segundo Clara Matos, o número de participantes mais do que duplicou relativamente à edição anterior. Aos nutricionistas juntaram-se enfermeiros, psicólogos, médicos, gestores e profissionais de outras áreas, assim como estudantes e estagiários, refletindo a natureza multidisciplinar da prestação de cuidados de saúde.
A diversidade estendeu-se aos oradores e aos temas: transformação digital, ciência de dados, nutrição de precisão, sustentabilidade dos sistemas alimentares, microbiota, saúde mental e longevidade saudável integraram um programa que incluiu também a ética e a humanização dos cuidados.

Nos diferentes painéis, o potencial das novas ferramentas para avaliar necessidades, personalizar intervenções e produzir evidência foi acompanhado por uma preocupação transversal, que a responsável sintetiza: “A tecnologia só faz sentido quando colocada ao serviço das pessoas, promovendo cuidados mais próximos, mais integrados e mais centrados nas necessidades dos cidadãos”.
“Talvez a principal conclusão seja a de que a Nutrição está hoje numa posição privilegiada para contribuir de forma decisiva para melhores resultados em saúde”, considera Clara Matos. A crescente interligação entre conhecimento científico, inovação, investigação e prática clínica está, acrescenta, a criar “oportunidades para afirmar o valor da Nutrição junto dos cidadãos, das organizações e do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”.
Uma das novidades foi a apresentação de comunicações orais e pósteres, com trabalhos provenientes de instituições de todo o país. Pela primeira vez, o congresso contou também com uma comissão científica, presidida por Cecília Morais, diretora da licenciatura em Ciências da Nutrição da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), integrando representantes da academia com quem o Serviço de Nutrição colabora na formação e orientação de estudantes. A iniciativa teve ainda o patrocínio científico da Associação Portuguesa de Nutrição (APN).
A criação do Prémio António Luiz Rodrigues para a melhor comunicação oral marcou um momento particularmente emotivo. A homenagem permitiu recordar um colega cuja partida, em novembro de 2025, “deixou o Serviço de Nutrição da ULSTMAD mais pobre” e reafirmar os valores de “dedicação, disponibilidade, humildade e compromisso com as pessoas” que, nas palavras de Clara Matos, “continuam a inspirar o nosso trabalho diário”.
Conhecimento e identidade no interior
A ligação ao território fez-se sentir também fora das sessões científicas. No primeiro dia, o programa social incluiu uma visita a caves de espumante. Os diretores presentes receberam ainda o livro de receitas ‘Com o que a (nossa) terra nos dá!’, desenvolvido pelo Serviço de Nutrição da ULSTMAD e lançado em 2025, por ocasião do Dia Mundial da Alimentação. No congresso, o Município de Lamego, que cedeu o Teatro Ribeiro Conceição, ofereceu aos palestrantes, moderadores e comissões organizadora e científica um almoço com arroz de salpicão, prato tradicional da região.
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A valorização da gastronomia e dos produtos da estação inscreveu-se numa ligação à identidade local que a diretora sublinha no balanço “claramente muito positivo”. Mas a mensagem sobre o território estende-se à produção de conhecimento: “Este congresso permitiu-nos também confirmar algo em que sempre acreditámos: que o conhecimento, a investigação e a diferenciação profissional não pertencem exclusivamente aos grandes centros urbanos. Também se constroem no interior, através da colaboração entre instituições, da dedicação dos profissionais e da ambição de fazer mais e melhor”.
16 nutricionistas, 21 municípios
É nesse interior que o Serviço de Nutrição da ULSTMAD desenvolve a sua atividade. A equipa reúne 16 nutricionistas: cinco trabalham exclusivamente nos cuidados de saúde primários (CSP), cinco nos cuidados de saúde hospitalares (CSH) e seis em ambos os níveis.
A integração traduz-se em critérios comuns de referenciação para a Consulta de Nutrição nos CSP e nos CSH, na articulação entre cuidados nutricionais em diversas áreas de intervenção e na uniformização de materiais de apoio à prática clínica. Está igualmente em desenvolvimento um Plano Individual e Integrado de Cuidados, em colaboração com o Serviço de Gestão de Informação. Os estágios curriculares acompanham esta abordagem, articulando diferentes contextos assistenciais.
A ULSTMAD “é uma das ULS com maior abrangência territorial do país”, integrando 21 municípios. A diretora descreve “um território vasto, de baixa densidade populacional, envelhecido e com alguns constrangimentos ao nível da acessibilidade” e reconhece: “Esta realidade representa um desafio acrescido para qualquer equipa de saúde e, naturalmente, também para o Serviço de Nutrição”. Assegurar resposta em diferentes unidades implica “tempos de deslocação significativos” e uma “gestão exigente das ausências”, face ao “número limitado de profissionais”.
Desde a criação da ULS, “promover uma maior equidade no acesso” tem sido uma prioridade, uma vez que os cuidados nutricionais não estavam anteriormente disponíveis de forma direta em todos os concelhos. “O nosso compromisso é garantir que o local de residência não constitua, por si só, uma barreira ao acesso a cuidados de Nutrição”, assevera.
Próximos destinos: Lisboa e Chaves
A continuidade dos eventos já está definida. A VI Reunião dos Diretores dos Serviços de Nutrição do Sistema Nacional de Saúde decorrerá em Lisboa, a 22 de outubro de 2027, e será organizada, pela primeira vez, por unidades do setor privado: o Hospital Lusíadas Lisboa e o Hospital da Luz Lisboa, através das diretoras dos respetivos serviços, Andreia Ferreira e Mónica Santos.
Já o congresso regressará em 2028, em Chaves, passando a ter periodicidade bienal. A decisão procura “preservar a qualidade científica e organizativa”, perante o crescimento de um projeto preparado por uma equipa “relativamente pequena”, que concilia essa tarefa com a atividade assistencial, a investigação, o ensino e a gestão. Com passagem por Vila Real, Peso da Régua e Lamego, os caminhos seguem, assim, para outro concelho da ULSTMAD.
Neste percurso, mantém-se a mensagem que Clara Matos gostaria que os congressistas levassem consigo: “Num momento em que a ciência evolui a um ritmo sem precedentes e em que dispomos de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas, continua a ser fundamental recordar que o verdadeiro propósito do nosso trabalho é melhorar a vida das pessoas”.
Ao longo das próximas semanas, o portal VIVER SAUDÁVEL publicará mais artigos sobre os temas debatidos nos dois eventos. O vídeo e fotografias são da autoria da ULSTMAD.




