Melhorar a alimentação e a nutrição através do Nudge 600

O Jornal “Expresso”, num dos seus Projetos, realizou na passada quarta-feira, dia 7 de outubro, a primeira conferência de Nudge sobre alimentação e nutrição.

Nudge – a arquitetura da escolha – é uma teoria que tenta explicar as nossas decisões e está a ganhar terreno em várias áreas. Esta é uma teoria recente que procura explicar o processo de decisão.

Esta teoria nasceu do livro “Nudge: o empurrão para a escolha certa”, dos economistas Richard Thaler e Cass Sunstein, que tem captado a atenção de investigadores, sociólogos, políticos e marketeers.

O Nudging, ou arquitetura da escolha, tem sido utilizada por diferentes governos para influenciar decisões dos cidadãos em diferentes áreas. Uma dessas áreas é a alimentação e a nutrição.

Nesta conferência, sob o tema da nutrição e alimentação saudável, estiveram presentes Paulo Monteiro (Diretor de Responsabilidade Social e Corporativa da Auchan Retail Portugal), Maria João Gregório (Diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde), José Camolas (Vice-Presidente da Ordem dos Nutricionistas), e Bruno Santos (Public Affairs & Media Relations da DECO-Proteste).

Presente também, esteve Diogo Gonçalves, fundador da Nudge Portugal, com um vasto percurso académico na área da economia comportamental, que explicou como tudo começou na área da nutrição.

“Se colocarmos uma batata frita vermelha de cada dez, numa embalagem de pringles, o consumo cai para 50%”, explicando a experiência realizada em 2012, nos EUA, pelo investigador Brian Wansink, especialista em padrões de consumo, comportamento e marketing, com o objetivo de reduzir o consumo de fritos e promover uma alimentação saudável.

Por falar em experiências, Paulo Monteiro, Diretor de Responsabilidade Social e Corporativa da Auchan Retail Portugal, partilhou a que foi realizada num supermercado do grupo. Devido a uma simples mensagem baseada no conceito Nudge: “as famílias mais saudáveis levam 11 produtos de legumes e fruta em cada visita a esta loja. E você?” constatou-se que os consumidores alteraram substancialmente os seus padrões de consumo de verduras. Este que era um objetivo comercial, tinha também como ideia aumentar o consumo de produtos saudáveis.

“Temos procurado identificar as várias possibilidades para introduzir pequenas alterações que induzam uma mudança dos comportamentos”, indicou Paulo Monteiro.

E por falar em mudança de hábitos de consumo, José Camolas, vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas, reconheceu que uma nano-intervenção baseada no conceito de Nudge pode mudar o padrão de consumo de um paciente.

“Os nutricionistas estão cada vez mais ligados ao comportamento”, disse José Camolas. A questão é “manter esse comportamento”, indicou.

“Tomamos 200 decisões alimentares por dia, que variam em função de coisas tão simples como o tamanho do prato. Mudar um comportamento e mantê-lo ao longo do tempo é extremamente difícil. Deduzimos à partida que o interlocutor está preparado para a mudança de comportamento, mas esta pode ser pontual. O grande trabalho é perceber durante quanto tempo essa mudança se manteve”, explicou o vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas.

Realtivamente a esta teoria, “falta investigação e substância. E a segurança de que o empurrão é dado no sentido certo. Há ou não liberdade de escolha?”, questionou José Camolas.

“O nudge pode também dar um empurrão a uma ideia que se formou na cabeça dos consumidores: o que é saudável é tendencialmente mais caro”, adiantou José Camolas. “Há zonas nos hipermercados que são inatingíveis ao português comum. É preciso utilizar este sistema nos produtos e momentos certos, para ultrapassar a barreira do preço que torna inacessível certos produtos”, afirmou.

Sobre este assunto, Bruno Santos, Public Affairs & Media Relations da DECO-Proteste, indicou ser necessário “balizar o limite” da teoria e confrontá-la com técnicas de venda.

“O marketing vai-se apropriar da estratégia Nudge nas suas diversas formas. O exemplo das pringles – que levou a uma redução de 50% no consumo de batatas fritas – pode ser um ótimo negócio para a saúde dos consumidores, mas não para a marca. Até que ponto as marcas estarão disponíveis para isso?”, questionou Bruno Santos. “Para nós o importante é conseguir que o consumidor faça uma escolha informada.”

João Torres, Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumido, o último orador da tarde, lembrou o papel das empresas e a importância do conhecimento destas na economia comportamental.

Para o Secretário de Estado “o Nudge pode desempenhar um papel muito significativo”, sublinhando que o comportamento humano “nao é o 100% racional. Nós, consumidores, nem sempre tomamos as decisões perfeitas. Temos de aproveitar o Nudge para o bem. É muito importante que as empresas o façam neste sentido”, concluiu.

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