Cuidado com as guloseimas? 159

Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®

 

Recentemente, noutro país, reparei numa versão diferente de um conhecido chocolate. Entre a surpresa e a curiosidade, decidi provar, e enquanto saboreava a guloseima reparei numa mensagem destacada no verso do rótulo: “Be Treatwise!”, com indicação do respetivo website. Percebi que se trata de uma iniciativa de vários fabricantes de confeitaria, que visa sensibilizar os consumidores e “ajudar as famílias a ter uma abordagem equilibrada ao consumo de guloseimas”. Com o viés natural de nutricionista, dei por mim a perguntar: haverá ainda alguém que não tenha noção de que as guloseimas são para comer moderadamente?

A prosperidade económica atingida pela nossa sociedade fez com que a alimentação deixasse de ser apenas uma questão de necessidade de nutrientes, para se tornar também uma forma crescente de prazer e socialização. As sobremesas ou doces especiais, antes reservados para ocasiões específicas e tempos de abundância, tornaram-se disponíveis (quase) permanentemente. Por isso, a transição da escassez para a abundância, dos ciclos produtivos sazonais e locais para a disponibilidade contínua e global, entre outras causas (como o aumento do sedentarismo), trouxe consigo o aumento das taxas de obesidade e doenças associadas. Eis-nos assim no dilema de, entre tanto para comer, ter de escolher o que é mais saboroso, nutritivo, saudável, económico e conveniente…

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A preocupação com o consumo excessivo de calorias e com o aumento de peso ganhou tal dimensão que se tornou transversal a todos os intervenientes – consumidores, indústria alimentar e entidades de saúde. E colocou-nos a todos num quase permanente estado de alerta com a comida. Os rótulos alimentares têm semáforos, pictogramas e avisos, que se somam à informação nutricional e lista de ingredientes legalmente obrigatórias. Há até quem queira colocar imagens ou mensagens “chocantes”, à semelhança das que se observam nas embalagens de tabaco, para alertar ou desencorajar o consumo de determinados alimentos… Mas, qual o resultado prático de tudo isto?

Bombardear os consumidores com informação não se tem traduzido necessariamente em maiores níveis de conhecimento. De facto, o excesso de ruído em torno da comida pode até ter o efeito oposto – dessensibilizar o consumidor comum, que perante a quantidade e variedade de informação, simplesmente a prefere ignorar. Pior: algumas pessoas menos informadas sobre a qualidade nutricional dos alimentos podem até duvidar de tanta informação. Por exemplo, são conhecidos os relatos de desconfiança relativos ao sistema NutriScore, quando classifica com a letra A cereais de pequeno almoço açucarados e com a letra C o azeite virgem extra. Para um leigo em Nutrição isto pode ser confuso, mas para os maníacos em geral, serve para todo o tipo de teorias da conspiração! É fácil entender que o consumidor comum se possa sentir encurralado entre a complexidade de uma tabela de informação nutricional (difícil de interpretar em termos das necessidades individuais) e as mensagens óbvias (quase paternalistas) do tipo “Seja responsável. Beba com moderação.”.

Talvez “Cuidado com as guloseimas” ou “Beba com moderação” devessem ser menos avisos absolutos e mais convites à reflexão. Não se trata de negar os riscos do consumo excessivo, ou diabolizar o consumo ocasional, mas de encontrar pontos de equilíbrio entre responsabilidade e liberdade, entre saúde e prazer. Os rótulos dos alimentos não devem ser usados para assustar com doença, ou passar às pessoas a “culpa” de consumirem alimentos e bebidas de que gostam. Aliás, o TCE já alertou para o excesso de informação nos rótulos alimentares e aponta para a necessidade de se investir mais em educação. De facto, os problemas de saúde associados à alimentação são complexos e multifatoriais, levam tempo a desenvolver-se, e por isso não têm soluções simples ou rápidas.

Quase…

Numa altura em que se discute a educação sexual e a literacia financeira nos currículos escolares, soa ainda mais estranha a ausência de uma verdadeira e robusta política de educação alimentar, que vá além das pontuais ações no Dia Mundial da Alimentação. Ensinar as crianças de hoje a comer (e as suas famílias e professores, claro) só terá resultados visíveis daqui a alguns anos, seguramente quando os atuais decisores políticos já estiverem fora de cena. Mas só consumidores informados poderão fazer escolhas mais saudáveis e, assim, obrigar a uma oferta alimentar também ela mais adequada.