Alumínio, Alzheimer e Sílica: a tríada mistério na demência 45

Por Conceição Calhau, Professora Catedrática e Nutricionista Clínica (0572N). 

 

Nos últimos anos a relação entre alumínio, o risco de declínio cognitivo e de doença de Alzheimer (DA) tem sido objeto de investigação quer epidemiológica, quer molecular. Embora a etiologia da DA seja multifatorial e complexa, a hipótese de que fatores ambientais modifiquem a suscetibilidade para o declínio cognitivo, neurotoxicidade, tem merecido maior atenção, muito em particular tudo o que se relaciona com a alimentação.

O que nos dizem os estudos epidemiológicos? A coorte PAQUID, avaliou durante 15 anos a associação entre níveis de alumínio e de sílica, na água de consumo, e o risco de declínio cognitivo e demência em idosos (>65 anos), em França. Neste estudo, exposições individuais estimadas de alumínio ≥ 0,1 mg/dia provenientes da água de consumo estiveram associadas a maior declínio cognitivo e risco de demência, incluindo Alzheimer, mesmo após ajuste para fatores como idade, sexo, escolaridade e até consumo de vinho.

Mais, um maior consumo diário de sílica foi inversamente associado ao risco de demência (RR ajustado ~0,89 por aumento em 10 mg/dia) sugerindo um possível efeito protetor da sílica. Outro estudo usando a mesma coorte, com seguimento de 8 anos, encontrou associações semelhantes: regiões com concentrações mais altas de alumínio na água mostraram risco ajustado de demência ~2 vezes maior e concentrações mais altas de sílica associadas a menor risco, sugerindo aqui um papel importante da sílica como neuroprotetor, na relação entre alumínio, cognição e Alzheimer.

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Além deste estudo, algumas revisões sistemáticas de estudos sobre composição de águas de consumo e função cognitiva apontam que alumínio tem sido o elemento mais frequentemente avaliado em estudos observacionais, epidemiológicos, em que quatro estudos (de oito) mostraram associação positiva com declínio cognitivo. No entanto, sabemos que mais importante do que isolar a variável alumínio, devemos considerar esta mas em associação com níveis de exposição a ‘protetores’ como sílica, magnésio ou cálcio. Isto é, podemos ter valores mais elevados de alumínio na água de consumo, mas se em presença de minerais como a sílica, ou o magnésio ou o cálcio, os efeitos deletérios podem mesmo não ser observados à escala esperada.

Que mecanismos podem sustentar esta associação entre o alumínio e a demência? Os mecanismos moleculares que sustentam a associação epidemiológica entre exposição ao alumínio e neurodegeneração ainda não são totalmente claros. Em modelos experimentais animais, o alumínio mostra capacidade de modular a formação de agregados de proteína β-amiloide e de induzir stresse oxidativo, mecanismos intimamente ligados à fisiopatologia da DA. Mais, sabemos que o alumínio é capaz de atravessar a barreira hemo-encefálica e acumular-se nos tecidos cerebrais, potencialmente levando à morte neuronial e glial, a mais stresse oxidativo, stresse do retículo endoplasmático, disfunção sinática e neurodegeneração.

Qual o papel da sílica? Do ponto de vista fisiológico, a sílica — principalmente na forma de ácido silícico — pode reduzir a absorção intestinal de alumínio e favorecer, assim, a sua excreção, influenciando os níveis séricos de alumínio bem como a sua possibilidade de efeitos neuroniais. Isto sugere um mecanismo de interação interessante: não se trata apenas de “presença vs. ausência”, mas de como diferentes componentes (alumínio e sílica) interagem no que diz respeito às cinéticas e, por isso, à toxicidade. Sempre se ensina que a toxicidade, relativamente à maioria dos tóxicos, é um fenómeno relativo. Neste caso à dose e à presença ou não de minerais que contrariam a sua acumulação no organismo. No entanto dos estudos de observação não devemos ainda excluir que além da sílica, minerais como o cálcio e o magnésio estão associados de forma inversa com a neurotoxicilidade do alumínio.

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Para nós nutricionistas, ainda que faltando prova de causalidade, mas entendendo estes resultados como suficientes para estarmos atentos não só às fontes de alumínio mas também à de minerais como a sílica, o magnésio e o cálcio. No seu conjunto pode ser mais uma varável com peso no declínio da memória associada à idade bem como à demência e possível doença de Alzheimer.