A Sociedade Portuguesa de Cardiologia defende, numa petição lançada hoje, a comparticipação dos medicamentos usados nos diabéticos em pessoas obesas com risco cardiovascular, mesmo que não tenham diabetes, e o fim das restrições na prescrição.
No texto da petição, a que a Lusa teve acesso, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) lembra que a obesidade é uma doença crónica associada a um aumento marcado do risco cardiovascular e continua a ser um dos principais determinantes de diabetes tipo 2, enfarte do miocárdio, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca em Portugal.
“A evidência científica demonstra de forma consistente que os agonistas do recetor do GLP 1 promovem perda ponderal clinicamente relevante, melhoram fatores de risco cardiovascular e reduzem eventos cardiovasculares”, refere o documento.
Em declarações à Lusa, a presidente da SPC, Cristina Gavina, reconhece que o alargamento dos critérios na comparticipação que atualmente abrange apenas doentes diabéticos, decidido na semana passada, foi positivo, mas aponta ainda algumas limitações.
“Este alargamento foi bom, até porque o índice de massa corporal baixou de 35 para 30, o que quer dizer que não são só os grandes obesos, mas também os obesos que têm acesso, se tiverem diabetes. Também não são só aqueles que têm doença cardiovascular já conhecida, mas também aqueles que estão em alto risco, o que são igualmente boas notícias. Mas a portaria que limita a prescrição mantêm-se”, explicou.
A especialista sublinha que as limitações impostas pela portaria – que apenas permite a comparticipação destes medicamentos a diabéticos se forem prescritos por médicos de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Endocrinologia e Pediatria – tem trazido constrangimentos a várias especialidades médicas.
“Não é só a Cardiologia, é a Nefrologia, a Neurologia, que são especialidades que lidam com pessoas que já têm doença e que podiam estar também a fazer [as prescrições]. Isto já só falando de diabéticos”, afirma Cristina Gavina.
A especialista lembra que desde há dois anos que existe evidência muito robusta – “está em todas as recomendações internacionais” – de que pessoas que já tenham doença estabelecida, como, por exemplo, quem já teve um AVC, “se forem obesas, também beneficiam em fazer estes medicamentos”.
Diz que há outros medicamentos no mercado, para além daquele que é normalmente prescrito para os diabéticos e cujo uso por quem quer apenas perder peso afunilou o acesso dos diabéticos ao fármaco, levando as autoridades a imporem restrições na prescrição.
“É a mesma molécula, mas numa dose diferente”, explica a especialista, insistindo na necessidade de ver comparticipado o uso destes medicamentos em pessoas obesas que não sejam diabéticas e de se acabar com as restrições na prescrição.
Recorda que os ensaios clínicos demonstraram é que estas pessoas vão beneficiar “independentemente do nível de perda de peso” a explica: “acredita-se que estes medicamentos também têm um certo efeito anti-inflamatório, melhoram determinadas coisas metabólicas dentro do nosso organismo que ajudam a diminuir a progressão da doença”.
Lembra que até a Organização Mundial da Saúde já veio alertar para a importância e urgência de tratar a obesidade para evitar outras doenças, afirmando que a comparticipação destes medicamentos para obesos acabaria por ser um investimento que reduziria a despesa em saúde com estas pessoas no futuro.
“Era ótimo que as pessoas não fossem obesas e tivessem formas de prevenirem para não chegar à obesidade propriamente dita”, afirma Cristina Gavina, lembrando que, uma vez chegando ao estado de obesidade, torna-se uma doença e “é praticamente impossível a pessoa sozinha conseguir perder peso e corrigir todas as coisas que vêm junto”.
Afirma que perder peso implica uma redução da tensão arterial e do colesterol, assim como uma melhoria dos parâmetros da glicose, para exemplificar as várias doenças que a obesidade pode causar: “não é uma questão só de estética, ou física, para a pessoa sentir menos peso nas articulações. É uma questão metabólica e acaba por ter consequências no rim, no fígado e no coração”.




