Quase… 485

Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®

 

Janeiro de 2036. Um novo ano começava, com a resignação à irrelevância definitiva dos nutricionistas. O país acordou sem dar por isso: não houve protestos, nem manchetes nos jornais, nem sequer um momento simbólico de rutura. A profissão, simplesmente tinha deixado de importar. Continuava a existir no papel, em associações profissionais cada vez mais vazias de sentido e em diplomas pendurados nas paredes. Mas o significado da profissão, para a maioria da sociedade, tinha desaparecido. Sem maldade ou rancor, o mundo evoluiu e tornou-se indiferente aos nutricionistas, àqueles nutricionistas. Ainda existiam, claro, mas já não eram a figura de referência da Nutrição. Como teria sido possível chegar a este ponto?

Durante os anos anteriores ao seu quase desaparecimento, paradoxalmente, parecia que os nutricionistas estavam quase a alcançar o reconhecimento que sempre reivindicaram. As Ciências da Nutrição consolidavam-se como uma área de conhecimento com implicações em todas as dimensões da vida humana, o corpo de evidência tornava-se cada vez mais robusto, e o papel da alimentação na prevenção de doenças, longevidade e estilo de vida estava no centro do debate público. Os nutricionistas atuavam em distintas áreas, da saúde comunitária à indústria alimentar, passando pela clínica, desporto ou restauração. Durante algum tempo, tudo indicava que a profissão iria finalmente assumir um papel central na sociedade, com o respetivo reconhecimento e valorização. E no entanto, esse momento passou. Foi quase…

Como em tantas outras catástrofes, foram várias as causas para esta oportunidade perdida, na sua maioria silenciosas e progressivas. A popularidade da Nutrição criou uma proliferação de cursos com acesso à profissão, o que resultou em critérios de admissão e conclusão mais baixos, planos curriculares variados e diluídos, e num mercado de trabalho inundado de nutricionistas, sem perspetivas de emprego. A pressão gerada por esta situação, juntamente com as consequência de várias políticas, internas e externas, resultou em critérios de admissão à profissão mais facilitados, e na consequente redução do prestígio. A abundância transformou-se em banalidade, e com tantos nutricionistas (e outras vozes na Nutrição), era cada vez mais difícil as pessoas distinguirem a excelência da mediocridade.

“Dez anos é muito tempo”!

De facto, a banalização da Nutrição não passou só pelos nutricionistas. O interesse pela alimentação e nutrição multiplicou as formações e diplomas (ou pseudo diplomas) que “capacitavam” pessoas a fazer aconselhamento nutricional. Tornou-se fácil “fazer Nutrição” sem ser nutricionista, e, ironicamente, cada vez mais difícil justificar por que razão alguém deveria procurar um. Nas redes sociais, uma nova autoridade emergia. “Influenciadores” falavam de alimentação com confiança, carisma e milhões de seguidores. Simplificavam mensagens, prometiam resultados rápidos e ocupavam o espaço que os nutricionistas nunca conseguiram conquistar plenamente. A credibilidade científica foi substituída pela proximidade emocional e pelo algoritmo. A voz do nutricionista, cautelosa e baseada em evidência, foi-se perdendo no ruído.

Mas as ameaças não ficavam por aqui. Outras profissões de saúde avançavam também sobre o território da Nutrição. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos e fisioterapeutas, na busca constante pela valorização da sua atuação e pelo prestígio da sua profissão, reclamavam competências nutricionais nas suas práticas. Especialidade médica de Nutrição, para dar resposta ao crescente número de fármacos para combate à obesidade; Fisioterapeutas a conduzir programas de controlo de composição corporal em processos de reabilitação; Enfermeiros a fazer educação alimentar com diabéticos e outros grupos de risco, por si já acompanhados; Farmacêuticos a prescrever suplementos alimentares… Houve quem se queixasse que estas profissões usurpavam as funções do nutricionista, mas, mesmo em equipas multidisciplinares, a indefinição do enquadramento regulatório fez com que a Nutrição deixasse de ter um “responsável” claro e único. O nutricionista, que estava quase a consolidar o seu valor, viu a sua influência diluída num contexto de maior capacitação de todas as profissões de saúde e de alterações regulatórias…

E que dizer da maturidade das ferramentas de inteligência artificial? Em 2036, qualquer pessoa podia obter, em segundos, planos alimentares personalizados, ementas adaptadas a condições clínicas específicas e revisões atualizadas da evidência científica. As IA eram rápidas, baratas, constantemente atualizadas e, sobretudo, convenientes. Aquilo que durante décadas foi apresentado como o núcleo técnico da profissão, praticamente deixou de justificar a intervenção humana. Sim, o contacto pessoal continuava a ser fundamental. Mas as gerações que estiveram frente ao ecrã de um smartphone desde que nasceram, já não valorizavam tanto o contacto humano e, acima de tudo, não prescindiam dos dispositivos que vieram substituir os telemóveis e que eram ainda mais engajadores e convenientes… Uma consulta com outro humano, tinha-se tornado um luxo dispensável para a maioria das pessoas, sobretudo quando as respostas (certas ou erradas, essa é outra questão) estavam disponíveis a qualquer momento na palma da mão.

Lisboa, Capital da Nutrição 2026

Perante este cenário, houve quem insistisse nas acusações para o exterior, o dedo apontado aos “outros”! Mas a irrelevância dos nutricionistas não tinha sido imposta ou determinada apenas por fatores externos. Fora também construída por dentro, alimentada por uma falta de visão coletiva e pela incapacidade de adaptação às exigências anunciadas. A profissão quase se tinha tornado respeitada e indispensável, mas falhou em definir claramente o seu propósito num mundo em mudança. Em 2036, a Nutrição continuava a ser fundamental para a sociedade; o nutricionista, porém, tinha-se tornado menos relevante.

Cenário de um distante futuro distópico, ou possibilidade real num horizonte relativamente próximo? Agora que entramos em 2026, importa que todos os nutricionistas olhem um pouco mais para o futuro da profissão, independentemente da situação em que estejam. Os desafios que todos enfrentamos são enormes e as suas consequências não deixam de fora nenhum de nós, mesmo aqueles que “estão bem”. O envolvimento nos assuntos da profissão, mais do que nunca, é fundamental. Saber o que se passa e participar ativamente no debate sobre as escolhas que a profissão tem pela frente nos próximos anos, é essencial para um futuro de reconhecimento e valorização de todos os nutricionistas. Agora é o momento de olhar para o futuro, para que nesse futuro não haja lugar para o arrependimento do “quase”.