Quando a comida deixa de ser comida e passa a ser uma ameaça… 95

Por Carlos das Neves, chief scientist da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, em inglês). 

 

Houve um tempo em que a segurança alimentar significava, essencialmente, prevenir surtos e evitar intoxicações. Hoje, tornou-se algo muito mais íntimo e, muitas vezes, mais complexo. A segurança alimentar já não é apenas um tema regulatório; é um território psicológico, por vezes moldado pelo medo, pela incerteza e por um fluxo constante de informação nem sempre bem contextualizada.

Na era dos rótulos, das aplicações, dos avisos e dos influenciadores digitais, comer transformou-se num exercício diário de gestão do risco. Calorias, aditivos, pesticidas, alergénios e métodos de processamento são apenas alguns dos parâmetros a que cada refeição parece ter de se submeter para obter uma justificação moral e científica. Para muitos, isto não resulta em mais saúde, mas em mais ansiedade, rigidez e restrição.

Mas contra factos (científicos) não há argumentos: a comunicação distorcida sobre segurança alimentar contribui para perturbações do comportamento alimentar, como o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE) ou a ortorexia nervosa. Nestes quadros, o problema não é a imagem corporal, mas o medo da contaminação, da doença ou da perda de controlo. A comida deixa de ser nutrição e passa a ser uma ameaça a neutralizar.

Coma menos, mexa-se mais: “Continuar a acreditar nisto é ignorar décadas de investigação científica”

No contexto clínico, deparamo-nos cada vez mais com doentes cuja alimentação é inadequada não por falta de informação, mas por excesso de informação filtrada pelo medo. A resposta não pode ser desvalorizar estes receios, mas também não pode ser validar desinformação. Isto implica avaliar medos relacionados com a segurança alimentar no rastreio das perturbações alimentares, reformular a noção de “alimentos perigosos” e privilegiar a adequação e a flexibilidade em detrimento da “pureza”.

Na era das chamadas “ciberpatias” (distúrbios transmitidos digitalmente), enfrentamos uma crise de desinformação. As redes sociais amplificam frequentemente vozes não profissionais como a dos poderosos influenciadores que enquadram a comida em termos moralistas: “pura” versus “tóxica”, “saudável” versus “perigosa” ou “limpa” versus “contaminada”. Estas narrativas pseudocientíficas promovem abordagens nutricionais que, sobretudo em jovens, podem ser perigosas, com consequências graves a curto, médio e longo prazo.

O Regulamento Geral sobre os Alimentos da União Europeia (Regulamento n.º 178/2002) estabelece a comunicação do risco como um dos três pilares fundamentais da segurança alimentar, a par da avaliação e da gestão do risco. O seu objetivo principal é promover a compreensão pública dos riscos associados aos alimentos, explicar incertezas científicas, apoiar escolhas informadas e reforçar a confiança no sistema europeu de segurança alimentar. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), em conjunto com os pontos focais nacionais (no nosso caso a ASAE), desempenha um papel central na comunicação de pareceres científicos e dos respetivos níveis de incerteza, assegurando que a informação seja clara, rigorosa e acessível. Esta comunicação contribui para a credibilidade científica, a legitimidade das decisões regulatórias, a proteção da saúde pública e pode, permito-me sugerir, ajudar também a reduzir perturbações alimentares que crescem na sombra da desinformação.

Lisboa, Capital da Nutrição 2026

Como cientistas e profissionais, é crucial combater esta ficção com informação científica robusta. Alguns estudos indicam que menos de 25% dos conteúdos sobre segurança alimentar nas plataformas digitais têm origem em instituições científicas ou profissionais, deixando um vazio ocupado pela “incerteza técnica” e pelo alarmismo. Vivemos num tempo em que o “conhecimento” popular se propaga mais rapidamente do que a ciência e em que a certeza é mais valorizada do que a precisão. Neste contexto, o silêncio dos especialistas não é neutralidade, é cumplicidade! Combater a ficção com factos não é suficiente; é necessário combatê-la com melhores narrativas, melhores explicações e melhores políticas. Só assim teremos pessoas mais informadas e mais saudáveis.