
Por Conceição Calhau, professora catedrática e nutricionista clínica (0572N).
Falar de saúde intestinal em Portugal é, ainda hoje, entrar num território paradoxal: embora quase metade da população (45%) admita sofrer de desconforto intestinal persistente, este continua a ser um “território por explorar”, muitas vezes remetido ao silêncio e ao tabu.
O relatório “A Saúde Intestinal dos Portugueses”, projeto Saúdes, revela uma realidade preocupante: vivemos numa sociedade que normaliza a dor e o mal-estar, ignorando que o que se passa no “tubo digestivo” é, na verdade, um pilar central da nossa saúde física e mental.
O primeiro erro que cometemos é a normalização do desconforto. É alarmante que 75% das pessoas com queixas persistentes não tenham um diagnóstico médico. Esta ausência de respostas empurra os portugueses para uma “zona cinzenta”, onde o sofrimento é desvalorizado por familiares e, por vezes, pelos próprios profissionais de saúde.
Como resultado, a maioria aprende a “viver com o limite do tolerável”, ajustando a sua vida ao desconforto em vez de o tratar.
Esta negligência é particularmente grave quando olhamos para o eixo intestino-cérebro.
Quase três milhões de portugueses com desconforto intestinal persistente
Hoje, a ciência já não vê o intestino como um simples sistema de absorção de nutrientes, mas como um “segundo cérebro” dotado de uma rede nervosa própria que dialoga constantemente com o sistema nervoso central.
Não é coincidência que 42% dos inquiridos sinta ansiedade durante episódios de desconforto. O intestino influencia o humor, o sono e a autoestima, criando um círculo vicioso onde o stress agrava os sintomas físicos, e estes, por sua vez, corroem o bem-estar mental.
Existe também uma marcada questão de género e geracional. As mulheres são quem mais reconhece viver com desconforto (64%), sendo também as mais vigilantes. Nos homens, o tabu é mais profundo, muitas vezes minimizando sintomas com humor ou evitando exames cruciais, como a colonoscopia, por estigmas de “masculinidade”. Por outro lado, é inquietante notar que os problemas nascem cedo: 45% dos sintomas surgem antes dos 25 anos, o que nos obriga a questionar o impacto dos estilos de vida e da alimentação inadequada desde a infância.
A resposta a este mal-estar tem sido o experimentalismo e o autodidatismo. Perdidas no sistema de saúde, muitas pessoas recorrem à pesquisa online e a exclusões alimentares por conta própria (como o corte do glúten ou da lactose sem orientação), o que pode fragilizar ainda mais a microbiota intestinal. A alimentação é vista como a “fórmula mágica”, mas é frequentemente gerida de forma fragmentada, sem o apoio necessário de nutricionistas, muitas vezes mais focada em retirar sintomas do que corrigir a causa.
Em suma, a saúde intestinal não pode continuar a ser um assunto de bastidores. É imperativo que a sociedade — e a classe médica — deixe de olhar para o intestino apenas quando há uma lesão visível em exames e passe a valorizar as perturbações funcionais, agora (Roma V) consideradas como perturbações do eixo intestino-cérebro, que condicionam a vida de milhões.
A nutrição em Portugal, na Europa e no Mundo (2006–2025): avanços, desafios e próximos passos
Precisamos de mais literacia, menos vergonha de falar sobre o que é “íntimo” e de uma abordagem clínica que integre a nutrição e a saúde mental. O intestino não é apenas um tubo. Mais do que ‘somos o que comemos, somos o que os nossos microorganismos comem’. Lembrando a importância que este mundo tem para a digestão e absorção dos alimentos e dos nutrientes, e a importância que têm para a nossa imunidade, certamente que a falta de saúde intestinal pode ser só uma causa e não ‘apenas’ um sintoma. Sendo um segundo cérebro, e na realidade sabemos que é o mesmo cérebro, a falta de saúde intestinal certamente compromete muito mais do que podemos, à partida, considerar. A importância do nutricionista vem reforçada. A necessidade de uma terapêutica em associação, quer farmacológica, médica, quer alimentar, do nutricionista, não pode continuar realidade virtual.
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