A 2.ª edição da VIVER SAUDÁVEL – Nutrition Summit & Exhibition (VS-NSE) acontece a 20 e 21 de novembro, na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Em antecipação, falámos com a nutricionista e coordenadora do Departamento de Alimentação e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) Alexandra Bento, que integra o painel ‘Estado da Arte da Nutrição em Portugal’, com Pedro Graça e Maria João Gregório.
VIVER SAUDÁVEL (VS) – Qual é hoje o principal desafio da Nutrição em Portugal e que respostas considera mais urgentes para o ultrapassar?
Alexandra Bento (AB) – Creio que o principal desafio da nutrição em Portugal é conseguirmos transformar o conhecimento científico que temos em mudanças efetivas e sustentadas na alimentação da população. Hoje conhecemos muito melhor a relação entre alimentação e saúde, dispomos de profissionais qualificados, temos investigação de qualidade e construímos, ao longo dos últimos anos, políticas públicas importantes. Ainda assim, persistem problemas muito relevantes: o excesso de peso e a obesidade, padrões alimentares inadequados, situações de insegurança alimentar, particularmente entre grupos mais vulneráveis.
Penso que precisamos de atuar em várias dimensões, de forma articulada. Por um lado, continuar a melhorar os ambientes alimentares, tornando as escolhas saudáveis mais acessíveis e facilitadas. Por outro lado, precisamos de reforçar a integração da Nutrição nas diferentes políticas e contextos de intervenção, não apenas nos serviços de saúde, mas também nas escolas, nos locais de trabalho, nas autarquias e nas restantes instituições da comunidade. A promoção da saúde faz-se também fora do sistema de saúde, através dos ambientes em que vivemos, das condições de acesso aos alimentos e das oportunidades que criamos para facilitar escolhas alimentares mais saudáveis.
“Serão os nutricionistas que dominam a IA a substituir os outros nutricionistas”
Há ainda uma dimensão que considero absolutamente fundamental: precisamos de conhecer melhor a realidade alimentar e nutricional da população, através de sistemas de vigilância e monitorização consistentes, que permitam identificar problemas, acompanhar tendências e avaliar o impacto das políticas públicas. Não basta produzir conhecimento; temos de conseguir transformá-lo em melhores decisões e em ganhos efetivos para a saúde da população.
VS – Que evoluções significativas destaca na área da Nutrição nos últimos anos e quais são as tendências que deverão marcar o futuro próximo da profissão?
AB – Considero que a nutrição evoluiu muito significativamente em Portugal, quer enquanto área científica, quer enquanto profissão e área de intervenção em saúde pública.
Destacaria, desde logo, a crescente valorização da nutrição como determinante da saúde, que se traduziu no desenvolvimento de políticas públicas, em programas de promoção da alimentação saudável, numa maior capacidade de investigação e numa presença cada vez mais reconhecida dos nutricionistas nos diferentes contextos de intervenção.
Temos também evoluído na capacidade de caracterizar os alimentos de uma forma cada vez mais abrangente, não apenas do ponto de vista da sua composição nutricional, mas também da sua qualidade e segurança. É fundamental conhecer melhor aquilo que consumimos, incluindo a presença de contaminantes químicos e outros perigos que podem representar riscos para a saúde, bem como avaliar a exposição da população a esses agentes. Esta capacidade de caracterização laboratorial, associada à monitorização do consumo alimentar e do estado nutricional, permite produzir evidência científica essencial para apoiar políticas públicas, proteger a saúde dos consumidores e melhorar a qualidade da oferta alimentar.
A reformulação dos produtos alimentares, nomeadamente a redução dos teores de sal e açúcar, é também um exemplo de como o conhecimento científico e a colaboração entre diferentes setores podem contribuir para modificar a oferta alimentar e beneficiar a população.
“O objetivo deve ser acrescentar vida aos anos, e não apenas anos à vida”
Mas penso que estamos agora perante uma nova etapa. Destacaria quatro tendências para o futuro próximo.
Primeiro, uma nutrição cada vez mais baseada em evidência, com maior capacidade de integrar dados sobre consumo alimentar, composição dos alimentos, exposição a contaminantes, estado nutricional e saúde.
Segundo, uma intervenção da nutrição cada vez mais transversal aos diferentes setores e contextos da sociedade, reconhecendo o seu papel não apenas na prevenção e nos cuidados de saúde, mas também na construção de ambientes alimentares mais saudáveis nas escolas, nos locais de trabalho, nas comunidades e nas instituições. Uma abordagem que acompanhe as pessoas ao longo de todo o ciclo de vida, desde a infância ao envelhecimento, e que contribua tanto para a promoção da saúde como para a prevenção da doença.
Terceiro, a crescente ligação entre nutrição, sustentabilidade e sistemas alimentares. Não podemos pensar na alimentação saudável sem considerar também a sustentabilidade dos sistemas que produzem, transformam, disponibilizam e distribuem os alimentos.
E, finalmente, a transformação digital, incluindo a inteligência artificial, que poderá abrir novas possibilidades na investigação, na vigilância nutricional e na personalização das intervenções. Mas estas ferramentas exigem rigor científico, validação e responsabilidade na utilização da informação.
Diria que o futuro da profissão passa por uma nutrição cada vez mais interdisciplinar, mais integrada nas políticas públicas e mais capaz de antecipar problemas, em vez de se limitar a responder a eles.
VS – Se tivesse de identificar uma prioridade para decisores políticos, profissionais de saúde e sociedade civil em matéria de Nutrição, qual seria e porquê?
AB – Se tivesse de escolher uma prioridade, diria que é necessário colocar a alimentação e a nutrição verdadeiramente no centro das decisões que influenciam a saúde da população. E isso exige uma responsabilidade partilhada.
Aos decisores políticos compete criar condições para que as políticas de alimentação e nutrição tenham continuidade, sejam articuladas entre setores e assentem em evidência científica e que permitam concretizar o direito a uma alimentação adequada.
Aos profissionais de saúde compete assumir um papel ativo na promoção da alimentação saudável, na prevenção do risco nutricional e na criação de condições que favoreçam escolhas alimentares mais saudáveis, numa abordagem integrada e ao longo de todo o ciclo de vida.
Na VS-NSE, “o conhecimento aproxima-se da vida real e pode transformar decisões”
À sociedade civil – incluindo escolas, autarquias, instituições e setor alimentar – compete participar ativamente na construção de ambientes que favoreçam escolhas alimentares mais saudáveis.
Mas há algo que considero essencial: precisamos de tomar decisões com base em conhecimento e avaliar os resultados dessas decisões. É fundamental investir na produção de dados de qualidade, na caracterização dos alimentos, na monitorização do consumo alimentar e do estado nutricional e na avaliação do impacto das medidas implementadas. As instituições científicas e os laboratórios de referência têm aqui um papel muito relevante, porque ajudam a transformar a informação em evidência robusta, independente e útil para a proteção da saúde pública.
No fundo, precisamos de passar de uma lógica em que a alimentação saudável é sobretudo uma recomendação dirigida ao cidadão, para uma abordagem em que as políticas, os serviços, os mercados e os ambientes em que vivemos também assumem responsabilidade. A alimentação saudável não pode depender apenas da capacidade individual de fazer boas escolhas. Temos de criar condições para que essas escolhas sejam efetivamente possíveis.
A Cidade da Nutrição
A menos de um mês do arranque, são já largas as centenas de participantes que reservaram o seu lugar na VS-NSE, que se estreia este ano em Lisboa, depois da primeira edição realizada na Exponor, em Matosinhos. Nos dois palcos programados, haverá espaço para conversas inspiradoras, workshops práticos com especialistas e tempo para pensar o futuro da Nutrição e da Saúde.
Destaques para a zona Care – com testes, rastreios e avaliações gratuitas de saúde e bem-estar – e para a área de Showcooking ao vivo, com receitas saudáveis, sabores inovadores e dicas práticas de cozinha. Na área Discover, teremos ativações de marca, onde o visitante pode descobrir todas as novidades e inovações. Também haverá a nova área Play, pensada para os mais novos.
As inscrições estão abertas e são gratuitas para profissionais de saúde, estudantes de ciências da vida, investigadores e outros profissionais da indústria alimentar e farmacêutica, que podem participar nos dois dias. Também o público em geral poderá participar no dia que lhe é dedicado, 21 de novembro, mediante inscrição prévia.




