
Integrar cuidados, liderar pessoas e equipas, demonstrar resultados e contribuir para a formação foram alguns dos desafios debatidos no painel ‘O Papel Estratégico dos Serviços de Nutrição na Criação de Valor em Saúde’. A discussão decorreu na V Reunião dos Diretores dos Serviços de Nutrição do Sistema Nacional de Saúde, realizada a 17 de setembro, no Auditório da Unidade Hospitalar de Lamego, e organizada pelo Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD).
Contar consultas permite conhecer uma parte da atividade dos Serviços de Nutrição. Mas como avaliar o seu contributo para a prevenção da doença, a melhoria dos cuidados e a utilização dos recursos? A distinção entre produção e resultados em saúde atravessou um debate que juntou perspetivas da gestão, da prática profissional, das políticas públicas, da vigilância nutricional e da academia. Esta reflexão liga-se também ao lema institucional da ULSTMAD: ‘… o trilho da longevidade.’
Moderado por Catherine Pereira, assessora de comunicação e apresentadora, o painel reuniu Sara Mota, presidente do Conselho de Administração da ULSTMAD, Graça Ferro, diretora do Serviço de Nutrição e Alimentação da Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM), Hugo Moreiras, em representação da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direção-Geral da Saúde (DGS), Alexandra Bento, coordenadora do Departamento de Alimentação e Nutrição (DAN) do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), e Pedro Graça, diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP).
Integrar cuidados em “realidades distintas”
Sara Mota começou por constatar que as ULS estão em “patamares diferentes” e partem de “realidades distintas”. Na ULSTMAD, a “dimensão territorial”, a “dispersão da população” e o “envelhecimento da população” tornam “particularmente exigente” assegurar o acompanhamento ao longo do percurso de cuidados, “desde a prevenção à resposta hospitalar”.
A integração de cuidados exige comunicação entre profissionais e acesso à informação. “Os recursos são finitos e vão ser sempre insuficientes para as nossas necessidades”, declarou. A existência de sistemas informáticos que não comunicam entre si foi apontada como um obstáculo, com consequências na continuidade dos cuidados e no aproveitamento de “recursos limitados”. Entre as possibilidades de aproximação entre níveis assistenciais, a responsável referiu o recurso à teleconsulta para apoiar a articulação entre profissionais.
A presidente do Conselho de Administração da ULSTMAD identificou uma dicotomia entre o financiamento per capita – em função da população abrangida – e a exigência de cumprir metas de produção. Uma situação que classificou como “um contrassenso que o próprio Ministério [da Saúde] nos está a fazer chegar”. A aposta na prevenção deveria reduzir a necessidade de consultas, tratamentos e cirurgias, mas as orientações recebidas seguem no “sentido contrário”.
Maria João Gregório chamou a atenção para a distribuição dos nutricionistas, mais concentrados nos cuidados de saúde hospitalares (CSH) do que nos cuidados de saúde primários (CSP), e para o peso da atividade assistencial. Defendeu uma participação dos Serviços de Nutrição em “todo o processo de planeamento de saúde”, desde a identificação das necessidades da população à definição das intervenções – na área da obesidade, por exemplo –, em “articulação com a saúde pública”.
Liderar também é saber delegar
A capacidade de criar valor depende igualmente dos contextos em que as equipas trabalham. “O Serviço Nacional de Saúde (SNS) precisa de líderes que inspirem”, afirmou Graça Ferro, que abordou a dificuldade de inspirar e motivar profissionais quando persistem barreiras na contratação, estagnação na carreira e défice de reconhecimento.
A avaliação individual mereceu particular atenção. A diretora do Serviço de Nutrição da ULSAM alertou para o risco de uma concentração excessiva nos objetivos de desempenho prejudicar a colaboração e desviar a atenção da prestação de cuidados. As expectativas dos profissionais e os limites impostos pelas quotas tornam o processo de avaliação “especialmente exigente” para quem dirige os serviços.
Mas a liderança faz-se também na distribuição de responsabilidades. A presidente do Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica da Ordem dos Nutricionistas (ON) apelou à delegação em função das competências dos elementos da equipa e à preparação de quem possa assegurar a continuidade do trabalho. “O líder tem de estar a preparar o próximo líder, desde o momento em que é nomeado”, indicou, lançando a questão: “Se amanhã formos embora, este serviço fica autónomo?” Um serviço deve estar preparado para funcionar na ausência de quem o dirige, com conhecimento partilhado dos problemas, dos objetivos e das diferentes áreas de intervenção.
Tornar visível o trabalho desenvolvido
Na avaliação dos serviços, Hugo Moreiras sugeriu olhar para os resultados clínicos e para a experiência dos utentes, ultrapassando a contagem de atos. A “eficiência” e a “sustentabilidade” devem acompanhar essa análise, permitindo perceber “o que a intervenção acrescenta aos cuidados prestados”.
O administrador hospitalar da ULSTMAD apontou também a importância da informação padronizada e da articulação com a codificação clínica para “retratar melhor a realidade assistencial”.
Maria João Gregório salientou o papel dos registos na visibilidade do trabalho desenvolvido. “Quando não identificamos o problema, quando não codificamos o problema, é como se ele não existisse”, anotou. A discussão incluiu o SClínico e a necessidade de preencher campos estruturados, para que a atividade possa ser contabilizada. Graça Ferro reforçou que o registo em texto livre, por si só, não assegura essa possibilidade.
A diretora do PNPAS propôs ainda uma organização que reconheça o nutricionista como um “recurso altamente especializado”. A estratificação do risco, a definição de protocolos e a capacitação de outros profissionais podem ajudar a adequar as respostas, reservando a intervenção especializada para as situações que dela necessitam.
Alexandra Bento trouxe à reflexão a vigilância nutricional da população. A antiga bastonária da ON realçou a “muita informação” de que os Serviços de Nutrição já dispõem e sublinhou o potencial dos dados produzidos no terreno para “voltar a devolver valor aos territórios”.
Criar tempo para aprender e avaliar
Pedro Graça centrou parte da intervenção na relação entre a academia e os Serviços de Nutrição. A falta de tempo – “estamos num tempo que não tem tempo e, quando não há tempo, não falamos uns com os outros”, salientou – dificulta o encontro entre ambos, mas a colaboração exige também reconhecer as “vantagens diretas” de trabalhar em conjunto e criar condições para ensinar e aprender. Evocou o ‘Manual de Dietas Hospitalares’ como um “bom exemplo” de um trabalho conjunto de sistematização que aproximou linguagens e práticas de diferentes instituições.
O diretor da FCNAUP preconizou a criação de condições estruturais nos Serviços de Nutrição para que os profissionais “possam dedicar mais tempo à formação” e “sejam reconhecidos por isso”. Destacou a importância da aprendizagem contínua, perante a evolução do conhecimento e de ferramentas como a inteligência artificial, aliando a disponibilidade para aprender à valorização das competências específicas dos nutricionistas.
O desafio estende-se à demonstração do impacto da profissão. “Qual é o custo do nutricionista e qual é o seu efeito? O que é que ele produz?”, interrogou Pedro Graça, defendendo o contributo da gestão e da economia para avaliar custos e resultados e fundamentar decisões de investimento. A importância da Nutrição precisa de ser acompanhada por evidência que mostre o que acrescenta à saúde das pessoas e ao funcionamento das organizações.
O convidado lembrou que “a saúde dos cidadãos acontece, na maior parte das vezes, fora da minha casa [sistema de saúde], porque a minha casa é para tratar”.
Créditos: ULSTMAD
“Nós, nutricionistas, dizemos frequentemente que curamos as pessoas com alimentos. Ora, os produtores de alface ficam muito contentes, mas os produtores de medicamentos não. E, como sabem, o poder de quem produz medicamentos no Ministério da Saúde, no sistema de saúde, é infinitamente maior do que quem produz alfaces”, observou, valorizando o lugar da alimentação na promoção da saúde. “Os nutricionistas e as alfaces precisam de ser protegidos. São duas espécies fundamentais para a sociedade portuguesa”, gracejou, entre risos da assistência.
Pedro Graça contestou ainda a idealização da alimentação do passado. “A comida da nossa avó nunca foi boa. Era extremamente fumada, extremamente alcoólica, extremamente açucarada e extremamente pobre, e as nossas avós morriam muito cedo e nós queremos viver até mais tarde”, assinalou. “O nutricionista precisa de mudar isto tudo. O passado traz-nos saudade, mas não nos traz saúde”, rematou.
O painel terminou com uma discussão muito participada pela assistência, que partilhou questões e experiências sobre os desafios colocados aos Serviços de Nutrição.


















