Congresso ON: “Quanto maior for a nossa capacidade de influenciar escolhas, maior é a nossa responsabilidade”

A 3.ª edição do Congresso da Ordem dos Nutricionistas regressa, depois de sete anos de interregno, nos dias 9 e 10 de outubro, com encontro marcado no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima. Em antecipação, falámos com Elsa Madureira, que integra o painel ‘Psicologia da Alimentação: da escolha do consumidor ao desenvolvimento do produto‘, no primeiro dia do evento.

“Os nutricionistas têm hoje uma capacidade de influência muito mais ampla do que aquela que tradicionalmente se associava à interação em consulta individual”, começa por explicar a presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Nutricionistas, ao dar conta de que os colegas “atuam em inúmeras áreas, desde o desenvolvimento de produto até à definição de políticas públicas, estão presentes nas redes sociais, nos meios de comunicação, na indústria alimentar, no marketing, na investigação“.

A nutricionista sublinha que a crescente presença dos nutricionistas nos diferentes canais de comunicação traz consigo uma maior responsabilidade, precisamente pelo seu papel enquanto profissionais de saúde. Na sua perspetiva, qualquer mensagem transmitida, de forma direta ou indireta, tem “um peso acrescido nas escolhas alimentares dos cidadãos“. Por isso, defende que a comunicação em nutrição deve assentar no rigor científico, na independência e na transparência, sem esquecer a necessidade de contextualizar a informação e torná-la verdadeiramente compreensível para o público. “Não basta comunicar informações verdadeiras, é preciso que elas estejam contextualizadas e devidamente compreensíveis para o cidadão”, salienta.

Congresso ON: Para combater a desinformação, os nutricionistas “não devem ter medo de se expor”

Uma vez que “as escolhas alimentares são cada vez mais influenciadas por estratégias de comunicação, arquitetura da escolha e ambientes digitais, a ética profissional do nutricionista é exatamente o que permite garantir que a informação disponibilizada é, para além de rigorosa do ponto de vista científico, verdadeiramente acessível e compreendida por quem a recebe e que leva a escolhas e decisões informadas”, acrescenta.

Impacto positivo ou negativo

Para Elsa Madureira, “a ética acrescenta valor à competência técnica“. É por isso mesmo que, acredita, “uma comunicação eticamente responsável deve ser cientificamente fundamentada, baseada na evidência existente, transparente quanto a relações ou interesses suscetíveis de influenciar a mensagem e suficientemente clara para permitir uma compreensão adequada por parte do público, não explorando as vulnerabilidades de alguns grupos populacionais“. Trata-se, portanto, de um “princípio da autonomia, que permite que seja o cidadão a fazer as escolhas de forma esclarecida”.

Dirigindo-se a todos os colegas, a responsável pede que não subestimem o impacto da sua intervenção ou comunicação, e concretiza: “uma frase numa consulta, uma publicação numa rede social, a participação numa campanha, a recomendação de um produto ou uma decisão tomada durante o desenvolvimento ou marketing de um alimento podem influenciar escolhas e comportamentos de forma muito significativa”.

Demonstrar o valor da Nutrição para além das consultas

Havendo uma influência clara, poderemos estar perante um “impacto extremamente positivo, por promover a literacia, escolhas conscientes e melhores resultados em saúde“. Por outro lado, quando não devidamente ponderada, a comunicação do nutricionista pode “reforçar a desinformação, criar expectativas irrealistas, aumentar receios ou atribuir legitimidade profissional a mensagens não sustentadas pela evidencia“, alerta.

Perante este cenário, Elsa Madureira é clara ao garantir que a ética não deve ser vista como uma limitação à comunicação ou à inovação, mas sim como uma ferramenta que “permite que essa capacidade de influência seja exercida de forma responsável e preserve a confiança da sociedade na profissão“.

Se o conhecimento científico “dá ao nutricionista capacidade para influenciar escolhas”, a ética profissional “deve garantir que essa capacidade é exercida com independência, prudência e respeito pela autonomia do cidadão”. “Quanto maior for a nossa capacidade de influenciar escolhas, maior é a nossa responsabilidade de proteger a liberdade e a confiança de quem escolhe“, conclui.

Reencontro e afirmação da profissão

“O regresso do Congresso é um momento de reencontro e de afirmação da profissão, através do qual queremos partilhar conhecimento e ciência, pelo que constitui um motivo de orgulho para esta Direção”, garante, em entrevista, Carla Pedrosa, vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas e membro da Comissão Organizadora e Científica do Congresso.

O Congresso da Ordem dos Nutricionistas conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República e terá em palco nomes de revelo do setor da saúde, como são os casos do diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, e dos bastonários das Ordens Profissionais dos Médicos, Farmacêuticos, Fisioterapeutas e Veterinários, além de, naturalmente, vários nutricionistas, como Pedro Graça, diretor da FCNAUP, e Joana Oliveira Silva, deputada na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. A VIVER SAUDÁVEL é media partner.