Vem aí (mais) uma crise

Por Rodrigo Abreu, Nutricionista na Rodrigo Abreu & Associados e Fundador do Atelier de Nutrição®

 

Para os nutricionistas que dão consultas em Portugal, o diagnóstico do país não se faz apenas através de análises ao sangue ou pesagens, faz-se, cada vez mais, ao olhar para o talão de compras do supermercado. Com uma nova crise económica a pairar no horizonte, alimentada pela persistente instabilidade geopolítica global, pela escalada dos custos dos combustíveis e pela subida dos juros, a pergunta que ecoa na Consulta de Nutrição é tão legítima, quanto alarmante: comer “bem” tornou-se um luxo reservado a poucos?

A Dieta Mediterrânica, classificada como Património Imaterial da Humanidade, é motivo de orgulho e referência de saúde, uma orientação para um padrão alimentar protetor, para mais, local, “nosso”. Baseada na simplicidade, na sazonalidade e no equilíbrio, enfrenta no entanto um exigente teste de sobrevivência em solo nacional. O azeite transformou-se no novo “ouro líquido”, o peixe fresco parece uma miragem na mesa de muitas famílias e as leguminosas e vegetais sofrem flutuações de preço que testam qualquer orçamento familiar. O poder de compra dos portugueses continua a descer, empurrando as franjas mais vulneráveis da população para escolhas mais baratas, muitas vezes energeticamente densas, mas nutricionalmente pobres ou desinteressantes.

Nutrição como cuidado: integrar, preservar e humanizar

Perante este cenário, o panorama institucional falha gravemente. A crónica escassez de nutricionistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) deixa um vazio sistémico, precisamente onde a prevenção e a literacia alimentar deveriam atuar como primeira linha de defesa. Sem uma rede pública robusta de nutricionistas que, nos “centros de saúde”, nas escolas ou nos “lares”, possa tornar acessível e exequível o conhecimento nutricional, estamos provavelmente condenados a ter cada vez mais pessoas a comer pior. Não por falta de reconhecimento da importância da Nutrição, mas porque simplesmente não têm acesso a consultas ou apoio especializado para poderem comer de forma mais saudável e mais barata.

Ensinar as pessoas a comer melhor gastando menos é uma urgência de Saúde Pública. Exige que a alimentação saudável deixe de ser sinónimo de “superalimentos” exóticos e marcas ou produtos de “prestígio”, para regressar às origens. É preciso reabilitar o papel das leguminosas secas e em conserva, fontes de proteína vegetal baratas, saciantes e convenientes. É imperativo ensinar o consumidor a olhar para a secção dos congelados com menos preconceito, aumentando o consumo de vegetais e pescado que mantêm as propriedades nutricionais a preço mais baixo. A prescrição nutricional tem de incluir a gestão doméstica, aumentando a literacia alimentar, combatendo o desperdício, preferindo o local e sazonal – as calorias e os cifrões são igualmente importantes para cada vez mais pessoas.

Congresso ON: Presidente da República, secretários de Estado e diretor do SNS valorizam nutrição

Saber comer em Portugal não pode ser um luxo. Um país tão exposto às variações da economia, onde consequentemente o SNS falha por omissão, precisa de aliar o típico “desenrascanço” português ao pragmatismo científico do nutricionista. Provavelmente vem aí (mais) uma crise: será uma nova oportunidade de resiliência profissional e, novamente, o desafio de “fazer mais, com menos”. Talvez seja uma oportunidade de mostrar que a verdadeira Dieta Mediterrânica é sobre a dignidade de nos sabermos alimentar e nutrir com o que temos de simples e bom, sobretudo quando a carteira parece falhar.