
Da obesidade à longevidade saudável, a continuidade dos cuidados, a preservação da autonomia e a responsabilidade ética estiveram em debate no painel ‘Quando a nutrição se faz cuidado’. A sessão integrou o III Congresso do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD) e destacou a importância de aliar o conhecimento científico ao respeito pela singularidade de cada pessoa.
Organizado em parceria com a Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega (APSAT), sob o mote ‘Nutrição 360º – Ciência e Tecnologia ao Serviço das Pessoas’, o congresso decorreu a 18 de setembro, no Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego.
Cláudia Botelho e David Pinto, do Serviço de Nutrição da ULSTMAD, partilharam a moderação com Cristina Teixeira, do Serviço de Nutrição da ULS de São João, e Nuno Nunes, do Serviço de Nutrição da ULS da Arrábida.
Obesidade: dar continuidade aos cuidados
José Camolas, da ULS de Santa Maria, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e da Egas Moniz School of Health & Science (EMSHS), pronunciou-se sobre o tema ‘Obesidade: integrar cuidados e inovar na abordagem’. “As doenças crónicas não se tratam, gerem-se”, sublinhou, enquadrando a necessidade de um acompanhamento continuado.
O Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade foi apresentado como uma ferramenta para organizar uma resposta multidisciplinar, articulada entre cuidados de saúde primários (CSP) e cuidados de saúde hospitalares (CSH) e “sustentada ao longo do tempo”. “Promover equidade no acesso”, “assegurar equipas especializadas”, “adequar e padronizar cuidados” e “monitorizar resultados” integram os seus objetivos.
O índice de massa corporal (IMC) foi integrado numa avaliação mais ampla: “O IMC mantém-se útil, mas a decisão clínica deve integrar risco, funcionalidade, comorbilidades e contexto da pessoa”, referiu.
O plano individual de cuidados deve assentar na evidência e adaptar-se à situação clínica e à experiência da doença. A intervenção nutricional acompanha as diferentes etapas: educação alimentar; dieta personalizada; suporte no tratamento farmacológico; acompanhamento antes e depois da cirurgia; apoio na manutenção dos resultados; e resposta à recidiva.
O nutricionista destacou também a importância de combater o estigma e de fortalecer a articulação entre as diferentes profissões e níveis de cuidados. A concretização do percurso exige “equipas multidisciplinares da obesidade capazes e capacitadas”, “recursos humanos suficientes, motivados e diferenciados” e “sistemas de informação, monitorização e de apoio à atividade e decisão clínica adequados”. “Uma boa intenção deve tornar-se consequente”, sinalizou.
Para além da balança
Seguiu-se a intervenção de Conceição Calhau, da NOVA Medical School, dedicada à relação entre a microbiota intestinal e a saúde mental. Antes de desenvolver o tema, reforçou que “a obesidade não é só uma questão de peso” e defendeu que os nutricionistas possam “prescrever análises [clínicas]”, apelando à Ordem dos Nutricionistas (ON) para promover essa competência. “Não fomos formados para estar só a olhar para a balança”, afirmou.
Créditos: ULSTMAD
Em concordância com José Camolas, salientou a importância de uma linguagem comum entre profissionais de saúde e do acesso a dados, nomeadamente sobre o colesterol e a sensibilidade à insulina, para “orientar a intervenção, monitorizar resultados e, até, predizer trajetórias”.
Viver mais anos com saúde e autonomia
Em ‘Movimento e nutrição: pilares da longevidade saudável’, Romeu Mendes, da Unidade de Saúde Pública da ULSTMAD, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), partiu da diferença entre esperança de vida e anos vividos com saúde. Os dados apresentados sobre Portugal enquadraram o desafio do envelhecimento, das doenças crónicas e das limitações nas atividades quotidianas, a par dos baixos níveis de atividade física.
A sarcopenia ocupou um lugar de destaque nesta reflexão. A apresentação relacionou o envelhecimento com a perda de massa, força e potência muscular e abordou a complementaridade entre exercício de força e intervenção nutricional, incluindo a ingestão proteica, na resposta a este problema.
O movimento pode também integrar as rotinas diárias. “Faça cada minuto contar!”, apelava uma mensagem da Organização Mundial da Saúde (OMS) incluída na apresentação, com exemplos como caminhar nas deslocações, utilizar as escadas ou brincar com as crianças. A avaliação destes hábitos surgiu associada ao questionário de atividade física do SClínico, que permite registar a frequência e a duração das atividades, bem como o tempo passado sentado.
A ética no encontro com cada pessoa
Paulo Santos, do Centro de Gestão da Mulher e Criança da ULSTMAD, dedicou a sua intervenção à ‘Ética e humanização nos cuidados nutricionais’. “A ciência diz-nos o que podemos fazer, mas não o que devemos fazer a uma pessoa concreta”, avançou, distinguindo as competências técnicas e as possibilidades de intervenção da responsabilidade de decidir em cada situação.
A reflexão percorreu as raízes da ética, o nascimento da bioética, os conflitos de valores e a humanização dos cuidados nutricionais. A dignidade, a liberdade, os valores e as condições socioeconómicas de cada pessoa foram apresentados como dimensões a considerar na “procura da melhor saúde e qualidade de vida possível”.
Essa atenção traduz-se em práticas concretas: pontualidade – “respeitar o tempo do doente e dos colegas”; comunicação relaxada – “falar sem pressa, num tom que abre espaço em vez de o fechar”; escuta ativa – “mais do que simplesmente ouvir, ouvir sem interromper, sem formular respostas enquanto o outro fala”. A empatia implica “colocarmo-nos no lugar do outro, reconhecer o que o outro sente, sem o julgar”; a compaixão acrescenta a “capacidade de reconhecer o sofrimento do outro” e a “vontade de ajudar a encontrar uma solução”.
No final, o enfermeiro gestor realçou a ligação entre os princípios éticos e a prática clínica: “O cuidado nutricional é sempre o cuidar de uma pessoa concreta”.












