
Conhecer o perfil biológico, compreender o comportamento e transformar informação em decisões clínicas. O painel ‘Da ciência dos dados à nutrição centrada no indivíduo’, integrado no III Congresso do Serviço de Nutrição da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD), cruzou três perspetivas sobre a personalização dos cuidados, com uma preocupação transversal: adequar a intervenção às necessidades e às circunstâncias de cada pessoa.
O encontro decorreu a 18 de setembro, no Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego, organizado em parceria com a Associação de Profissionais de Saúde do Alto Tâmega (APSAT), sob o mote ‘Nutrição 360º – Ciência e Tecnologia ao Serviço das Pessoas’.
A moderação coube a Ana Lúcia Ribeiro, do Serviço de Nutrição da ULSTMAD, Graça Raimundo, do Serviço de Nutrição da ULS do Alentejo Central, e Patrícia Almeida Nunes, do Serviço de Dietética e Nutrição da ULS de Santa Maria.
Da precisão biológica à mudança de comportamento
“Uma recomendação precisa perde valor quando não é viável para a pessoa que a recebe.” A mensagem deixada por Eugénia Oliveira, do Serviço de Psicologia Clínica da ULSTMAD, resumiu o contributo da psicologia para uma intervenção nutricional personalizada.
Na apresentação ‘Personalização inteligente: psicologia aplicada à nutrição’, a avaliação genética e metabólica surgiu integrada numa análise que considera também a situação clínica, os hábitos, as emoções, as preferências e os recursos disponíveis. Pessoas com predisposições semelhantes podem ter “comportamentos e resultados diferentes”, influenciados pela motivação, pelas expectativas, pelo acesso a alimentos, pelos horários, pela cultura ou pelo apoio social.
Esta avaliação deve acompanhar a evolução de cada pessoa, indicou a psicóloga: “A personalização é um processo contínuo. O plano muda quando a resposta, as necessidades ou o contexto também mudam”.
A entrevista motivacional e a terapia cognitivo-comportamental foram apontadas como ferramentas para trabalhar a adesão. A primeira favorece uma “conversa colaborativa sobre mudança”, ao passo que a segunda permite “identificar e modificar pensamentos, emoções e comportamentos que influenciam os hábitos alimentares e a gestão do peso”, bem como “desenvolver estratégias de autorregulação” e “preparar respostas a situações de risco”.
Antecipar dificuldades em festas ou restaurantes, lidar com a pressão social e distinguir um deslize de uma recaída são exemplos dessa preparação. O objetivo passa por retomar o percurso sem abandonar o plano perante uma dificuldade. “Consistência flexível é mais sustentável do que perfeição intermitente”, anotou.
“Compreender a pessoa dá sentido clínico aos dados”, salientou numa das mensagens finais.
Medir o que importa para intervir melhor
João Vasques, da ULS de Amadora / Sintra e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), desenvolveu o tema ‘Nutrição de precisão: fronteiras e oportunidades’, partindo da variabilidade individual nas respostas à alimentação. A genética, o metabolismo e o microbioma fazem parte dessa equação, mas também o estado de saúde, a atividade física e as condições sociais e económicas.
Créditos: ULSTMAD
Esta abordagem procura compreender como diferentes fatores interagem e influenciam a resposta à dieta. O stress, os ritmos biológicos, os comportamentos e o ambiente integram esse olhar, que ultrapassa a análise isolada de um perfil genético.
Entre os tópicos expostos estiveram a lipidómica e a nutrigenética, a par das barreiras e dos perigos desta abordagem. A mensagem final do nutricionista condensou o critério para utilizar a informação: “Precisão não é medir mais, é medir o que importa para intervir melhor”.
O digital como apoio à continuidade dos cuidados
Em ‘A nova era da nutrição digital’, Marta Côvelo, do Serviço de Gestão de Informação da ULSTMAD, abordou a passagem de contactos pontuais para um acompanhamento contínuo. O presencial e o digital devem integrar um mesmo percurso, desde a preparação da consulta até à decisão partilhada e ao reajuste do plano entre contactos.
“Dados não são decisões. O valor nasce quando uma equipa transforma sinais em ações compreensíveis”, assinalou. Recolher informação é apenas uma etapa: é necessário integrá-la, interpretar tendências e riscos, definir ações e avaliar resultados. A qualidade dos dados, a comunicação entre sistemas e a responsabilidade clínica sustentam esse processo.
A estratificação de risco, a preparação da consulta, a personalização e o acompanhamento foram apresentados como aplicações concretas com “valor clínico imediato”.
A experiência da ULSTMAD serviu de exemplo através do projeto TREAT, associado à integração de dados e à monitorização remota; do Plano Individual Integrado de Cuidados (PIIC), com percursos individualizados, registos estruturados e apoio à decisão; e da aplicação MyULSTMAD, orientada para a comunicação com o utente.
A inteligência artificial pode ajudar a “sintetizar informação, detetar padrões, adaptar a comunicação e automatizar tarefas”. “O diagnóstico, a prioridade clínica, o plano terapêutico e as exceções complexas” exigem, contudo, responsabilidade humana. “Copiloto, não piloto automático”, realçou a especialista em aplicações de tecnologia da informação.
Ao nutricionista cabe “interpretar dados à luz da pessoa” e assumir funções de “gestor do conhecimento”, distinguindo informação relevante de ruído e avaliando a evidência, e de “comunicador”, capaz de “traduzir complexidade em escolhas possíveis”. É também chamado a participar na construção das soluções digitais, enquanto “co-designer”, e a ser “guardião” da ética, da qualidade e da confiança nos cuidados.
Compete-lhe, assim, orientar a mudança e analisar criticamente as respostas das ferramentas que utiliza. Uma competência central resumida pela palestrante: “Fazer melhores perguntas antes de aceitar respostas automáticas”.










