Muito além do sexo: A importância da personalização 183

Por Margarida Mira Silva; Nutricionista, 6469N; Técnica Superior e Investigadora da NOVA Medical School; Medalha de ouro nos 800m e 5000m nos Jogos Surdolímpicos, Tóquio 2025; Vice-campeã Surdolimpica nos Jogos Surdolímpicos, Tóquio 2025.

 

A nutrição desportiva tem sido historicamente estruturada em torno de pressupostos simplistas sobre diferenças entre os sexos, assumindo que homens e mulheres requerem estratégias alimentares fundamentalmente distintas.

Esta visão, amplamente difundida na prática clínica e na literatura aplicada, associa as mulheres à predominância da oxidação lipídica e à perda de massa gorda, enquanto os homens são caracterizados por maior capacidade de síntese proteica e desenvolvimento de massa muscular. Contudo, uma revisão científica publicada em 2026 demonstra que estas generalizações são excessivamente reducionistas e muitas vezes falham em refletir a complexidade metabólica individual.

O metabolismo humano é influenciado por uma rede multifatorial que vai muito além do sexo biológico. A composição corporal, a distribuição e a função da massa magra, o perfil hormonal, o estado endócrino, a idade cronológica e biológica, o nível de treino, a genética, o estado nutricional e fatores comportamentais e ambientais interagem para determinar a resposta metabólica a diferentes protocolos nutricionais. Reduzir esta complexidade a um determinante binário limita a eficácia das recomendações nutricionais e compromete a personalização do planeamento alimentar no contexto desportivo.

Grande Entrevista [Parte 1]: “Ser especialista não é só um título, é um selo de confiança”

Estudos recentes evidenciam que parâmetros fundamentais da nutrição aplicada, como a oxidação de substratos, a taxa máxima de oxidação lipídica e a sensibilidade à ingestão de macronutrientes, são altamente dependentes do contexto fisiológico. A intensidade e a duração do exercício, a disponibilidade energética, a composição corporal e o estado de treino modulam significativamente a forma como cada indivíduo utiliza os hidratos de carbono, os lípidos e as proteínas durante o desempenho desportivo.

Nessa perspetiva, o sexo biológico funciona como um modulador — sobretudo mediado por hormonas — entre muitos outros fatores, mas raramente constitui o principal determinante da resposta metabólica ou da eficácia de estratégias nutricionais específicas.

A título de exemplo, o ferro (ou a sua deficiência) é um tema frequentemente abordado na saúde da mulher atleta. No entanto, a evidência tem descrito riscos igualmente consideráveis em homens atletas, particularmente em praticantes de modalidades de endurance. Numa ciência em que muito se fala sobre os macronutrientes, a fibra é frequentemente deixada à margem, apesar de constituir uma intervenção nutricional relevante para a melhoria da microbiota intestinal e, consequentemente, para o aumento da absorção de micronutrientes importantes para a performance desportiva. Sabemos, por exemplo, que os ácidos gordos de cadeia curta, produtos da interação entre ‘fibra’ e microbiota, são responsáveis pela acidificação do microambiente, permitindo a absorção de minerais como o ferro. Mais, estes metabolitos na célula muscular são responsáveis pela ativação de vias anabólicas cruciais à síntese proteica, de glicogénio e até à biossíntese de mitocôndrias.

A persistência de abordagens generalistas na nutrição desportiva tem também raízes socioculturais e comerciais. Programas alimentares segmentados por sexo biológico, suplementos direcionados e planos nutricionais “personalizados” refletem muitas vezes conveniências de marketing mais do que rigor científico. Esta prática reforça estereótipos biológicos e promove determinismos simplistas, em detrimento de estratégias baseadas na avaliação individualizada de variáveis metabólicas e fisiológicas.

Alumínio, Alzheimer e Sílica: a tríada mistério na demência

A evolução da nutrição desportiva aponta, portanto, para a necessidade de uma abordagem personalizada, baseada na avaliação metabólica individual, na composição corporal detalhada, no perfil hormonal, no estado energético e na resposta específica ao exercício. Esta abordagem permite ajustar a ingestão de macronutrientes, a temporização alimentar e as estratégias de suplementação a cada indivíduo, superando a limitação de categorias binárias e aproximando-se da realidade biológica.

Esta transição não é apenas científica, mas também prática: dois indivíduos do mesmo sexo podem necessitar de estratégias nutricionais completamente diferentes, enquanto indivíduos de sexos distintos podem beneficiar de protocolos idênticos. Reconhecer esta variabilidade é fundamental para otimizar o desempenho e prevenir défices energéticos.

O corpo humano deve ser entendido como um sistema dinâmico, regulado por múltiplos determinantes fisiológicos, e não como uma entidade fixa definida pelo sexo. Avançar para estratégias nutricionais individualizadas representa, portanto, não apenas uma exigência científica, mas uma condição essencial para maximizar o desempenho desportivo e a saúde metabólica.

A nutrição no desporto precisa de transcender estereótipos e abraçar a complexidade individual. Apenas reconhecendo a variabilidade metabólica associada a fatores como o volume e a intensidade do treino, o microciclo desportivo, a idade, o perfil hormonal, a composição corporal (na qual se integra o peso e a sua correlação com a força), o ambiente de treino (temperatura, humidade ou altitude), as preferências alimentares, as alergias e as condições socioeconómicas é possível desenvolver intervenções eficazes.

Já se pode candidatar aos Prémios VIVER SAUDÁVEL 2026

Todos estes fatores devem constar dos protocolos de intervenção para oferecer uma personalização com recomendações eficazes, seguras e cientificamente fundamentadas. O corpo não é um rótulo, mas sim um sistema adaptativo. E a nutrição desportiva deve evoluir em conformidade.

 

Aceda a todos os artigos de opinião da Nova Medical School aqui