No seu 10.º aniversário, a VIVER SAUDÁVEL convidou 10 nutricionistas a avaliar uma década de Nutrição. O artigo de opinião que se segue é da autoria de Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição e professora Auxiliar do Instituto Universitário de Ciências da Saúde/CESPU.
Há dez anos nascia a revista VIVER SAUDÁVEL, no mesmo ano em que nascia a Acta Portuguesa de Nutrição, da Associação Portuguesa de Nutrição, duas revistas com objetivos bem distintos, mas a trabalhar para o mesmo público-alvo: os nutricionistas e os restantes profissionais da área da nutrição e alimentação.
Nesta altura já se aceleravam os processos de regulamentação da profissão de nutricionista, através da recém-criada Ordem dos Nutricionistas e começava-se a planear a mudança integral de estatutos e de nome da, então, Associação Portuguesa dos Nutricionistas para Associação Portuguesa de Nutrição (alteração efetuada em 2017). Em dez anos verificou-se um crescimento acentuado do número de licenciaturas conducentes à profissão de nutricionista, ultrapassamos uma pandemia por COVID-19, generalizou-se o uso das vias telemáticas, as redes sociais tornaram-se um lugar-comum para a comunicação dos nutricionistas e assistimos a uma explosão de ferramentas com recurso à inteligência artificial.
Todos estes acontecimentos proporcionaram mudanças na profissão de nutricionista e também na forma de comunicarmos e nos relacionarmos.
As quase duas décadas de experiência em que acompanhei de perto a profissão de nutricionista, através da lente do associativismo, e participando de forma ativa e continuada na formação académica e pós-graduada dos colegas, permitem-me considerar que as conquistas dos últimos dez anos foram importantes para a resiliência e a sustentação das concretizações da próxima década.
Será fundamental pensar o futuro e começar já a trabalhá-lo de forma consistente, para dignificar a nossa profissão e garantir que consigamos proporcionar os melhores cuidados à população e possam existir boas condições de trabalho para todos os colegas. Creio que, atualmente, estamos a passar pelas dores de crescimento de sermos cada vez mais. Apesar de parecer que o mercado se apresenta saturado, confesso que vejo este crescimento de forma otimista. Quantos mais nutricionistas formos, mais massa crítica constituiremos e mais teremos que nos reinventar e isso não é propriamente mau. Obriga-nos a ter que pensar fora da caixa e a propor novas abordagens em locais onde existem poucos ou nenhuns nutricionistas.
Contudo, será necessário saber preparar esse caminho e auspiciar que as instituições que trabalham de forma próxima da profissão tenham essa visão renovada, inspiradora e com os olhos postos no futuro. E também depende de cada um de nós, naturalmente. Será fundamental sabermos elevar a nossa profissão, não procurar a resposta mais fácil para os problemas que surgem, deixar uma marca positiva, aceitar o desafio de desbravar caminho (sim, ainda há muito para desbravar!), não ter receio de arriscar, trabalhar com base na evidência científica, e nunca esquecermos que cada um de nós carrega o peso de uma profissão. Ao sentirmos esse peso teremos a responsabilidade para prestar o melhor serviço pela(s) pessoa(s) que temos ao nosso cuidado ou que usufruirão dele e a lealdade para com todos os colegas de profissão, já que uma abordagem positiva fortalece a imagem e o reconhecimento de uma profissão, e uma abordagem menos cuidada ou não baseada em evidência científica contribui para a desvalorização da mesma.
E então o que há para desbravar? Existem, ainda, muitas áreas que podem crescer. Veja-se o exemplo do incremento notável da área da nutrição no desporto nos últimos anos. Costumo dizer aos meus alunos, futuros nutricionistas, que em qualquer entidade onde existam pessoas e/ou em que se possa falar de alimentação, pode ser lá integrado o trabalho de um nutricionista. Para isso, precisamos de pensar de forma mais abrangente e estratégica e amplificar os exemplos de sucesso, nacionais ou internacionais.
Neste contexto, considero que, no futuro, a área onde se experienciará maior expansão será a área da Nutrição Comunitária e Saúde Pública. Aqui, prevejo, por exemplo, que haja muito espaço para se crescer no âmbito da nutrição corporativa. Com gerações cada vez mais ávidas na procura de bem-estar, mesmo em contexto laboral, teremos futuros colaboradores que cada vez valorizarão mais as empresas que promovam saúde no local de trabalho e, neste contexto, os nutricionistas serão profissionais de excelência para ocupar um lugar nas equipas multidisciplinares da saúde laboral. Se, por um lado, será de valorizar a oferta de trabalho em populações em idade ativa, também haverá espaço na população idosa, cada vez em maior número e para quem um acompanhamento nutricional faz toda a diferença. Um raciocínio semelhante pode ser feito para o apoio às populações em situação de vulnerabilidade socioeconómica.
O desenho de estratégias alimentares e nutricionais por parte de profissionais com profundo conhecimento sobre os temas (como os nutricionistas) para o apoio ao setor social começa a ser cada vez mais valorizado. Além disso, também prevejo uma maior procura de nutricionistas escolares, visto que se assiste a uma crescente valorização na promoção da literacia alimentar desde as idades mais precoces.
Uma outra vertente, que tem procurado cada vez mais a colaboração de nutricionistas, e que ainda tem grande margem de progressão, é a indústria alimentar ou a indústria dos suplementos alimentares ou nutricionais, onde é possível trabalhar, desde a investigação, à produção e comunicação. Se, por um lado, estimo que haverá maior procura nestes contextos, também entendo que devem ser os próprios nutricionistas a criarem a necessidade, de forma a acelerar a procura. Nestas situações será importante encontrarmos qual o melhor gancho para despoletarmos o interesse e uma potencial contratação e, neste campo, destaco os temas da sustentabilidade alimentar como algo que marcará o futuro da nossa profissão, tendo em consideração a necessidade da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis. Acredito que as novas gerações de colegas terão tanto mais sucesso, em termos de empregabilidade, quanto mais sensíveis e conhecedores forem destes temas.
Sobre as novas áreas a progredir no futuro, concluía, acrescentando que entendo que as próprias instituições de ensino superior devem considerar (e têm concretizado) as atualizações dos planos curriculares como oportunidades para adaptarem a sua formação aos desafios do mercado de trabalho e até para abrirem os horizontes dos futuros profissionais. Urge debatermos sobre o nutricionista que queremos formar e ter no futuro. Nesta senda, a própria formação pós-graduada também tem um papel fulcral na preparação para o futuro, assim como a formação contínua, fundamental para a atualização profissional e a obtenção de novos conhecimentos.
Para os próximos dez anos gostaria de verificar uma revalorização crescente da evidência científica e sentido ético, associados à prática profissional do nutricionista, que são as condições basilares para o fomento das competências necessárias para o reconhecimento como especialista, e, desta forma, aumentar o número de colegas que integram cada um dos Colégios de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas. Paralelamente, almejaria uma progressão para novas abordagens na área da Nutrição Comunitária e Saúde Pública, em prol de uma aposta significativa na promoção da saúde da população, de forma integrada com as políticas públicas de melhoria dos ambientes alimentares. E gostaria de assistir a um crescimento do associativismo entre os colegas, tão necessário na unificação de objetivos comuns à profissão de nutricionista.
Perspetivo, ainda, que a Revista VIVER SAUDÁVEL se mantenha ao nosso lado, a colaborar na partilha de acontecimentos, reflexões, visões e registo histórico, bem como a ajudar os nutricionistas a estreitar os laços entre a saúde, a sustentabilidade, a cultura e as tradições, através da sua comunicação, sempre com uma visão inovadora e de futuro.
São 10 os artigos de opinião especiais que celebram o 10.º aniversário da Revista dos Nutricionistas. Aceda às reflexões já publicadas aqui.




