O arroz que chega à nossa mesa é sempre aquilo que o rótulo promete? Um novo estudo desenvolvido por investigadores do ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade NOVA de Lisboa – aprofunda conhecimento sobre a genética do arroz que compramos.
“Cerca de metade da população mundial tem no arroz a base da sua alimentação. Os portugueses, em particular, são os maiores consumidores da Europa, mas nem todo o arroz vem do próprio continente”, explica o ITQB NOVA em comunicado. Com a crescente popularidade das variedades exóticas e aromáticas, como o basmati, e o declínio da produção agravado pelas alterações climáticas, “aumenta o risco de alegações enganosas sobre a origem e a variedade dos produtos, um problema já assinalado pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar”. Contas feitas, “estas fraudes levam os consumidores a pagar mais por produtos que podem não corresponder ao anunciado e prejudicam produtores honestos”.
Para responder a estes desafios, investigadores do Laboratório de Genómica Funcional de Plantas, liderado por Margarida Oliveira, do ITQB NOVA, sequenciaram o genoma de vários tipos de arroz que circulam no mercado europeu, por vezes associados a preços mais elevados, e analisaram pequenas variações no DNA, conhecidas como Polimorfismos de Nucleótido Único (em inglês, Single Nucleotide Polymorphisms, SNPs).
“A fortificação não deve ser encarada como um indicador automático de saúde”
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, revelou a existência de dois grandes grupos genéticos no arroz analisado e identificou várias “assinaturas” de DNA que podem ser usadas para efeitos de certificação. “Identificámos cinco pequenas variações no genoma que, em conjunto, têm potencial de distinguir as 22 variedades que considerámos neste estudo”, explica Maria Beatriz Vieira, estudante de doutoramento no ITQB NOVA e coprimeira autora do estudo. “Esta poderá ser uma forma mais económica de identificar variedades comparativamente com painéis genéticos mais extensos e, portanto, mais caros”, acrescenta.
Os investigadores analisaram 22 variedades de arroz consideradas de elevado valor por produtores e industriais. Vinte destas variedades viram o seu genoma sequenciado pela primeira vez com este estudo.
A equipa comprovou também que a variedade portuguesa “Maçarico” é a que revela mais semelhanças com o arroz basmati quando comparado a outras variedades estudadas, um dado com particular interesse para a valorização do arroz nacional e para estratégias de melhoramento. Hugo Rodrigues, também estudante de doutoramento no ITQB NOVA e coprimeiro autor do artigo, explica: “Ao conhecermos melhor a relação genética destas variedades e as assinaturas que as distinguem, podemos não só detetar a fraude alimentar, mas também desenvolver arroz mais adaptado às condições mediterrânicas”, afirma.
Para além do impacto imediato na proteção do consumidor e na transparência do mercado, os dados agora disponibilizados identificam potenciais marcadores genéticos associados a características como a resistência à seca e a qualidade do grão. “Esta informação pode orientar estratégias de melhoramento genético e apoiar o desenvolvimento de variedades de arroz de maior qualidade e melhor adaptadas às condições ambientais atuais e futuras”, conclui Pedro Barros, investigador no Instituto e autor correspondente.
A informação gerada neste estudo já foi aplicada no âmbito do projeto europeu TRACE-RICE liderado pela investigadora Carla Brites, do Instituto Nacional de investigação Agrária e Veterinária, que envolveu o ITQB NOVA, e teve como objetivo a adoção de ferramentas custo-eficientes e ambientalmente seguras para garantir a rastreabilidade, autenticidade, mitigação de contaminantes e valorização de subprodutos na produção de alimentos à base de arroz no Mediterrâneo.




