O papel da alimentação na prevenção das doenças cardiovasculares e venosas

A prevenção das doenças cardiovasculares não acontece apenas no consultório, nem depende exclusivamente dos avanços da medicina. Ela começa à mesa, nas escolhas que fazemos todos os dias. A alimentação influencia fatores de risco cardiometabólico, como a tensão arterial, o colesterol, os níveis de glicemia e o peso corporal, mas o seu impacto estende-se também à saúde venosa.

No Dia Mundial da Alimentação, que hoje se celebra, Francisco Santos Coelho, especialista em Medicina Geral e Familiar, diretor do Departamento de Cuidados de Proximidade e adjunto da Direção Clínica dos Cuidados de Saúde Primários da ULS Tâmega e Sousa, alerta para a importância de adotar hábitos alimentares equilibrados e consistentes, tanto na prevenção como na gestão de diferentes problemas de saúde.

“A medicina permite-nos tratar cada vez melhor muitas doenças, mas há algo que continua a ser fundamental: a prevenção. E a alimentação tem um papel fulcral na prevenção das várias doenças cardiovasculares”, sublinha o especialista. Os hábitos alimentares são, assim, uma componente importante dos cuidados com a saúde e podem fazer a diferença a longo prazo.

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Mesmo quando existe predisposição genética para o desenvolvimento de doenças cardiometabólicas, as escolhas individuais continuam a ser relevantes. “A genética é importante, mas não determina tudo”, afirma o médico, salientando que uma alimentação equilibrada, associada à prática de atividade física e a outros hábitos saudáveis, pode ajudar a reduzir esse risco. “Não conseguimos mudar os genes com que nascemos, mas podemos decidir a forma como cuidamos da nossa saúde”, explica em comunicado da Servier.

A saúde das artérias começa também à mesa

A relação entre alimentação e saúde cardiovascular é particularmente relevante quando se consideram os fatores que contribuem para o desenvolvimento da aterosclerose, um processo caracterizado pela acumulação de placas de gordura nas paredes das artérias. Segundo o especialista, a alimentação influencia fatores como os níveis de colesterol, a tensão arterial e a quantidade de açúcar em circulação, que, quando descontrolados, podem contribuir para o desenvolvimento e a progressão de doenças cardiovasculares.

Por outro lado, determinados padrões alimentares estão associados a melhores resultados cardiovasculares. É o caso da alimentação mediterrânica, rica em hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e azeite.

“Padrões alimentares ricos em produtos ultraprocessados, açúcares adicionados, sal e gorduras de pior qualidade podem contribuir para alterações metabólicas associadas à inflamação crónica”, explica o médico. “Mais do que procurar um alimento anti-inflamatório, importa olhar para aquilo que comemos habitualmente”, reforça. Afinal, não existem alimentos milagrosos capazes de compensar, por si só, uma alimentação desequilibrada. “A saúde não se constrói com um superalimento, embora existam muitos que apelidamos assim, mas sim com as boas escolhas que repetimos todos os dias.”

O papel da alimentação na saúde venosa

Embora a relação entre alimentação e saúde arterial seja mais conhecida, os hábitos alimentares também podem contribuir para a gestão de alguns fatores de risco associados às doenças venosas, nomeadamente a Doença Venosa Crónica e a Doença Hemorroidária. O controlo do peso, uma hidratação adequada e uma ingestão suficiente de fibra podem ajudar a prevenir a obstipação, enquanto o controlo do peso contribui para reduzir a carga sobre o sistema venoso.

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Uma alimentação equilibrada pode, assim, integrar uma abordagem mais abrangente à saúde venosa. No entanto, hábitos de alimentação saudáveis não excluem a necessidade de uma avaliação e, nalguns casos, de tratamento médico para as doenças venosas.

“A alimentação, por si só, não trata problemas como as varizes”, alerta o especialista. “No caso da doença venosa crónica, é fundamental uma abordagem individualizada, que tenha em conta as necessidades de cada pessoa e os diferentes fatores envolvidos na doença”, refere. A alimentação representa uma parte dessa estratégia, mas não uma solução isolada.

Alimentação saudável não significa proibir

Comer de forma saudável não implica eliminar completamente determinados alimentos. Um dos erros mais frequentes é, segundo o médico, tentar mudar tudo de um dia para o outro, adotando regras demasiado restritivas ou procurando soluções rápidas através de dietas que podem não ser adequadas.

“Uma alimentação saudável não tem de ser uma alimentação de proibições”, afirma. Na maioria das pessoas, o mais importante é limitar o consumo frequente de alimentos ricos em sal, açúcares adicionados e gorduras saturadas, privilegiando opções mais nutritivas. Ainda assim, reforça que “algumas situações clínicas podem, naturalmente, justificar recomendações específicas, ajustadas às necessidades de cada pessoa”.

O especialista chama ainda a atenção para hábitos frequentemente desvalorizados, como o consumo de bebidas alcoólicas, os pequenos petiscos e aquilo que se come entre refeições. Alerta também para a tendência errónea de avaliar os progressos alimentares sobretudo através do peso ou do Índice de Massa Corporal, deixando para segundo plano outros benefícios potencialmente mais importantes, como a melhoria dos indicadores individuais de saúde e do bem-estar geral.

A próxima refeição é uma oportunidade para começar

Adotar hábitos mais saudáveis não exige mudanças radicais. Aumentar o consumo de hortícolas ao almoço e ao jantar, incluir fruta e leguminosas regularmente, substituir progressivamente cereais refinados por integrais e reduzir o sal e os produtos ultraprocessados são algumas medidas a implementar no dia a dia. Privilegiar a água em vez de bebidas açucaradas ou alcoólicas é outra mudança muito importante.

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“Mais vale uma pequena mudança que se mantém do que uma grande mudança que dura apenas uma semana”, resume o especialista. O segredo está em encontrar mudanças realistas, adaptadas à vida de cada pessoa e que possam ser mantidas ao longo do tempo.

No Dia Mundial da Alimentação, a mensagem é clara: cuidar da saúde vascular passa também pelas escolhas alimentares do quotidiano. Não é necessário esperar pela próxima segunda-feira ou pelo início de um novo ano para começar. Como conclui Francisco Santos Coelho, “a próxima refeição é já a melhor oportunidade para fazer uma escolha melhor e para dar início à mudança que pretendemos fazer”.