Nutrição que Transforma: O Nutricionista nos Projetos Comunitários de promoção da Saúde Infantil 171

Por Ana Rito (Investigadora e Nutricionista; Doutorada em Nutrição e Saúde Pública; Mestre em Ciências Médicas – Nutrição Humana; Coordenadora do Centro Colaborativo da OMS para a Nutrição e Obesidade Infantil; Departamento de Alimentação e Nutrição do INSA – Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge) e Fátima Martins (Nutricionista; Supervisora do Programa MUNSI; CEIDSS – Centro de Estudos e Investigação em Dinâmicas Sociais e Saúde).

 

Os projetos comunitários em nutrição afirmam-se como instrumentos fundamentais para uma abordagem integrada e coerente da promoção da saúde, sobretudo quando desenvolvidos em articulação com municípios, escolas e outros agentes educativos, onde o nutricionista assume hoje um papel estratégico nesta construção de comunidades mais saudáveis, capacitadas e conscientes.

Ao articular estes contextos, é possível criar ambientes alimentares e educativos mais favoráveis, reforçar mensagens consistentes sobre hábitos saudáveis e adaptar as intervenções às necessidades reais do território. A escola assume um papel central na formação de comportamentos desde a infância, enquanto os municípios garantem proximidade, recursos e políticas locais sustentáveis, e os agentes educativos contribuem com conhecimento e acompanhamento contínuo. Em conjunto, estas parcerias potenciam a aquisição de competências para escolhas alimentares informadas, promovendo a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento global das crianças.

Promover a alimentação saudável exige cooperação internacional

Um exemplo concreto desta abordagem integrada é o sucesso do Programa MUN-SI – programa de promoção de saúde infantil em municípios. Com quase 18 anos de implementação, trata-se de um programa de intervenção comunitária que atua em contexto escolar através de sessões de educação alimentar veiculado por nutricionistas, envolvendo de forma ativa toda a comunidade educativa.

O MUN-SI assenta numa matriz de intervenção multidisciplinar e ecológica, desenvolvida em estreita cocriação com cada município e implementada ao longo de vários anos, garantindo continuidade e adaptação às necessidades locais. Este modelo evidencia que a educação alimentar não se esgota em ações pontuais, mas constitui um processo progressivo, consistente e partilhado, integrado no quotidiano escolar e comunitário.

O programa está alinhado com as mais recentes orientações internacionais, em particular com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a promoção de ambientes alimentares escolares saudáveis, integrando uma abordagem baseada na evidência científica. Simultaneamente, responde e ajusta-se de acordo com as tendências observadas na prevalência de obesidade e excesso de peso infantil, através da análise sistemática de dados epidemiológicos nacionais.

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Neste sentido, a incorporação dos resultados portugueses do estudo COSI (Iniciativa Europeia de Vigilância da Obesidade Infantil/OMS Europa), desenvolvido desde 2008 e coordenado em Portugal pelo INSA no âmbito do seu Centro Colaborativo da OMS para a Nutrição e Obesidade Infantil, tem permitido aprofundar o conhecimento sobre os determinantes da obesidade infantil e identificar os principais fatores de risco evitáveis associados ao ambiente em que se desenvolvem as crianças em idade escolar (6–10 anos).

Acredita-se que o sucesso deste programa verificado na melhoria do estado nutricional infantil, em muito estará relacionado com a presença do nutricionista em sala de aula. É extremamente relevante a integração da temática da alimentação saudável no quotidiano educativo, através de um profissional capaz de traduzir conhecimento técnico em mensagens claras, práticas e adequadas à idade.  Permite que Padrões Alimentares Saudáveis sejam trabalhados de forma transversal, explorando as suas várias dimensões e integrando temas emergentes de sustentabilidade, como o desperdício alimentar, promovendo ainda uma relação mais consciente, informada e positiva com a alimentação, que são bem apreendidas por crianças em idade escolar.

Mais do que transmitir informação, estas intervenções privilegiam a criação de experiências significativas. Atividades lúdicas, jogos, desafios sensoriais e dinâmicas participativas permitem às crianças explorar os alimentos, questionar crenças e consolidar aprendizagens, contribuindo para escolhas mais informadas e sustentáveis ao longo do tempo.

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Adicionalmente a articulação entre nutricionistas e professores reforça conteúdos, facilita a integração da alimentação em diferentes áreas curriculares e promove um verdadeiro sentimento de corresponsabilização. A promoção da saúde alimentar deixa, assim, de ser uma tarefa isolada e passa a constituir um objetivo partilhado.

Importa ainda reconhecer o contributo de outros intervenientes da comunidade escolar, como assistentes operacionais, técnicos municipais e famílias. A alimentação é vivida diariamente em múltiplos contextos: no refeitório, em casa e na comunidade, e os projetos que valorizam esta rede alargada conseguem intervir de forma mais consistente sobre o ambiente alimentar das crianças.

Assim, num contexto de crescentes desafios alimentares considera-se fundamental reforçar a articulação entre nutricionistas, municípios, escolas e parceiros institucionais, enquanto estratégia central de promoção da saúde. A intervenção do nutricionista em projetos comunitários permite uma abordagem integrada, orientada para o território e sustentada na evidência e o investimento em modelos de trabalho colaborativos, baseados no diagnóstico das necessidades, na articulação intersectorial e na avaliação contínua, potencia a tradução de planos de ação em impacto mensurável, contribuindo para uma promoção da saúde pública mais eficaz, equitativa e sustentável.

 

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