Nova portaria, problema antigo: Malnutrição ainda é subdiagnosticada no SNS 124

Um ano depois da criação do regime excecional de comparticipação da nutrição entérica, especialistas defendem que o principal problema da Nutrição Clínica em Portugal continua por resolver: a identificação precoce e o acompanhamento dos doentes em risco de malnutrição.

O tema esteve em destaque no Fórum Estratégico de Nutrição Clínica, realizado em Lisboa no dia 4 de março, onde várias sociedades científicas apresentaram um conjunto de recomendações para integrar, de forma mais estruturada, esta área no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Entre as propostas estão o alargamento do rastreio sistemático do risco nutricional, a monitorização dos resultados clínicos e o reforço da articulação entre hospitais, cuidados de saúde primários e a organização da nutrição parentérica em ambulatório.

Apesar do avanço legislativo, os especialistas sublinham que a malnutrição associada à doença continua a passar muitas vezes despercebida. Estudos realizados em hospitais portugueses indicam que entre 30% e 50% dos doentes internados apresentam risco nutricional ou já estão malnutridos.

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Questionado pela VIVER SAUDÁVEL (VS), Aníbal Marinho, presidente da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP), aponta para a falta de reconhecimento da nutrição como parte integrante do tratamento médico. “Há ainda muita iliteracia relativamente à nutrição clínica, quer entre profissionais de saúde quer na população em geral”, afirma.

Para o presidente da APNEP, as equipas dedicadas à nutrição clínica “fazem um trabalho essencial, mas muitas vezes sem reconhecimento dentro do hospital”.

Aníbal Marinho acrescenta que a formação contínua e a discussão entre profissionais são essenciais para melhorar a resposta clínica e reforça que, sem estes, “voltamos à estaca zero”.

Mais tratamento em casa, menos tempo no hospital

Uma das mudanças apontadas como prioritárias é a possibilidade de administrar nutrição parentérica fora do internamento hospitalar, permitindo que mais doentes possam receber tratamento em ambulatório ou no domicílio. Para Aníbal Marinho, esta opção pode ter impacto direto na qualidade de vida dos doentes. “Quando estamos a falar de um doente oncológico com esperança de vida limitada, não faz sentido mantê-lo meses num leito hospitalar. O importante é que possa ir para casa e viver o tempo que lhe resta com qualidade”, defende.

Raquel Conceição: “O médico não conseguirá trabalhar de forma isolada na nutrição entérica por sonda. Precisamos de equipas multidisciplinares”

No entanto, o presidente da APNEP sublinha que essa mudança exige equipas organizadas e preparadas para responder a eventuais complicações clínicas. “Não podemos viver apenas de voluntariado. É preciso ter equipas estruturadas que possam intervir rapidamente quando surgem problemas”, afirma.

A possibilidade de administrar nutrição artificial fora do internamento pode assim reduzir a pressão sobre os serviços hospitalares.

Diagnóstico tardio continua a ser um dos principais desafios

A falta de reconhecimento da malnutrição como diagnóstico clínico é outro dos desafios apontados pelos profissionais da área. Raquel Conceição, nutricionista e diretora de marketing da Fresenius Kabi, considera que esta condição continua muitas vezes subestimada.

“A malnutrição não é apenas um sintoma, é um diagnóstico clínico. Podemos ter pessoas com índice de massa corporal elevado e, ainda assim, estarem malnutridas”, aponta.

A nutricionista defende também que a intervenção deve começar mais cedo, antes de surgirem estágios mais graves da doença. Nesse sentido, considera fundamental alargar o acesso a suplementos nutricionais orais, frequentemente utilizados como primeira linha de tratamento. Quanto mais cedo, mais provável é “evitar que evoluam para situações mais complexas que exigem nutrição por sonda”, explica.

O futuro da nutrição clínica faz-se em parceria

Durante o evento, a nutricionista sublinhou que a nutrição clínica exige a colaboração entre diferentes profissionais de saúde. “O médico não conseguirá trabalhar de forma isolada na nutrição entérica por sonda. Precisamos de equipas multidisciplinares, com médicos, nutricionistas, enfermeiros e farmacêuticos, para acompanhar adequadamente estes doentes”, afirma.

Um dos pontos críticos identificados para melhorar a resposta do SNS foi a participação dos nutricionistas no processo clínico. Catarina Sousa Guerreiro, nutricionista e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, considera que a ausência destes profissionais em algumas etapas do processo limita a eficácia das terapêuticas.

“O nutricionista é o profissional que tem o conhecimento mais aprofundado sobre o risco nutricional, o cálculo das necessidades e a escolha da fórmula adequada”, afirma.

Para a professora, a prescrição da nutrição artificial é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está no acompanhamento contínuo do doente. “Não basta prescrever e garantir que o doente tem acesso à fórmula. É preciso perceber se está a tolerar bem, se a administração está a ser feita corretamente e se são necessários ajustes”, explica.

Catarina Sousa Guerreiro: “O nutricionista é o profissional que tem o conhecimento mais aprofundado sobre o risco nutricional, o cálculo das necessidades e a escolha da fórmula adequada”

Num país com uma população cada vez mais envelhecida e com elevada prevalência de doença crónica, os especialistas defendem que a Nutrição Clínica pode desempenhar um papel decisivo na melhoria dos resultados em saúde. Mas, para isso, alertam, será necessário transformar o reconhecimento legislativo em prática clínica estruturada no terreno.