
Um estudo que envolve investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) concluiu que a dor aumenta até à meia-idade e depois diminui “na maioria das zonas do corpo”, afetando mais os idosos em países menos desenvolvidos.
Em comunicado divulgado hoje, o ISPUP explica que “um dos maiores estudos do mundo sobre dor, com dados de 6,1 milhões de pessoas, recolhidos em 118 países”, mostrou que, “em todas as regiões do corpo, o aumento mais rápido da prevalência da dor ocorre antes dos 55 anos”, contrariando “a ideia de que a dor se acumula de forma contínua com o envelhecimento”.
O estudo, liderado pela Universidade McGill, no Canadá, e que tem dois investigadores do ISPUP como coautores, sugere que “a janela de oportunidade para uma prevenção eficaz poderá surgir mais cedo do que os modelos clínicos e as políticas de saúde habitualmente assumem”, cita a agência Lusa.
“A investigação concluiu que prevalência de dor em qualquer região do corpo aumenta ao longo da vida. Mas a evolução depende da região: em sete das 11 zonas analisadas, a dor aumenta, atinge o pico e diminui”, esclarece o instituto.
As dores de cabeça “atingem o pico por volta dos 34 anos, a dor abdominal aos 23 e a dor facial aos 45”.
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“As dores no pescoço ou ombro e no cotovelo chegam ao máximo por volta dos 62 e dos 59 anos, respetivamente”, descreve.
Já as dores nas costas, na anca e no joelho continuam a aumentar com a idade, “atingindo o máximo aos 75 anos ou mais”.
“Também a dor reportada como mais intensa atinge o pico por volta dos 50 anos e a dor generalizada por volta dos 70”, acrescenta.
Até aos 65 anos, “a prevalência de dor é semelhante entre regiões, mas, a partir dessa idade, nos países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a prevalência de dor em qualquer região do corpo é, nas idades mais avançadas, 30,6 pontos percentuais superior à dos países com IDH mais elevado”.
A dor lombar aproxima-se do dobro e a Europa de Leste “é a região com mais dor autorreportada na velhice, situando-se cerca de 21 pontos percentuais acima da referência global aos 80 anos ou mais”.
De acordo com o ISPUP, “estes resultados contrariam as estimativas do estudo Global Burden of Disease, que tendem a apontar maior prevalência de lombalgia, osteoartrose e enxaqueca nas regiões mais ricas”.
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Para os autores, a diferença explica-se pelo facto de este novo estudo se basear em relatos diretos dos participantes e não em diagnósticos clínicos, o que permite captar a dor das populações com menor acesso a cuidados de saúde.
Por outro lado, o estudo estimou que 18,3% da carga global de dor se deve a três fatores de risco modificáveis: tabagismo, obesidade e rendimentos baixos.
“A obesidade associa-se sobretudo à dor nas articulações que suportam peso, como o pé ou tornozelo e o joelho e os rendimentos mais baixos a mais dor em todas as zonas do corpo, com a diferença mais expressiva a verificar-se na dor no peito”, observa.
A investigação revela que o peso destes fatores varia muito entre regiões: de 27,1% na Europa de Leste a 12,6% na África Subsariana, “onde o tabaco e a obesidade explicam menos de 5% da carga de dor cada um”.
“Estes dados mostram que as causas da dor nas populações mais afetadas destas regiões continuam pouco caracterizadas e poderão incluir trabalho físico exigente, acesso limitado a reabilitação e tratamento da dor, doenças infecciosas e carências nutricionais”, refere o ISPUP.
Num estudo em que mais de metade dos participantes (55%) eram mulheres, as diferenças entre sexos para a dor autorreportada surgem em todas as 11 regiões analisadas.
A distinção mais marcada diz respeito à dor facial, dores de cabeça e dor abdominal.
Nestas, as mulheres têm, respetivamente, “83%, 74% e 60% mais probabilidade de reportar dor do que os homens”.
Os investigadores do ISPUP Makram Talih e Raquel Lucas são coautores deste trabalho, que envolveu dezenas de instituições de todo o mundo.
O trabalho agora publicado usa dados de inquéritos e estudos de base populacional realizados entre 1990 e 2025 e abrangem 11 zonas do corpo: cabeça, face, pescoço ou ombro, cotovelo, mão ou pulso, peito, costas, estômago ou zona abdominal, anca, joelho e pé ou tornozelo, segundo o ISPUP.




