Trends 2026: Portugal em modo exportação 95

A ambição internacional do setor agroalimentar português esteve no centro do painel “Competir no mercado global”, um dos momentos em destaque do seminário Trends 2026, que a PortugalFoods promoveu a 10 de fevereiro, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto.

A sessão ficou marcada pela apresentação da Estratégia de Internacionalização do Setor Agroalimentar 2025-2030, desenvolvida por esta associação em parceria com a Porto Business School (PBS), no âmbito do projeto Portugal Excecional 2030, e por uma reflexão sobre mercados prioritários, fragilidades estruturais e medidas consideradas necessárias para reforçar a presença externa das empresas e marcas.

A intervenção de Pedro Vieira, da PBS, procurou desenhar um retrato simultaneamente ambicioso e pragmático. Se, por um lado, o setor chega a esta discussão com um “percurso exportador assinalável”, por outro continua confrontado com “obstáculos que limitam a sua afirmação global”.

Exportações a crescer e setor quer ganhar escala

Um dos dados mais relevantes apresentados no painel foi a evolução das exportações do setor agroalimentar português, que passaram de 5.223 milhões de euros, em 2015, para 9.984 milhões de euros, em 2024. Em dez anos, o setor praticamente duplicou o valor exportado e reforçou também o seu peso no total das exportações nacionais, de 10,5% para 12,6%.

Lisboa, Capital da Nutrição 2026

Para Pedro Vieira, o crescimento exportador dos últimos anos reforça a ambição do setor, mas exige agora uma estratégia mais fina para o próximo ciclo. A meta apontada admite que, mantendo-se um ritmo de crescimento semelhante ao da última década, as exportações “possam situar-se em torno dos 14 mil milhões de euros em 2030”.

Pilares da proposta de valor do ‘Made in Portugal’

Segundo os elementos apresentados por Pedro Vieira, a proposta de valor do setor agroalimentar português combina origem e autenticidade, qualidade e segurança alimentar, sustentabilidade, inovação e valor acrescentado, e, ainda, experiência e gastronomia. A intenção é afirmar Portugal não apenas como origem de produtos competitivos, mas como território com identidade alimentar própria, capaz de ligar produto, cultura, tradição e storytelling.

Na análise SWOT das forças (S – Strengths), fraquezas (W – Weaknesses), oportunidades (O – Opportunities) e ameaças (T – Threats), este posicionamento ficou visível. Entre as forças, foram destacados a “afirmação cada vez mais forte da identidade portuguesa e da qualidade dos produtos portugueses”, como o vinho, o azeite, o peixe, as frutas e as conservas, a “diversidade da oferta exportável”, a “elevada aposta em certificações de qualidade e denominações de origem” e a “imagem de autenticidade, tradição e sustentabilidade associada ao país”.

Entre as fraquezas, a estratégia identifica a “escala produtiva limitada face aos principais concorrentes”, nomeadamente Espanha, Itália e França, a “forte fragmentação do tecido empresarial, dificultando a internacionalização coordenada”, a “dependência de alguns mercados-chave e baixa penetração em grandes economias” ou o “menor investimento em inovação de produto e marketing digital em comparação com os concorrentes diretos”.

Mercados prioritários e apostas seletivas

Para responder a este cenário, a análise propõe uma segmentação dos mercados por níveis de prioridade. Nos ‘mercados estratégicos’ figuram Alemanha, Estados Unidos, França, Reino Unido e Japão, geografias de “elevada dimensão” e com “procura relevante por produtos premium, sustentáveis e diferenciados”.

Quando a nutrição ‘sai da caixa’

Nos ‘mercados de consolidação’, surgem Espanha, Brasil, Países Baixos, Bélgica, Suíça e Polónia, enquanto Itália, Suécia, Dinamarca, Noruega, Áustria e Canadá aparecem como ‘mercados de reforço’. A categoria ‘mercados de aposta seletiva’ inclui China, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Singapura, “mercados atrativos”, mas que “exigem investimentos mais seletivos e estratégias adaptadas, acompanhadas de ações bem dirigidas e parcerias especializadas”.

A análise identifica ainda um quinto grupo, o dos ‘mercados/regiões para avaliar abertura’, onde surgem África, América do Sul, com destaque para o Mercosul, Sudeste Asiático e Índia. Segundo o interveniente, tratam-se de “mercados com um grande potencial”, ainda que “distantes em termos geográficos, administrativos e culturais, com pouca tradição na abordagem por empresas portuguesas”, razão pela qual devem ser acompanhados tendo em vista “uma seleção mais específica e eventual abertura”.

O que pedem as empresas

Nos contributos recolhidos junto das empresas, através de sessões de focus group, emergiram três necessidades centrais: ações coletivas para ganhar escala; apoio técnico em certificação e adaptação do produto; e desenvolvimento de capacidades digitais.

A ideia de escala coletiva surgiu com particular força, nomeadamente na participação conjunta em feiras, na realização de missões empresariais focadas por país e categoria, e na construção de presença mais articulada em plataformas B2B e marketplaces. Ao mesmo tempo, as empresas assinalaram a importância de apoio técnico para harmonização de rotulagem, reformulação de produtos e resposta a exigências específicas de mercados como os Estados Unidos ou o Japão. A digitalização foi outro eixo fortemente sublinhado, desde o e-commerce internacional até ao marketing digital orientado para os mercados, passando pela logística adaptada a pequenos volumes de exportação. “As empresas demonstram forte interesse em modelos de cooperação entre clusters, entidades públicas e associações do setor”, indicou Pedro Vieira.

O futuro da nutrição clínica faz-se em parceria

Na parte final, o orador realçou a necessidade de apostar em formas mais inovadoras de promoção externa, incluindo a promoção direta e a colaboração com influenciadores internacionais. Defendeu, igualmente, a criação de instrumentos públicos mais ajustados à internacionalização, com “menos burocracia” e “mais apoio a movimentos agregadores”.

Japão e Coreia do Sul como exemplos concretos

Foi neste enquadramento que o painel integrou a partilha das ações de internacionalização desenvolvidas no âmbito da Agenda Mobilizadora VIIAFOOD, com particular enfoque na promoção do setor no Japão e na Coreia do Sul.

A apresentação coube a André Jacques, da PortugalFoods, que salientou o trabalho realizado e o potencial de aprofundamento das relações económicas com ambos os países. Ficou claro que Japão e Coreia do Sul assumem uma “relevância estratégica crescente para o setor agroalimentar nacional”, surgindo como “geografias onde atributos como qualidade, autenticidade, origem e diferenciação podem jogar a favor da oferta portuguesa”. Ao mesmo tempo, trata-se de “mercados exigentes”, que pedem “preparação, continuidade promocional e capacidade de adaptação”, alertou.

Um impacto que vai além do evento

No balanço do Trends 2026, Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods, recordou que a associação “integra há 15 edições, na sua agenda, esta sessão dedicada ao lançamento das tendências de inovação para o setor agroalimentar”, considerando tratar-se de uma iniciativa de “elevado valor estratégico”. “Ao permitir às empresas antecipar a evolução do comportamento do consumidor, identificar oportunidades emergentes e ajustar os seus planos de inovação e internacionalização”, o evento “assume-se como um momento que apoia na orientação para um desenvolvimento mais informado e alinhado com as exigências do mercado”, destacou.

Deolinda Silva: Trends é “um verdadeiro espaço de partilha de conhecimento e de construção de relações”. Créditos: João Pedro Rocha / PortugalFoods

Para a responsável, o objetivo é que o encontro funcione como “um verdadeiro espaço de partilha de conhecimento e de construção de relações”. Nessa perspetiva, o impacto do Trends prolonga-se para além do próprio dia da sessão, ao “influenciar decisões estratégicas, estimular parcerias e reforçar a ambição internacional do setor agroalimentar português”.