Quando ter acesso a informação é demasiada informação? 328

O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) inicia, na VIVER SAUDÁVEL, um novo espaço de opinião. O artigo que se segue, da autoria da sua diretora, Maria João Gregório, marca o início de um ciclo de reflexões mensais ao longo do ano.

 

Nas últimas décadas, a produção e o acesso à informação sobre saúde e alimentação aumentaram consideravelmente. Nos inícios de ano esta abundância informativa, por vezes excessiva, pode transforma-se num risco para a própria saúde.

Guias alimentares de diferentes países, notícias, influenciadores digitais, podcasts e a divulgação frequente de estudos científicos fora do seu devido contexto coexistem num fluxo contínuo de informação. Conselhos, alertas e recomendações multiplicam-se, nem sempre de forma coerente ou consistente.

Apesar de o acesso à informação sobre saúde ser um fator determinante para que as pessoas tenham mais conhecimento e competências para adotarem comportamentos promotores da sua saúde, alguns estudos têm demostrado que a exposição excessiva a conteúdos sobre saúde pode comprometer a eficácia da mensagem, um fenómeno que tem sido designado por fadiga de informação em saúde (health information fatigue).

A fadiga de informação refere-se a um estado de cansaço e de exaustão cognitiva e emocional resultante da exposição repetida, intensa ou excessiva a mensagens de saúde, especialmente quando estas são percebidas como redundantes, contraditórias ou difíceis de aplicar na rotina diária (Misra & Stokols, 2012; Mao et al., 2022). Nestes casos, em vez de capacitar, a informação começa a pesar, levando as pessoas a deixar de ouvir, ler ou confiar.

Alguns autores propõem um modelo baseado nas dimensões da capacidade e da motivação para explicar este fenómeno. De acordo com este modelo, a fadiga de informação resulta, por um lado, de uma menor capacidade cognitiva para processar grandes volumes ou elevada complexidade de informação (information overload) e, por outro, de uma menor motivação para o processamento da mensagem, decorrente da exposição repetida a conteúdos semelhantes (message fatigue) (Mao et al., 2022). A evidência mostra que ambos os fenómenos enfraquecem o impacto das mensagens de saúde, podem afetar a confiança nas recomendações e comprometer a tomada de decisão, diminuindo assim a probabilidade de adoção de comportamentos mais saudáveis (Mao et al., 2022). Em vez de analisarem cuidadosamente as mensagens, as pessoas tendem a recorrer a estratégias de simplificação, como ignorar recomendações, adiar decisões ou manter comportamentos habituais, mesmo quando reconhecem a importância da adoção de comportamentos saudáveis.

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No domínio da alimentação, estes efeitos são particularmente relevantes, dada a elevada sobrecarga informativa e a frequência de mensagens contraditórias. Este fenómeno torna-se mais evidente no início do ano, um período marcado por uma amplificação de conteúdos sobre alimentação e estilos de vida saudáveis. Para além do excesso de informação, muitos desses conteúdos promovem promessas rápidas, objetivos ambiciosos e mudanças radicais, o que intensifica a perceção de sobrecarga e fadiga, contribuindo para frustração, desmotivação e abandono precoce dos objetivos definidos.

A literatura na área das ciências do comportamento, e em particular, na área do comportamento alimentar, demonstra que objetivos demasiado rígidos ou irrealistas estão associados a menor adesão e piores resultados a médio e longo prazo.

Assim, as estratégias de promoção da alimentação saudável devem procurar um equilíbrio entre informar e proteger as pessoas da sobrecarga informativa, reconhecendo que mais informação nem sempre é sinónimo de melhores escolhas alimentares.

A nível individual, a evidência científica aponta várias estratégias que podem ajudar a mitigar a fadiga de informação, incluindo: 1) priorizar fontes de informação credíveis, como instituições de saúde e profissionais qualificados; 2) manter uma atitude crítica e desconfiar de conteúdos que prometem resultados rápidos e “milagrosos” e 3) reduzir intencionalmente a exposição contínua, através de pausas de consumo de conteúdos.

Do ponto de vista institucional, este contexto reforça a necessidade de repensar não apenas o conteúdo, mas também a quantidade, a frequência e a forma como a informação é comunicada. A evidência sugere que mensagens claras, consistentes, relevantes, contextualizadas e alinhadas com a realidade das pessoas são mais eficazes do que grandes volumes de informação (Mao et al., 2022).

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Neste contexto de abundância de informação, a promoção da alimentação saudável por parte das instituições enfrenta o desafio de ser relevante. Este é um desafio que o PNPAS assume como prioritário para 2026. Comunicar melhor, com foco na relevância, mas também na qualidade e adequação ao contexto, reforçando o seu papel enquanto fonte credível e independente em alimentação saudável para a população portuguesa. Promover a saúde não é apenas transmitir informação de forma abundante, é criar as condições para que essa informação seja compreendida, integrada e utilizada no dia a dia.