Progredir, comunicar, participar: três desafios para a nutrição de hoje 162

Num tempo em que a nutrição enfrenta a desinformação, a pressão das redes sociais e a necessidade de reforçar a sua afirmação pública, o painel ‘Nutrição hoje: progredir, comunicar, participar’, integrado nas VIII Jornadas de Ciências da Nutrição do Núcleo de Estudantes de Ciências da Nutrição (NECN) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), realizadas nos dias 23 e 24 de fevereiro, em Vila Real, deixou uma ideia central: o futuro da profissão não depende apenas do conhecimento técnico, mas também da forma como os nutricionistas comunicam, se posicionam e participam na construção da sua área.

Ao longo da sessão, moderada por Rui Poínhos, professor da UTAD, três intervenções ajudaram a compor esse retrato. Pedro Lourenço, assessor da Ordem dos Nutricionistas (ON), refletiu sobre a evolução, os desafios e as perspetivas futuras da profissão. Paulo Barros, coordenador executivo da revista VIVER SAUDÁVEL, falou da exigência de comunicar ciência num ambiente saturado de ruído. Já Filipa Matos, vogal da Associação Nacional de Estudantes de Nutrição (ANEN), abordou o associativismo como complemento relevante à formação académica.

Uma profissão “muito jovem”, cada vez mais exposta

Pedro Lourenço começou por lembrar que a profissão de nutricionista é “muito jovem”, apontando a criação da ON, em 2011, como um marco decisivo na consolidação da identidade profissional, do compromisso ético e técnico e da ligação à saúde pública. Se a profissão evoluiu muito, os desafios também se tornaram mais complexos. Um dos principais, realçou, é a desinformação. “Neste momento, vivemos um paradoxo na nossa profissão, ou seja, nunca foi tão fácil comunicar, o problema é que também nunca foi tão difícil comunicar bem e comunicar corretamente”, alertou.

Pedro Lourenço: “A nutrição é para ser falada, interpretada e posta em prática pelo nutricionista”

Num cenário em que a informação circula de forma acelerada e em que opiniões se apresentam frequentemente como factos, o nutricionista é chamado a distinguir-se pelo rigor. “Para uma grande parte da população portuguesa, é cada vez mais difícil saber distinguir o que é ciência e o que é opinião”, observou, defendendo que os profissionais não podem ceder à tentação das mensagens fáceis ou excessivamente prometedoras: “Um dos nossos desafios como nutricionistas é precisamente não cair nesse enredo e conseguir manter-nos sempre leais aos princípios éticos e técnicos da nossa profissão”.

Valorizar a profissão e reforçar a prevenção

A valorização profissional foi outro dos temas fulcrais da intervenção. “Quem é que aqui, como futuro nutricionista, ainda não percebeu que é muito difícil, em alguns meios, o nutricionista ser valorizado, pela quantidade de profissionais que o dizem ser?”, questionou Pedro Lourenço, indicando que esse esforço deve ser feito tanto pelas estruturas representativas como por cada profissional, através da atualização contínua, da afirmação da sua competência e da denúncia de situações de exercício ilegal.

O responsável referiu, a este propósito, a campanha ‘Olá, Nutri’, promovida pela ON em 2025, com o objetivo de expor a diferença entre falar de alimentação e intervir em nutrição com legitimidade profissional. Não se pretendia “desvalorizar os outros profissionais”, mas sim demonstrar que “a nutrição é para ser falada, interpretada e posta em prática pelo nutricionista”, esclareceu. Outro desafio anotado foi o reforço da presença dos nutricionistas na saúde pública. Se a nutrição tem vindo a afirmar-se no tratamento das doenças, esse caminho precisa agora de ser aprofundado também na área da prevenção, em contextos como os cuidados de saúde primários, as escolas e as autarquias.

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No olhar lançado ao futuro, deixou uma formulação que resumiu bem a sua mensagem: “Eu, como nutricionista do futuro, tenho de saber falar três línguas: a língua digital, a língua científica, mas manter a língua humana”.

Comunicar ciência num ambiente saturado

A partir da perspetiva da comunicação social, o jornalista Paulo Barros descreveu o atual contexto como especialmente exigente para quem quer comunicar ciência com rigor. “Encontramo-nos num processo muito complexo”, declarou, destacando a digitalização, a polarização política e o excesso de informação como algumas das marcas do presente. “A ciência está sob ataque, a comunicação está sob ataque”, sintetizou.

As redes sociais, reconheceu, trouxeram “ganhos” em termos de democratização e visibilidade, incluindo para muitos nutricionistas. Mas abriram também espaço a uma circulação massiva de conteúdos pouco escrutinados. “Há aqui uma dicotomia entre o que é a democratização e a desinformação”, frisou.

Paulo Barros: “Há aqui uma dicotomia entre o que é a democratização e a desinformação”

Numa área como a alimentação, particularmente exposta ao comentário fácil e à opinião pessoal, o orador defendeu que os nutricionistas devem assumir um papel mais ativo no espaço público. “Falem com os jornalistas, falem connosco, proponham temas, nós estamos disponíveis”, apelou. Ao apresentar as iniciativas da VIVER SAUDÁVEL, sublinhou justamente essa missão de funcionar como ponte entre ciência, profissão e sociedade, dando visibilidade ao trabalho dos nutricionistas e reforçando a sua centralidade junto da população.

Para além da formação académica

A fechar o painel, Filipa Matos centrou-se no papel do associativismo estudantil, afirmando que este “não substitui a formação académica, mas complementa-a de uma forma muito significativa”. Entre as competências adquiridas, destacou a “comunicação e capacidade de expressão”, o “trabalho em equipa e liderança”, a “organização, planeamento e gestão de tempo”, a “resolução de problemas e tomada de decisão”, o “sentido de responsabilidade e ética”, e a “capacidade de adaptação a diferentes contextos”. “Estas competências são extremamente valorizadas no mercado do trabalho”, afiançou.

Mais do que uma atividade paralela, o associativismo foi apresentado como um espaço de intervenção, aprendizagem e criação de redes. No caso da nutrição, acrescentou, permite ainda reforçar a representação dos estudantes, aproximar instituições e preparar melhor o futuro profissional.

Filipa Matos: Associativismo “não substitui a formação académica, mas complementa-a”

No final, ficou claro que ‘progredir, comunicar e participar’ não eram apenas três verbos temáticos, mas três exigências concretas para uma profissão em permanente construção.

 

Esta reportagem é composta por duas partes. A segunda será publicada na próxima quinta-feira (12) e conta o balanço da organização, bem como com a cobertura da “Mesa Redonda: Empreendedorismo na Nutrição”.