Obesidade na pessoa idosa: os benefícios do tratamento farmacológico superam os riscos? 146

Por Liliana Ferreira (nutricionista), Inês Castela (nutricionista) e Rosário Monteiro (médica de Medicina Geral e Familiar, diretora adjunta) do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS). 

 

Nos últimos anos, o desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento da obesidade tem suscitado um debate crescente na comunidade científica e clínica, em particular quanto às suas indicações terapêuticas e à sua eficácia. Contudo, a sua utilização em determinados grupos da população tem merecido menor reflexão. Permanece, assim, uma questão relevante: deverá o tratamento farmacológico da obesidade ser aplicado de forma semelhante em todas as pessoas com IMC superior a 30 kg/m2, incluindo na pessoa idosa?

A resposta não é simples e merece maior reflexão e prudência. Segundo a OMS, a obesidade é definida como a acumulação excessiva de tecido adiposo que prejudica a saúde, sendo uma doença crónica, a que se associam problemas de saúde relacionados com a sobrecarga metabólica, inflamatória, mecânica e psicossocial. De acordo com o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, publicado pela Direção-Geral da Saúde em novembro de 2025, a obesidade no adulto deve ser classificada em obesidade clínica, pré-clínica ou sarcopénica, valorizando o impacto clínico da adiposidade excessiva na decisão quanto ao tratamento. A pessoa idosa, entendida como o indivíduo com 65 ou mais anos, apresenta especificidades fisiológicas e socioculturais associadas ao envelhecimento que podem trazer desafios acrescidos, se aplicados os mesmos princípios que à restante população adulta.

Neste grupo, prevalece a obesidade sarcopénica relacionada com a diminuição fisiológica da massa muscular e óssea, condição associada a um risco acrescido de declínio funcional, fragilidade e desnutrição. Outros aspetos a considerar incluem alterações sensoriais, gastrointestinais, renais e metabólicas, que podem comprometer a ingestão alimentar e hídrica, e a absorção de nutrientes. Estas características tornam a pessoa idosa particularmente vulnerável às consequências de intervenções que promovam uma perda de peso rápida ou excessiva.

Desta forma, a ESPEN recomenda que a intervenção na pessoa idosa com excesso de peso (incluindo obesidade) deve ser cuidadosamente ponderada. As abordagens que visem a redução do peso corporal devem ser apenas consideradas após avaliação individualizada dos potenciais riscos e benefícios. Os benefícios estão documentados para indivíduos com IMC superior a 35 kg/m2 e complicações associadas, como problemas ortopédicos, risco cardiometabólico, resistência à insulina, inflamação crónica ou limitações funcionais associadas à adiposidade excessiva. Nestas condições, em que se antevê um benefício potencial superior ao risco de declínio funcional, as intervenções individualizadas para a perda de peso devem privilegiar otimização do estilo de vida, tendo como objetivo uma perda ponderal moderada e gradual, bem como a preservação da massa e da função muscular, com impacto nas comorbilidades, mas sobretudo na funcionalidade.

A intervenção nutricional deve focar-se na melhoria da qualidade da alimentação, assegurando simultaneamente uma restrição energética moderada e uma ingestão adequada de proteína e micronutrientes, de forma a minimizar a perda de massa muscular e óssea, conforme descrito no mais recente documento “Promoção da Mudança Comportamental na Pessoa com Obesidade: Intervenção Nutricional e de Atividade Física” da DGS. Também nesse sentido, a intervenção deve ser acompanhada de um aumento global da atividade física, de preferência incluindo a prática de exercícios físicos de resistência, para preservar a força e mobilidade.

Neste enquadramento, a utilização de terapêuticas farmacológicas deve ser criteriosamente ponderada na pessoa idosa. Embora os efeitos benéficos da farmacoterapia para a obesidade estejam descritos nesta população, sobretudo na redução de eventos cardiovasculares e no atraso do declínio da função renal, a decisão de iniciar este tipo de tratamentos deve resultar de uma avaliação clínica que considere as comorbilidades, o estado funcional e o risco nutricional, ponderando cuidadosamente os riscos associados. Efeitos adversos gastrointestinais associados à terapêutica farmacológica como náuseas, vómitos ou diarreia, aumentam o já elevado risco de desidratação e desequilíbrios hidroeletrolíticos nesta população.

A abordagem na pessoa idosa com obesidade quer-se, por isso, personalizada e multidisciplinar com um acompanhamento próximo das modificações de estilo de vida e uma monitorização rigorosa e contínua da massa e função muscular, do estado de hidratação e do estado nutricional global. Garantidos estes pressupostos, a farmacoterapia poderá ter lugar em casos específicos, mas a sua utilização exige uma abordagem de intervenção multidisciplinar para assegurar a eficácia e a segurança do tratamento.