Literacia: “Os nutricionistas têm um trabalho fundamental a fazer nesta área” 82

Apesar da crescente disponibilidade de informação sobre nutrição e alimentação, transformar conhecimento em escolhas alimentares equilibradas e sustentáveis continua a ser um desafio para muitos portugueses. A conclusão resulta do “Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos”, promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), com o apoio do Continente.

Para a presidente da APN, Liliana Ferreira, os resultados “demonstram a necessidade de reforçar o trabalho desenvolvido na área da literacia alimentar em Portugal”.

Em outubro de 2025, data de referência do estudo, o nível de literacia alimentar global situava-se nos 57,5%. A análise indica que os níveis mais baixos se concentram em grupos que exigem maior acompanhamento: pessoas com 65 ou mais anos, com menores rendimentos, que vivem sozinhas ou em casal sem filhos, com índice de massa corporal igual ou superior a 30, com pior perceção do estado de saúde e portadoras de doença.

Para Liliana Ferreira, estas desigualdades são particularmente preocupantes. “Níveis insuficientes de literacia alimentar podem comprometer a adoção de padrões alimentares saudáveis e sustentáveis e contribuir para a manutenção de desigualdades em saúde”, alertou, em declarações à VIVER SAUDÁVEL.

Nova portaria, problema antigo: Malnutrição ainda é subdiagnosticada no SNS

Do ponto de vista conceptual, “os componentes que caracterizam a literacia alimentar podem ser agrupados em quatro domínios interrelacionados: planeamento e gestão, seleção, preparação e consumo”. E foi precisamente no domínio do consumo que se registou o score mais baixo, um resultado que, na perspetiva da responsável da APN, evidencia a “necessidade de maior intervenção nesta área”.

Liliana Ferreira defende ainda que “é particularmente relevante investir em intervenções e políticas públicas direcionadas para as fragilidades identificadas nos diferentes domínios da literacia alimentar, porque o combate às desigualdades em saúde depende da promoção da literacia alimentar de forma equitativa”.

O desafio, acrescenta, passa também por “simplificar a evidência científica e traduzi-la em mensagens claras e acessíveis, capazes de apoiar decisões mais informadas e de se refletirem em ganhos reais em saúde”.

“Precisamos de mais nutricionistas”

A apresentação do estudo decorreu no Centro Cultural de Belém, a 10 de março, e incluiu uma mesa-redonda intitulada “Literacia alimentar, onde estamos” e um painel sobre “Responsabilidade & Desinformação”.

Influência da dieta na função cerebral

À margem da mesa-redonda, Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), destacou que a população portuguesa já dispõe de conhecimentos consolidados em áreas fundamentais. Contudo, ressalvou que as maiores fragilidades persistem “na aplicação dessa informação e desse conhecimento no dia-a-dia”.

Na perspetiva da responsável, esta é “uma área prioritária de intervenção para os nutricionistas”, sublinhando que só dar informação não é suficiente. “Temos de ter uma estratégia mais prática, orientada para capacitar e dar as ferramentas necessárias para que as pessoas possam aplicar o conhecimento que já possuem”, afirmou.

Maria João Gregório alertou ainda que as desigualdades no acesso à informação e à literacia alimentar, identificadas no estudo, obrigam a uma intervenção direcionada, para não deixar para trás os grupos mais vulneráveis. Nesse sentido, destacou que a Direção-Geral da Saúde (DGS) tem vindo a estabelecer parcerias com o Ministério da Solidariedade, Trabalho e Segurança Social, nomeadamente “para apoiar famílias carenciadas e crianças em situação de vulnerabilidade no âmbito do Plano de Ação para a Garantia para a Infância, garantindo o acesso a serviços essenciais que incluem uma alimentação saudável”.

Ainda assim, sublinha, “os nutricionistas têm um trabalho fundamental a fazer nesta área”. A DGS assume-se como facilitadora, mas identifica estes profissionais como agentes centrais de mudança, pela proximidade com a população. “Precisamos de mais nutricionistas, de ter condições de acesso e de acompanhamento da população por parte destes profissionais”, afirmou, reforçando que são eles “que podem fazer a mudança nesta área”.

Páscoa: O crumble de maçã e frutos silvestres de Mariana Abecasis

Tal como foi referido na mesa-redonda – que contou ainda com a participação da secretária-geral da APN, Helena Real, da consultora nacional da área da Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, Regina Sequeira Carlos e do corporate affairs da DECO PROteste, Nuno Pais de Figueiredo – só quem está no terreno tem a capacidade de perceber as necessidades reais de cada pessoa.

“Quando trabalhamos na área da literacia, temos de produzir e dar informação relevante para cada pessoa”, afirmou Maria João Gregório, concluindo que “quem pode fazer este trabalho melhor são os profissionais que estão no terreno. Em particular, os nutricionistas”.