Hidratação 360º: estratégias para nutricionistas

Ninguém tem dúvidas de que a hidratação é uma componente crucial da saúde e bem-estar geral e já todos ouvimos dizer que o corpo humano é composto por cerca de 70% de água, e que esta desempenha papéis vitais em diversas funções biológicas, desde a regulação da temperatura corporal até à eliminação de toxinas. Contudo, quando chega a hora de perceber junto da população se estes conceitos foram assimilados, rapidamente se percebe que a maioria está a precisar de rever a lição sobre hidratação e é aqui que o nutricionista é o melhor mestre!

Beber água, hidratar e hidratar: são palavras de ordem, especialmente na época mais quente do ano. “É sabido que a ingestão de líquidos é fundamental à vida humana e que não sobreviveríamos mais do que três a cinco dias sem água”, refere a nutricionista Mariana Abecasis.

Diana Picas Carvalho, nutricionista, acrescenta: “Na roda dos alimentos não possui um grupo próprio, mas encontra-se no centro porque está representada em todos os grupos, uma vez que faz parte da constituição de quase todos os alimentos”.

A importância da hidratação, aliada a uma alimentação saudável, é defendida por nutricionistas e profissionais de saúde desde sempre, mas há quem continue a fazer orelhas moucas.

Diana Picas Carvalho conta que tem notado “uma maior preocupação nesse âmbito, mas ainda existe muita desinformação e um longo caminho a ser percorrido. Esta educação a nível hídrico aliado à alimentação, também é a nossa função na consulta, mesmo que a iniciativa não surja por parte dos pacientes”.

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Por sua vez, a nutricionista clínica Mariana Briote fala sobre a mais de uma década na qual trabalhou em cuidados hospitalares, diretamente com doentes renais, e assegura que este grupo, em particular, “tem uma boa perceção da importância da hidratação na saúde”, cenário bem diferente do que encontrou nos cuidados de saúde primários, onde identifica que “ainda existe uma percentagem significativa da população geral que subestima a importância da hidratação” e refere que se continua a observar hábitos alimentares inadequados e, consequentemente, de hidratação. “Verifica-se uma ingestão regular de refrigerantes e bebidas alcoólicas, além de uma baixa ingestão de água e sopa, por exemplo”, acrescenta a nutricionista.

Portanto, nunca é demais recordar os pontos-chave deste tema e afinar a estratégia para abordar os pacientes durante a consulta, pois é essencial compreender e comunicar a importância da hidratação adequada, ajudando-os a manter um equilíbrio hídrico adequado.

Inúmeros benefícios

A lista de benefícios da água é longa, mas nunca é demais rever que esta é fundamental para a termorregulação. Durante a atividade física ou em climas quentes, o corpo transpira para dissipar o calor e a desidratação pode comprometer a capacidade de regular a temperatura, levando a problemas como o golpe de calor. A água é um dos componentes principais da saliva. A saliva inclui também pequenas quantidades de eletrólitos, muco e enzimas. Ora, a saliva é essencial para quebrar alimentos sólidos e manter a boca saudável.

Além disso, a água é essencial para a função renal e desintoxicação do organismo. Os rins dependem da água para filtrar resíduos do sangue e excretá-los na urina, logo a hidratação insuficiente pode levar a uma concentração elevada de substâncias tóxicas, aumentando o risco de cálculos renais e outras complicações. O consumo de água é igualmente importante para prevenir a obstipação.

O consumo de água ajuda a lubrificar e amortecer as articulações, a medula espinhal e os tecidos, o que ajuda a diminuir o desconforto causado por algumas doenças como a artrite.

“Basta a perda de apenas 1% dos líquidos corporais para o organismo dar sinais de desidratação”, lembra Mariana Abecassis

Aliado a isto, a água é essencial para a digestão, pois beber água antes, durante e depois de uma refeição irá ajudar o corpo a decompor mais facilmente os alimentos. A água também é importante para a absorção de nutrientes e a hidratação adequada tem um impacto significativo na função cognitiva e no humor. Estudos mostram que a desidratação leve pode afetar negativamente a concentração, a memória e aumentar a sensação de fadiga e ansiedade. A hidratação também afeta a força, potência e resistência física.

Afinal, qual a quantidade ideal de água?

“Genericamente, é recomendada a ingestão de cerca de 2 litros de água por dia para que o organismo mantenha o seu pleno funcionamento. Contudo fatores como idade, sexo, peso, estação do ano e prática de atividades físicas podem afetar a quantidade necessária para garantir uma correta hidratação”, explica a nutricionista Mariana Abecassis. E nunca é demais lembrar que estas necessidades podem aumentar em condições de calor extremo ou durante a prática de exercício físico intenso.

Entre as dicas que ajudam a manter uma hidratação adequada, os nutricionistas recomendam iniciar o dia com um copo de água, que ajuda a reidratar o corpo após o período de sono; manter uma garrafa de água por perto durante o dia, o que facilita a ingestão regular e evita esquecimentos; utilizar alarmes ou aplicações de telemóvel para lembrar de beber água; incorporar alimentos ricos em água, como fruta e vegetais como melancia, pepino e laranjas; ajustar o consumo com base na atividade física.

Queixas mais comuns

Quando os pacientes procuram aconselhamento nutricional devido a problemas de hidratação, é comum que apresentem uma variedade de queixas relacionadas aos seus hábitos de consumo de água. Compreender essas queixas é fundamental para identificar as barreiras individuais à hidratação adequada e para desenvolver estratégias personalizadas.

Conforme destacam os especialistas, entre as principais queixas observadas em consultas nutricionais está a falta de sede percebida. Muitas pessoas não sentem sede com frequência ou simplesmente ignoram os sinais de sede. Isso pode levar a uma ingestão insuficiente de água, mesmo quando o corpo está desidratado, mas, como esclarece a nutricionista Mariana Abecasis, “sabe-se que basta a perda de apenas 1% dos líquidos corporais para o organismo dar sinais de desidratação, o que realça bem a importância da ingestão de líquidos!”

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Há também o problema da preferência por bebidas que não contribuem para a hidratação adequada, como refrigerantes, bebidas energéticas ou café em excesso. A ingestão dessas bebidas pode ter efeitos diuréticos e contribuir para a perda de líquidos.

Outra queixa comum prende-se com a falta de hábitos de consumo de água. Muitas vezes, os pacientes não têm uma rotina estabelecida para beber água ao longo do dia. Eles podem negligenciar a ingestão de líquidos durante as refeições ou esquecer-se de beber água regularmente durante o dia. Aliado a isto pode, ainda, surgir a falta de consciência sobre a importância da hidratação, o que faz com que alguns pacientes não percebam os potenciais riscos associados à desidratação crónica.

Em alguns casos, principalmente entre idosos ou indivíduos com problemas de saúde específicos, a incontinência urinária pode ser uma preocupação que limita a ingestão de líquidos. Certas condições médicas ou medicações podem exigir restrições de líquidos, o que pode dificultar a manutenção da hidratação adequada, pelo que há que perceber como mitigar esta situação.

Educar para a Saúde

Mariana Briote defende, ainda, que, “nesta época do ano e com as vagas de calor cada vez mais frequentes por força do aquecimento global, a necessidade de manter uma boa hidratação torna-se ainda mais crítica. Além de apostar fortemente na sensibilização da população, torna-se necessário também melhorar o ambiente, nomeadamente garantir bebedouros visíveis e operacionais em espaços públicos como escolas e parques”.

A nutricionista clínica descreve ainda a experiência em grandes eventos públicos, nos quais se realiza um trabalho de preparação exaustivo para sinalizar adequadamente os locais de bebedouros, garantir salas de arrefecimento para a população e divulgar materiais informativos, com uma forte aposta na sensibilização da população para uma correta hidratação. “Esta preocupação deveria ser uma constante e não apenas para eventos, e muito mais ainda poderá ser feito”, advoga Mariana Briote.

Diana Picas Carvalho e Mariana Briote salientam a importância de uma boa e regular hidratação

Perante este cenário, cabe ao nutricionista encontrar a abordagem mais eficaz para lidar com as queixas, mas sobretudo o papel de educar para a saúde. Há que explicar os benefícios da hidratação adequada para a saúde, incluindo a melhoria da função cognitiva, digestão, desempenho físico e prevenção de complicações como cálculos renais; ajudar os pacientes a estabelecer metas específicas de consumo de água com base nas suas necessidades individuais e estilo de vida; sugerir estratégias práticas para aumentar a ingestão de água, como carregar uma garrafa de água, definir lembretes regulares para beber água e incorporar alimentos ricos em água na dieta; explorar as razões por trás das dificuldades de hidratação de cada paciente e desenvolver estratégias personalizadas para superar essas barreiras, como encontrar alternativas para pacientes com incontinência urinária ou ajustar a ingestão de líquidos de acordo com as restrições dietéticas ou médicas.

Em resumo, “manter uma boa hidratação é essencial para a saúde e deve ser uma prioridade, especialmente em épocas de calor intenso. É importante adotar hábitos que facilitem a ingestão adequada de água e estar ciente dos alimentos que também contribuem para a hidratação”, refere Mariana Briote, rematando: “Consultar um nutricionista é fundamental para seguir orientações personalizadas por forma a garantir uma hidratação e nutrição adequadas”.

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 90 (julho-agosto, 2024) da Revista VIVER SAUDÁVEL