Grande Entrevista [Parte 1]: “Ser especialista não é só um título, é um selo de confiança” 389

O primeiro mandato dos Conselhos de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas (ON) – quadriénio 2022-2026 – está a chegar ao fim. Num balanço a três, Graça Ferro, Carla Lopes e Helena Ávila (presidentes dos Conselhos de Especialidade de Nutrição Clínica, Nutrição Comunitária e Saúde Pública e Alimentação Coletiva e Restauração, respetivamente) apontam como principal legado a implementação efetiva do novo modelo de atribuição do título de especialista – “equilibrado e justo”, sublinham – e a consolidação dos três Colégios, sem, contudo, esconderem os constrangimentos técnicos, operacionais e institucionais que marcaram o percurso.

Viver Saudável (VS) | Estamos a chegar ao final do primeiro mandato dos Conselhos de Especialidade da ON, que termina a 15 de julho. Que balanço fazem destes quatro anos – o que ficou mais sólido na profissão?

Graça Ferro – Foi um mandato marcado por muitos desafios, começando desde logo pela definição do modelo de atribuição do título de especialista. Ao longo do processo, o modelo inicialmente previsto sofreu várias alterações, mas esse percurso permitiu chegar a um sistema mais igualitário no acesso e assente em critérios mais claros e sólidos. Conseguimos concluir este mandato com o procedimento de especialização implementado e com a atribuição dos primeiros títulos de especialidade – as provas públicas decorreram em dezembro de 2025 –, o que representa um passo estruturante para a profissão. Foram quatro anos de muito trabalho, sempre com o objetivo maior de contribuir para o reconhecimento e valorização do nutricionista especialista.

Carla Lopes – Para além deste marco, que nos absorveu mais tempo, estes quatro anos deram corpo, pela primeira vez, ao que significa pertencer a um Colégio de Especialidade. Criámos o Encontro Nacional dos Nutricionistas Especialistas, sessões de formação e de partilha de boas práticas, dinamizadas por especialistas para especialistas, e abrimos espaço para Assembleias Gerais. Isto constrói identidade e, sobretudo, um patamar de discussão mais elevado. Houve também um ponto muito importante: a articulação entre os três Conselhos de Especialidade. Mesmo com especificidades, conseguimos manter uma raiz comum no modo de implementar e avaliar, o que dá coerência ao sistema.

Já se pode candidatar aos Prémios VIVER SAUDÁVEL 2026

Helena Ávila – Gostaria de realçar que foi uma honra servir a profissão e os seus profissionais durante estes quatro anos. No fundo, é o culminar de muitos anos de dedicação à profissão. O balanço só pode ser positivo porque culminámos na aspiração máxima de qualquer profissão: a sua especialização. O que ficou mais sólido é o facto de a profissão contar hoje com três Colégios de Especialidade, um patamar de maturidade que, uma vez alcançado, não deve recuar. Este primeiro mandato foi, inevitavelmente, o “ponto zero” da organização conceptual do processo. Foi um “condicionalismo positivo”, porque consumiu tempo, mas era indispensável para que a especialização deixasse de ser uma aspiração e passasse a ser uma realidade. Obviamente que este trabalho foi feito em colaboração com os outros colegas dos Conselhos de Especialidade, que têm igual mérito.

VS | Se tivessem de escolher uma grande conquista deste mandato, qual seria e porquê?

Graça Ferro – A grande conquista é, sem dúvida, a atribuição dos primeiros títulos de especialidade da ON. O processo exigiu a criação de um conjunto extenso de documentos: regulamento para os exames, procedimentos de reclamação, definição de júris, organização de todo o circuito. Chegar ao momento das provas e concluir o processo com estabilidade, sem nenhuma ocorrência de maior, foi um dia marcante para os Colégios. É também um sinal de que o modelo é operacionalizável e que a profissão tem condições para o manter com rigor.

Carla Lopes – Destaco a implementação do processo e a capacidade de o fazer apesar de termos, na prática, lidado com dois modelos completamente diferentes. Quando tomámos posse, herdámos um modelo que estava aprovado e começámos a preparar a sua implementação; depois, com os novos Estatutos da ON, tivemos de construir um segundo modelo. A conquista é termos chegado a bom porto, com um sistema coerente e com títulos atribuídos.

Helena Ávila – Acrescento a resiliência: cumprir prazos e concretizar tarefas, muitas delas invisíveis, num contexto de exigência elevada. O que me parece importante é que o tal “condicionalismo positivo” criou bases sólidas.

VS | E qual foi o maior desafio – técnico, operacional ou institucional – que tiveram de ultrapassar?

Graça Ferro – Do ponto de vista técnico e operacional, a plataforma eletrónica de admissão e avaliação das candidaturas foi um dos maiores desafios. O sistema não respondeu plenamente às necessidades do novo modelo e obrigou a adaptações constantes. Do ponto de vista institucional, existiu algum desalinhamento com a atual Direção da ON. Isso fez-nos sentir muitas vezes ausentes na tomada de decisões estratégicas para os nutricionistas especialistas e para a profissão.

“Com especialidades, a profissão consegue sentar-se à mesa com outros pares – médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos – numa lógica de igual para igual”, garante Helena Ávila, presidente do Conselho de Especialidade de Alimentação Coletiva e Restauração.

Carla Lopes – A plataforma é, de facto, um ponto crítico porque deve garantir uniformidade e fiabilidade. Houve também falhas de comunicação com a Direção da ON, como a abertura de candidaturas sem os Conselhos de Especialidade terem conhecimento, o que criou instabilidade. Teríamos lucrado muito se houvesse um melhor entendimento sobre o que os Colégios podem e devem aportar à estratégia da Ordem, inclusive na representação externa e na produção de pareceres. Tivemos alguma experiência anteriormente, no início do nosso mandado, com a anterior Direção, em reuniões importantes nos ministérios e nas instituições da saúde, em que, naturalmente, éramos convidadas enquanto presidentes dos Conselhos de Especialidade para abordar assuntos relacionados com as especializações. Com a nova Direção não houve esse entendimento.

Graça Ferro – Não houve a mesma proximidade. Pessoalmente, fui demitida de alguns grupos de trabalho e reuniões onde representava a Ordem, mantendo apenas participação num projeto do SClínico.

Carla Lopes – Chegámos a ser remetidas para iniciativas “a título próprio”, fora de um plano estratégico partilhado. Isso, de facto, deixa alguma mágoa.

Graça Ferro – Tudo o que sabemos atualmente da vida da Ordem é através das redes sociais. A única exceção foi a Portaria n.º 82/2025/1, quando foi pedido um parecer ao Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica – e, ainda assim, sem retorno claro sobre a evolução do tema.

Helena Ávila – Regressando à plataforma, parece um mero aspeto técnico, mas não. Tem implicações diretas na fiabilidade e qualidade do processo e nos direitos dos candidatos e do júri. Está previsto que a tramitação seja integralmente digital. Outro desafio foi a constante alteração da assessoria aos Conselhos de Especialidade, o que criou alguns constrangimentos na concretização das atividades planeadas. Num mandato tão fundador, o apoio deveria ter sido mais estável.

Carla Lopes – Já tivemos seis assessores diferentes, quase sempre a tempo parcial, o que obrigou a recomeços sucessivos. Só desde outubro de 2025 houve apoio a tempo integral. Foi crucial porque coincidiu com o culminar do processo de especialização.

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Graça Ferro – A falta de diálogo entre órgãos, sobretudo com a Direção, foi um dos maiores constrangimentos.

VS | O que mudou, na prática, para os nutricionistas? Houve ganhos reais em diferenciação técnica, reconhecimento e valorização?

Helena Ávila – Vejo a principal mudança como o início de um caminho estruturado. Pode parecer um dado um pouco etéreo, mas é efetivamente importante. A existência de um Colégio de Especialidade e de uma matriz de competências específicas avançadas, a criação de um ADN, também é uma aprendizagem. Portanto, quando falamos em “ganhos reais em diferenciação técnica, reconhecimento e valorização”, é muito usual pensarmos que o caminho ainda é curto. Mas o facto de já sabermos qual é o pensamento estratégico a médio-longo prazo – para onde queremos ir, o que nos compete fazer – é um ganho extraordinário para a profissão. No futuro, talvez deva ser feito um trabalho maior em relação ao desenvolvimento de guias de orientação para a prática profissional. Mas não posso deixar de referir o guia orientador “Atuação do nutricionista em estabelecimentos de educação e ensino”, publicado recentemente, uma vez que foi solicitada a sua validação ao Conselho de Especialidade de Nutrição Comunitária e Saúde Pública e não foi solicitada ao Conselho de Especialidade de Alimentação Coletiva e Restauração, porque foi entendimento da Direção da ON que esta área não seria adstrita ao nosso Colégio, que é seguramente, o que de alguma forma demonstra incapacidade de perceção do que é a profissão.

Graça Ferro – Nesta sequência, dizer que a ON dinamizou vários cursos de atualização relacionados com as três especialidades em que nunca fomos consultadas sobre o programa ou os oradores.

Carla Lopes – Queria voltar aos “ganhos reais” na prática. É uma questão que os jovens colocam muito: “Afinal, para que serve?”. Além das coisas importantes que a Helena disse, é verdade que em qualquer especialização é preciso tempo. O impacto na progressão de carreira ainda está muito associado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas esse não pode ser o único horizonte. Temos de olhar também para o setor privado, para instituições, para a comunidade e para o mercado de trabalho em sentido amplo. A especialização, para fazer sentido, tem de ter tradução em carreira, em reconhecimento e em oportunidades, e isso constrói-se.

Graça Ferro – Houve ganhos reais, mas com assimetrias. O primeiro é o próprio caminho de especialização estar operacionalizado, com critérios e competências definidos e com títulos atribuídos. O segundo é a dinâmica criada dentro dos Colégios, com sessões e momentos de partilha que reforçam a diferenciação técnica. O reconhecimento externo ainda não é uniforme, e sente-se isso em particular no SNS: há instituições que aplicam o título e outras que ainda levantam dúvidas ou resistem. É um processo que vai exigir tempo e trabalho de articulação.

VS | Que impacto acreditam que as especialidades podem ter na carreira: progressão, credibilidade profissional e acesso a oportunidades?

Carla Lopes – O processo incentiva a formação contínua ao longo da vida e, consequentemente, a diferenciação. Para os mais jovens, reforça a ideia de que a licenciatura não é o fim do caminho e motiva percursos pós-licenciatura, seja por mestrado, doutoramento ou outro tipo de cursos de especialização.

“O impacto na progressão de carreira ainda está muito associado ao Serviço Nacional de Saúde, mas esse não pode ser o único horizonte”, refere Carla Lopes, presidente do Conselho de Especialidade de Nutrição Comunitária e Saúde Pública.

Helena Ávila – O impacto é multiplicativo no sentido positivo. Não é criar dificuldades, é criar patamares: para o profissional, para o empregador e para o sistema. Com especialidades, a profissão consegue sentar-se à mesa com outros pares – médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos – numa lógica de “igual para igual”. Isso abre portas a fóruns de decisão onde, sem especialização, muitas vezes não se entra.

Graça Ferro – A especialidade estrutura a carreira porque reconhece competências diferenciadas e sinaliza experiência e qualificação. Na prática, pode ser decisiva em concursos, bolsas de recrutamento e perfis mais sénior, onde se procura alguém com maior conhecimento e responsabilidade. Também dá maior credibilidade junto de empregadores e instituições: ser “especialista” não é só um título, é um selo de confiança.

VS | O Regulamento Geral de Especialidades Profissionais da ON (RGEPON) trouxe um novo ciclo para as especialidades. O que veio clarificar ou melhorar?

Graça Ferro – Veio clarificar e melhorar o processo de especialização, valorizando o percurso do candidato, baseado na aquisição contínua de conhecimento e competências, atualizado e diferenciador. A atribuição do título passa a assentar na certificação de competências transversais e avançadas. No fundo, permitiu superar os obstáculos do modelo inicialmente previsto, que exigia a frequência de um curso de especialização reconhecido pela Ordem e um período de prática profissional tutelada.

Carla Lopes – Melhorou também a acessibilidade e a equidade territorial. A forma como podem progredir na sua formação é mais diversificada e flexível para os colegas de diferentes regiões. Um modelo estanque, dependente de um curso específico, cria barreiras, sobretudo para quem está fora dos grandes centros.

Lisboa, Capital da Nutrição 2026

Helena Ávila – Acrescento que o nível de exigência e de aferição das competências é equilibrado e justo para o que deve ser um nutricionista especialista. A atribuição do título é feita em função do número de anos de experiência – cinco anos é o limite mínimo para poder candidatar-se – e da aquisição de formação na área.

VS | O RGEPON prevê a criação de novas especialidades, subespecialidades e competências. Como olham para esta abertura: maturidade da profissão ou risco de fragmentação?

Graça Ferro – Deve ser encarada sobretudo como um sinal de maturidade, desde que aplicada com rigor e responsabilidade. O RGEPON estabelece critérios exigentes – nomeadamente a diferenciação técnico-científica clara, a relevância para a prática profissional e a existência de um número mínimo de especialistas – que funcionam como salvaguardas contra uma fragmentação excessiva ou artificial. Dito isto, existem nutricionistas que não se revêm plenamente nas três especialidades atuais – penso, por exemplo, nos colegas das áreas da indústria e inovação alimentar e do desporto. Mas será este o timing certo? O importante é que a evolução seja sustentada e coerente, como aconteceu noutras ordens profissionais mais antigas.

Carla Lopes – Vejo como maturidade da profissão, desde que haja massa crítica. A questão é: estamos a falar de um nicho de dez pessoas ou de uma necessidade real de 100, 200, 500? A Ordem deve ter um papel ativo de monitorização e auscultação junto dos colegas para perceber necessidades concretas e não avançar por pressões externas, como percecionamos em artigos que têm vindo a ser publicados nos meios de comunicação, incluindo na revista VIVER SAUDÁVEL.

Helena Ávila – Subscrevo. Acredito que o futuro terá de passar pela especialização. Não faria sentido estar contra novas especialidades, subespecialidades ou competências. Mas sublinho o risco do “quando” e do “como”. Na minha ótica, se não houver reflexão séria sobre a profissão e visão estratégica, isto pode tornar-se uma inversão e não uma evolução. Antes de criar, é preciso autoconhecimento da profissão, auscultação e consenso sobre o caminho. E também é preciso robustecer as especialidades que existem: as três ainda têm muito trabalho por fazer, em especial no reconhecimento externo e na tradução prática das competências.

“O reconhecimento externo ainda não é uniforme, e sente-se isso em particular no SNS: há instituições que aplicam o título e outras que ainda levantam dúvidas ou resistem”, aponta Graça Ferro, presidente do Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica.

VS | Ou seja, para já, o mais importante é haver uma reflexão interna…

Helena Ávila – Sem dúvida nenhuma!

VS | … mas também terá de ser o quanto antes…

Graça Ferro – Claro que sim! Porque temos colegas “perdidos”, que não se reveem em nenhuma das especialidades.

 

Esta Grande Entrevista é composta por duas partes. A segunda será publicada no dia 2 de março e conta com uma pergunta inevitável: “vão recandidatar-se ao cargo no próximo mandato?”.