O primeiro mandato dos Conselhos de Especialidade da Ordem dos Nutricionistas (ON) – quadriénio 2022-2026 – está a chegar ao fim. Num balanço a três, Graça Ferro, Carla Lopes e Helena Ávila (presidentes dos Conselhos de Especialidade de Nutrição Clínica, Nutrição Comunitária e Saúde Pública e Alimentação Coletiva e Restauração, respetivamente) apontam como principal legado a implementação efetiva do novo modelo de atribuição do título de especialista – “equilibrado e justo”, sublinham – e a consolidação dos três Colégios, sem, contudo, esconderem os constrangimentos técnicos, operacionais e institucionais que marcaram o percurso.
Viver Saudável (VS) | Estamos a chegar ao final do primeiro mandato dos Conselhos de Especialidade da ON, que termina a 15 de julho. Que balanço fazem destes quatro anos – o que ficou mais sólido na profissão?
Graça Ferro – Foi um mandato marcado por muitos desafios, começando desde logo pela definição do modelo de atribuição do título de especialista. Ao longo do processo, o modelo inicialmente previsto sofreu várias alterações, mas esse percurso permitiu chegar a um sistema mais igualitário no acesso e assente em critérios mais claros e sólidos. Conseguimos concluir este mandato com o procedimento de especialização implementado e com a atribuição dos primeiros títulos de especialidade – as provas públicas decorreram em dezembro de 2025 –, o que representa um passo estruturante para a profissão. Foram quatro anos de muito trabalho, sempre com o objetivo maior de contribuir para o reconhecimento e valorização do nutricionista especialista.
Carla Lopes – Para além deste marco, que nos absorveu mais tempo, estes quatro anos deram corpo, pela primeira vez, ao que significa pertencer a um Colégio de Especialidade. Criámos o Encontro Nacional dos Nutricionistas Especialistas, sessões de formação e de partilha de boas práticas, dinamizadas por especialistas para especialistas, e abrimos espaço para Assembleias Gerais. Isto constrói identidade e, sobretudo, um patamar de discussão mais elevado. Houve também um ponto muito importante: a articulação entre os três Conselhos de Especialidade. Mesmo com especificidades, conseguimos manter uma raiz comum no modo de implementar e avaliar, o que dá coerência ao sistema.
Helena Ávila – Gostaria de realçar que foi uma honra servir a profissão e os seus profissionais durante estes quatro anos. No fundo, é o culminar de muitos anos de dedicação à profissão. O balanço só pode ser positivo porque culminámos na aspiração máxima de qualquer profissão: a sua especialização. O que ficou mais sólido é o facto de a profissão contar hoje com três Colégios de Especialidade, um patamar de maturidade que, uma vez alcançado, não deve recuar. Este primeiro mandato foi, inevitavelmente, o “ponto zero” da organização conceptual do processo. Foi um “condicionalismo positivo”, porque consumiu tempo, mas era indispensável para que a especialização deixasse de ser uma aspiração e passasse a ser uma realidade. Obviamente que este trabalho foi feito em colaboração com os outros colegas dos Conselhos de Especialidade, que têm igual mérito.
VS | Se tivessem de escolher uma grande conquista deste mandato, qual seria e porquê?
Graça Ferro – A grande conquista é, sem dúvida, a atribuição dos primeiros títulos de especialidade da ON. O processo exigiu a criação de um conjunto extenso de documentos: regulamento para os exames, procedimentos de reclamação, definição de júris, organização de todo o circuito. Chegar ao momento das provas e concluir o processo com estabilidade, sem nenhuma ocorrência de maior, foi um dia marcante para os Colégios. É também um sinal de que o modelo é operacionalizável e que a profissão tem condições para o manter com rigor.
Carla Lopes – Destaco a implementação do processo e a capacidade de o fazer apesar de termos, na prática, lidado com dois modelos completamente diferentes. Quando tomámos posse, herdámos um modelo que estava aprovado e começámos a preparar a sua implementação; depois, com os novos Estatutos da ON, tivemos de construir um segundo modelo. A conquista é termos chegado a bom porto, com um sistema coerente e com títulos atribuídos.
Helena Ávila – Acrescento a resiliência: cumprir prazos e concretizar tarefas, muitas delas invisíveis, num contexto de exigência elevada. O que me parece importante é que o tal “condicionalismo positivo” criou bases sólidas.
VS | E qual foi o maior desafio – técnico, operacional ou institucional – que tiveram de ultrapassar?
Graça Ferro – Do ponto de vista técnico e operacional, a plataforma eletrónica de admissão e avaliação das candidaturas foi um dos maiores desafios. O sistema não respondeu plenamente às necessidades do novo modelo e obrigou a adaptações constantes. Do ponto de vista institucional, existiu algum desalinhamento com a atual Direção da ON. Isso fez-nos sentir muitas vezes ausentes na tomada de decisões estratégicas para os nutricionistas especialistas e para a profissão.
Carla Lopes – A plataforma é, de facto, um ponto crítico porque deve garantir uniformidade e fiabilidade. Houve também falhas de comunicação com a Direção da ON, como a abertura de candidaturas sem os Conselhos de Especialidade terem conhecimento, o que criou instabilidade. Teríamos lucrado muito se houvesse um melhor entendimento sobre o que os Colégios podem e devem aportar à estratégia da Ordem, inclusive na representação externa e na produção de pareceres. Tivemos alguma experiência anteriormente, no início do nosso mandado, com a anterior Direção, em reuniões importantes nos ministérios e nas instituições da saúde, em que, naturalmente, éramos convidadas enquanto presidentes dos Conselhos de Especialidade para abordar assuntos relacionados com as especializações. Com a nova Direção não houve esse entendimento.
Graça Ferro – Não houve a mesma proximidade. Pessoalmente, fui demitida de alguns grupos de trabalho e reuniões onde representava a Ordem, mantendo apenas participação num projeto do SClínico.
Carla Lopes – Chegámos a ser remetidas para iniciativas “a título próprio”, fora de um plano estratégico partilhado. Isso, de facto, deixa alguma mágoa.
Graça Ferro – Tudo o que sabemos atualmente da vida da Ordem é através das redes sociais. A única exceção foi a Portaria n.º 82/2025/1, quando foi pedido um parecer ao Conselho de Especialidade de Nutrição Clínica – e, ainda assim, sem retorno claro sobre a evolução do tema.
Helena Ávila – Regressando à plataforma, parece um mero aspeto técnico, mas não. Tem implicações diretas na fiabilidade e qualidade do processo e nos direitos dos candidatos e do júri. Está previsto que a tramitação seja integralmente digital. Outro desafio foi a constante alteração da assessoria aos Conselhos de Especialidade, o que criou alguns constrangimentos na concretização das atividades planeadas. Num mandato tão fundador, o apoio deveria ter sido mais estável.
Carla Lopes – Já tivemos seis assessores diferentes, quase sempre a tempo parcial, o que obrigou a recomeços sucessivos. Só desde outubro de 2025 houve apoio a tempo integral. Foi crucial porque coincidiu com o culminar do processo de especialização.
Conselhos de Especialidade da ON: Sessão de esclarecimento e Assembleias Gerais em março
Graça Ferro – A falta de diálogo entre órgãos, sobretudo com a Direção, foi um dos maiores constrangimentos.
VS | O que mudou, na prática, para os nutricionistas? Houve ganhos reais em diferenciação técnica, reconhecimento e valorização?
Helena Ávila – Vejo a principal mudança como o início de um caminho estruturado. Pode parecer um dado um pouco etéreo, mas é efetivamente importante. A existência de um Colégio de Especialidade e de uma matriz de competências específicas avançadas, a criação de um ADN, também é uma aprendizagem. Portanto, quando falamos em “ganhos reais em diferenciação técnica, reconhecimento e valorização”, é muito usual pensarmos que o caminho ainda é curto. Mas o facto de já sabermos qual é o pensamento estratégico a médio-longo prazo – para onde queremos ir, o que nos compete fazer – é um ganho extraordinário para a profissão. No futuro, talvez deva ser feito um trabalho maior em relação ao desenvolvimento de guias de orientação para a prática profissional. Mas não posso deixar de referir o guia orientador “Atuação do nutricionista em estabelecimentos de educação e ensino”, publicado recentemente, uma vez que foi solicitada a sua validação ao Conselho de Especialidade de Nutrição Comunitária e Saúde Pública e não foi solicitada ao Conselho de Especialidade de Alimentação Coletiva e Restauração, porque foi entendimento da Direção da ON que esta área não seria adstrita ao nosso Colégio, que é seguramente, o que de alguma forma demonstra incapacidade de perceção do que é a profissão.
Graça Ferro – Nesta sequência, dizer que a ON dinamizou vários cursos de atualização relacionados com as três especialidades em que nunca fomos consultadas sobre o programa ou os oradores.
Carla Lopes – Queria voltar aos “ganhos reais” na prática. É uma questão que os jovens colocam muito: “Afinal, para que serve?”. Além das coisas importantes que a Helena disse, é verdade que em qualquer especialização é preciso tempo. O impacto na progressão de carreira ainda está muito associado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas esse não pode ser o único horizonte. Temos de olhar também para o setor privado, para instituições, para a comunidade e para o mercado de trabalho em sentido amplo. A especialização, para fazer sentido, tem de ter tradução em carreira, em reconhecimento e em oportunidades, e isso constrói-se.
Graça Ferro – Houve ganhos reais, mas com assimetrias. O primeiro é o próprio caminho de especialização estar operacionalizado, com critérios e competências definidos e com títulos atribuídos. O segundo é a dinâmica criada dentro dos Colégios, com sessões e momentos de partilha que reforçam a diferenciação técnica. O reconhecimento externo ainda não é uniforme, e sente-se isso em particular no SNS: há instituições que aplicam o título e outras que ainda levantam dúvidas ou resistem. É um processo que vai exigir tempo e trabalho de articulação.
VS | Que impacto acreditam que as especialidades podem ter na carreira: progressão, credibilidade profissional e acesso a oportunidades?
Carla Lopes – O processo incentiva a formação contínua ao longo da vida e, consequentemente, a diferenciação. Para os mais jovens, reforça a ideia de que a licenciatura não é o fim do caminho e motiva percursos pós-licenciatura, seja por mestrado, doutoramento ou outro tipo de cursos de especialização.
Helena Ávila – O impacto é multiplicativo no sentido positivo. Não é criar dificuldades, é criar patamares: para o profissional, para o empregador e para o sistema. Com especialidades, a profissão consegue sentar-se à mesa com outros pares – médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos – numa lógica de “igual para igual”. Isso abre portas a fóruns de decisão onde, sem especialização, muitas vezes não se entra.
Graça Ferro – A especialidade estrutura a carreira porque reconhece competências diferenciadas e sinaliza experiência e qualificação. Na prática, pode ser decisiva em concursos, bolsas de recrutamento e perfis mais sénior, onde se procura alguém com maior conhecimento e responsabilidade. Também dá maior credibilidade junto de empregadores e instituições: ser “especialista” não é só um título, é um selo de confiança.
VS | O Regulamento Geral de Especialidades Profissionais da ON (RGEPON) trouxe um novo ciclo para as especialidades. O que veio clarificar ou melhorar?
Graça Ferro – Veio clarificar e melhorar o processo de especialização, valorizando o percurso do candidato, baseado na aquisição contínua de conhecimento e competências, atualizado e diferenciador. A atribuição do título passa a assentar na certificação de competências transversais e avançadas. No fundo, permitiu superar os obstáculos do modelo inicialmente previsto, que exigia a frequência de um curso de especialização reconhecido pela Ordem e um período de prática profissional tutelada.
Carla Lopes – Melhorou também a acessibilidade e a equidade territorial. A forma como podem progredir na sua formação é mais diversificada e flexível para os colegas de diferentes regiões. Um modelo estanque, dependente de um curso específico, cria barreiras, sobretudo para quem está fora dos grandes centros.
Helena Ávila – Acrescento que o nível de exigência e de aferição das competências é equilibrado e justo para o que deve ser um nutricionista especialista. A atribuição do título é feita em função do número de anos de experiência – cinco anos é o limite mínimo para poder candidatar-se – e da aquisição de formação na área.
VS | O RGEPON prevê a criação de novas especialidades, subespecialidades e competências. Como olham para esta abertura: maturidade da profissão ou risco de fragmentação?
Graça Ferro – Deve ser encarada sobretudo como um sinal de maturidade, desde que aplicada com rigor e responsabilidade. O RGEPON estabelece critérios exigentes – nomeadamente a diferenciação técnico-científica clara, a relevância para a prática profissional e a existência de um número mínimo de especialistas – que funcionam como salvaguardas contra uma fragmentação excessiva ou artificial. Dito isto, existem nutricionistas que não se revêm plenamente nas três especialidades atuais – penso, por exemplo, nos colegas das áreas da indústria e inovação alimentar e do desporto. Mas será este o timing certo? O importante é que a evolução seja sustentada e coerente, como aconteceu noutras ordens profissionais mais antigas.
Carla Lopes – Vejo como maturidade da profissão, desde que haja massa crítica. A questão é: estamos a falar de um nicho de dez pessoas ou de uma necessidade real de 100, 200, 500? A Ordem deve ter um papel ativo de monitorização e auscultação junto dos colegas para perceber necessidades concretas e não avançar por pressões externas, como percecionamos em artigos que têm vindo a ser publicados nos meios de comunicação, incluindo na revista VIVER SAUDÁVEL.
Helena Ávila – Subscrevo. Acredito que o futuro terá de passar pela especialização. Não faria sentido estar contra novas especialidades, subespecialidades ou competências. Mas sublinho o risco do “quando” e do “como”. Na minha ótica, se não houver reflexão séria sobre a profissão e visão estratégica, isto pode tornar-se uma inversão e não uma evolução. Antes de criar, é preciso autoconhecimento da profissão, auscultação e consenso sobre o caminho. E também é preciso robustecer as especialidades que existem: as três ainda têm muito trabalho por fazer, em especial no reconhecimento externo e na tradução prática das competências.
VS | Ou seja, para já, o mais importante é haver uma reflexão interna…
Helena Ávila – Sem dúvida nenhuma!
VS | … mas também terá de ser o quanto antes…
Graça Ferro – Claro que sim! Porque temos colegas “perdidos”, que não se reveem em nenhuma das especialidades.
Esta Grande Entrevista é composta por duas partes. A segunda será publicada no dia 2 de março e conta com uma pergunta inevitável: “vão recandidatar-se ao cargo no próximo mandato?”.




