A Casa do Infante, no Porto, recebeu, na tarde de 14 de março, a cerimónia de tomada de posse dos órgãos sociais da Associação Portuguesa de Nutrição (APN) para o triénio 2026-2029. Perante uma sala praticamente cheia e num ambiente intimista, a sessão foi marcada por apelos à continuidade, à renovação e ao reforço do papel técnico-científico da estrutura associativa, num momento em que a nutrição reclama maior centralidade nas políticas públicas, na ciência e na vida das comunidades.
A tarde de sábado trouxe à Invicta um raro equilíbrio entre solenidade institucional e proximidade humana. Contando com a presença de representantes da Direção-Geral da Saúde (DGS), da Ordem dos Nutricionistas (ON), das licenciaturas que dão acesso à profissão de nutricionista e da Câmara Municipal do Porto, parceiros, família e amigos, a APN assinalou o arranque formal de um novo mandato, mas também a passagem de testemunho entre quem consolidou a casa e quem agora assume a responsabilidade de a conduzir até 2029.
A cerimónia aconteceu pouco mais de um mês após o ato eleitoral de 7 de fevereiro, que elegeu, em lista única, Liliana Ferreira para a presidência da Direção, Célia Craveiro para a presidência da Mesa da Assembleia Geral e Cláudio Rodrigues para a presidência do Conselho Fiscal. Mais do que uma formalidade estatutária, a reunião acabou por desenhar, discurso após discurso, uma ideia comum: a de que a APN chega a este novo ciclo robustecida, reconhecida e chamada a intervir num tempo particularmente exigente para a saúde pública e para a alimentação.
Uma associação com lugar no território
Em representação do presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, coube a Sílvia Cunha, diretora do Departamento Municipal de Promoção de Saúde e Qualidade de Vida e Juventude, abrir o momento solene. Nutricionista e antiga dirigente da APN, falou a partir de uma dupla pertença: a de dirigente municipal e a de alguém que conhece a história da associação por dentro.
A escolha da Casa do Infante, salientou, não pareceu inocente. O edifício, um dos símbolos patrimoniais da cidade, serviu-lhe de ponto de partida para enquadrar a cerimónia como um momento de “renovação, continuidade e espírito empreendedor”. E foi precisamente nessa articulação entre herança e futuro que construiu a sua intervenção.
“O momento que hoje aqui nos reúne é justamente de todos”, avançou. “Dos que representam o passado, um passado que importa reconhecer e respeitar e que trouxe a APN ao relevante presente que hoje conhecemos, e dos que representam o futuro, um futuro no qual importa continuar a investir com determinação e também com elevada visão”, prosseguiu.
Sílvia Cunha aproveitou ainda para fortalecer a centralidade crescente dos municípios na promoção da saúde e na criação de condições que favoreçam escolhas alimentares mais saudáveis. “As cidades são atualmente os principais contextos onde se determina a saúde das populações”, observou, defendendo que é no território concreto – “no quotidiano da vida das pessoas, nos seus locais de trabalho, nas escolas, nos bairros, nos espaços de lazer e nos restantes espaços públicos” – que se ‘joga’ uma parte decisiva da equidade em saúde.
Nesse ponto, traçou uma ponte clara entre o município e a APN. Aclamou o Plano Municipal de Saúde do Porto, que inclui a alimentação equilibrada como um dos seus quatro eixos de intervenção, e indicou duas prioridades que aproximam as duas instituições: “Capacitar os cidadãos e criar ambientes que facilitam escolhas alimentares saudáveis” e “promover a sustentabilidade alimentar”.
A responsável certificou que a APN “tem sido, ao longo de mais de quatro décadas, um garante de rigor científico, de credibilidade institucional e de defesa do interesse público”. “Ajudou a moldar a identidade profissional da nutrição em Portugal, promove formação contínua, produz conhecimento, aproxima a ciência da sociedade e continua a reforçar a importância da nutrição e dos nutricionistas no sistema de saúde”, expôs, antes de deixar uma formulação que condensou o espírito da sua mensagem: “Não há saúde sem nutrição e não há nutrição sem o rigor de uma ciência em constante evolução”.
O balanço de um período “muito desafiante”
Depois da representante do município, Hugo de Sousa Lopes, presidente cessante da Mesa da Assembleia Geral, passou da condução protocolar para um discurso com tom de balanço e despedida. Com humor, algum despojamento e uma linguagem mais franca, valorizou o associativismo como espaço de serviço e destacou aquilo que, no seu entender, sustenta quem aceita cargos desta natureza: “Disponibilidade e compromisso”.
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“Estas são as palavras a sublinhar para aqueles colegas que hoje terminam as suas funções e aqueles que hoje as iniciam”, declarou. “Disponibilidade e compromisso são o adágio dos que de alguma forma se dedicam ao associativismo, que dispõem das suas vidas pessoais, do seu tempo com a família e, muitas vezes até, do seu tempo profissional para se dedicarem ao bem coletivo e ao progresso da nutrição”, desenvolveu.
Ao olhar para os últimos anos da APN, elencou o que considerou serem os “três marcos incontornáveis” do período liderado por Célia Craveiro. O primeiro foi a transformação do objeto e da própria designação da associação, num momento em que, recordou, se temia pela sua sobrevivência. “Foram tempos difíceis e de luta, mas a APN e os seus representantes souberam encontrar o seu caminho, e das fraquezas fizeram forças e das ameaças fizeram oportunidades”, sinalizou.
O segundo marco foi a capacidade de resposta em tempo de pandemia e de crise inflacionista, tanto na atividade formativa como na realização do Congresso de Nutrição e Alimentação (CNA) e na gestão financeira. O terceiro marco, o crescimento do número de associados e a fidelização dos sócios mais antigos, num tempo que descreveu como marcado por “individualismos e faltas de empatia”.
A terminar funções na Mesa da Assembleia Geral, cargo que ocupou durante 15 anos – seis como secretário e nove como presidente –, Hugo de Sousa Lopes não evitou referências aos momentos mais tensos da vida interna da APN, especialmente durante o processo de mudança dos Estatutos. Fê-lo, porém, para acentuar a importância de preservar a instituição acima de agendas particulares.
Nesse registo, deixou uma ideia que ajuda a compreender a sua visão sobre o funcionamento das organizações. “Reitero um ponto que me define de tanto o abordar: o ativo maior de qualquer instituição é o seu quadro profissional, sempre”, afirmou. E acrescentou: “Desengane-se quem achar que, na sua instituição, os dirigentes são mais relevantes do que os profissionais, pois tais posições tendem a menorizar as próprias instituições”. Na APN, frisou, esse reconhecimento tem sido uma constante: “Felizmente, essa não é a tradição nesta casa, sendo assunto sempre de grande reconhecimento”.
Fechou com votos dirigidos à nova liderança, apontando alguns dos “grandes desafios” que antevê para o futuro: “Transição digital, inteligência artificial e sustentabilidade”, sem esquecer a alimentação enquanto determinante da saúde “em tempos de desinformação”.
“Continuidade responsável e sustentável” com “inovação na medida certa”
A seguir à tomada de posse formal, Liliana Ferreira subiu ao púlpito já como presidente da Direção da APN. O seu discurso combinou sentido institucional, ambição programática e uma dimensão pessoal que lhe deu densidade e proximidade.
“É com uma enorme honra e orgulho, alguns nervos, e um profundo sentido de responsabilidade que assumo hoje funções como presidente da Direção da APN para o triénio 2026-2029”, começou por dizer, perante uma assistência atenta. Logo nas primeiras palavras, fez questão de recentrar o mandato na lógica coletiva que atravessou quase todas as intervenções da tarde. “A força deste mandato reside, essencialmente, na equipa que hoje toma posse”, confirmou.
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Essa equipa que a acompanha, explicou, cruza “experiência associativa” e “novas perspetivas”, permitindo “assegurar uma continuidade responsável, simultaneamente aberta à inovação e à incorporação de novos olhares estratégicos”. A formulação reapareceria mais à frente, já como espécie de síntese política do novo ciclo: “Se me pedirem para tentar resumir ou antever os próximos três anos em curtas palavras, diria continuidade responsável e sustentável do trabalho previamente desenvolvido e inovação na medida certa, em resposta aos desafios de uma área que sabemos estar em contínuo crescimento e evolução”.
Na prática, essa continuidade com renovação traduz-se, segundo Liliana Ferreira, em quatro grandes compromissos: reforçar a relevância técnico-científica da APN; valorizar, capacitar e envolver mais os associados; consolidar o posicionamento institucional da associação a nível nacional e internacional; e aprofundar a sua responsabilidade científica e social junto da comunidade. “Assumimos, assim, o compromisso de uma gestão responsável e participada, promovendo uma APN cada vez mais forte, relevante e preparada para os desafios do futuro”, delineou, garantindo uma “ação pautada pelos princípios da ética, da idoneidade, da responsabilidade e da transparência”.
Mas foi talvez no momento mais pessoal do discurso que a nova presidente conseguiu fixar melhor a ideia de percurso e vocação. “Há muitos anos, num daqueles questionários que nos eram feitos no início de cada ano letivo, respondi à pergunta ‘O que queres ser quando fores grande?’ com a palavra ‘nutricionista’. Ninguém sabia o que eu queria dizer na altura. Tinha 12 anos e frequentava o 8.º ano”, reviveu. “Hoje, com muito mais perguntas do que respostas, aquilo que verdadeiramente me move é tentar contribuir da melhor forma possível para o desenvolvimento da nossa área de estudo e da nossa profissão”, partilhou.
Nesse trajeto, a associação surge como lugar de pertença antiga. Liliana Ferreira lembrou que acompanha a APN desde a entrada na faculdade e evocou os congressos, os materiais guardados e, mais tarde, a entrada como formadora e dirigente. “Nunca escondi que um dia gostaria de assumir maiores responsabilidades na associação, muito embora estivesse longe de imaginar que o caminho me traria aqui tão rapidamente”, confessou, antes de desanuviar a sala com uma nota bem-humorada: “E a culpa é da Célia!”.
O discurso serviu ainda para agradecer a quem sai e a quem permanece. A nutricionista elogiou o trabalho dos órgãos sociais anteriores e do corpo técnico, nomeando a equipa e sublinhando que são essas pessoas que tornam a APN numa “associação viva”. Já perto do fim, deixou uma homenagem expressa à liderança de Célia Craveiro nos últimos 12 anos, preparando o terreno emocional para a última grande intervenção da tarde.
Célia Craveiro e a memória de 12 anos
Coube a Célia Craveiro, presidente cessante da Direção e nova presidente da Mesa da Assembleia Geral, encerrar a sessão com um discurso marcado por emoção, memória e balanço. Pouco depois de uma montagem evocativa de diferentes momentos da vida da associação, admitiu precisar de “um tempinho para me restabelecer”, mas rapidamente transformou a emoção em matéria política e institucional.
“Se há coisas que vou levar destes 12 anos são as pessoas que estiveram comigo em diferentes momentos”, mencionou. Corrigiu-se de imediato, como quem não queria atribuir a si um protagonismo isolado: “E não ‘estiveram comigo’, peço desculpa. Estivemos todos juntos”.
Ao revisitar os quatro mandatos que liderou, Célia Craveiro falou de “um período particularmente desafiante, marcado por profundas transformações na própria profissão”, mas reiterou que a associação encontrou “novos caminhos e caminhos sólidos”. Entre os exemplos desse percurso, alistou a “continuidade e expansão” do CNA, a “consolidação” da Acta Portuguesa de Nutrição – elogiando o trabalho do diretor desta revista de índole científica e profissional, Nuno Borges –, a evolução da formação, a produção de manuais técnico-científicos, guidelines e e-books, o reforço do trabalho comunitário em áreas como a literacia alimentar e a sustentabilidade, e a afirmação institucional, dentro e fora de portas.
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“Espero, sinceramente, que estes anos possam ser recordados como um período em que a APN soube reinventar-se”, referiu. E, se a ideia de reinvenção apareceu como síntese histórica, a de construção coletiva surgiu como princípio organizador da despedida. “Não há trabalhos de equipa feitos por uma só pessoa. E não há associações de uma só pessoa”, afiançou, numa das passagens mais marcantes.
Já a transitar para o novo papel que agora assume, deixou duas mensagens curtas e complementares. Aos novos elementos que se juntam à APN, pediu “sangue novo, novas ideias, novas ambições e novas formas de fazer”. Aos que continuam disponíveis para servir, anotou que “a experiência, a memória e o compromisso” também são fundamentais. “As instituições constroem-se com um equilíbrio entre a memória e a renovação, entre a experiência e também novas visões”, resumiu.
No final, agradeceu a confiança recebida ao longo dos anos, destacou o apoio de colegas próximos – com referência expressa ao tesoureiro cessante Cláudio Rodrigues, pelo papel de bastidores na gestão da associação – e convidou os presentes para um momento de convívio. Antes disso, porém, a sala ainda lhe ofereceu uma prolongada ovação de pé, num gesto que condensou o reconhecimento por um ciclo longo e exigente.
Entre aplausos, evocação e promessa, a APN saiu da Casa do Infante com uma ideia de continuidade serena, mas também com a noção de que os próximos anos exigirão afirmação redobrada. Numa área em crescimento, pressionada pela desinformação, pelas desigualdades e pelos desafios da saúde pública, a associação quis apresentar-se como espaço de conhecimento, credibilidade e ação coletiva. E foi essa vontade de manter legado e futuro em diálogo que atravessou toda a tarde no Porto.
Pode conhecer os órgãos sociais da APN para o triénio 2026-2029 aqui e aceda de seguida à galeria completa da tomada de posse dos órgãos sociais:















































