Dieta Mediterrânica: Muito além do prato 96

Artigo publicado originalmente na edição n.º 98 (novembro-dezembro, 2025) da Revista VIVER SAUDÁVEL.

 

Reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade e amplamente estudada pela ciência, a Dieta Mediterrânica vai além da nutrição. Um estudo internacional, com a participação da equipa de docentes da Licenciatura em Dietética e Nutrição da Escola Superior de Saúde de Lisboa, pretende contribuir para aumentar a literacia dos portugueses neste domínio.

A Dieta Mediterrânica foi primariamente definida por Ancel Keys, nas décadas de 50 e 60 do século XX, como uma dieta pobre em gorduras saturadas e rica em óleos vegetais. Este conceito surgiu após a observação de que o padrão alimentar dos povos do Mediterrâneo – Grécia, Itália, Espanha e Portugal- se associava a uma menor incidência de doença coronária na população destes países.

Contudo, o fisiologista norte-americano “descreveu a Dieta Mediterrânica não apenas como padrão alimentar, mas também como um estilo de vida“, explica a nutricionista Vânia Costa, professora na Escola Superior de Saúde de Lisboa e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde. Aliás, a palavra “dieta” deriva do grego antigo δίαιτα (leia-se díaita), que significa “modo de vida” ou “modo de viver” e não apenas um conjunto de alimentos.

A UNESCO, que a classificou em 2013 como Património Cultural Imaterial da Humanidade, assinala que abrange um conjunto de competências, conhecimentos, rituais, símbolos e tradições relativos ao cultivo, colheita, pesca, criação de animais, conservação, processamento, confeção e, em especial, partilha e consumo dos alimentos.

Partindo destas premissas, Vânia Costa não duvida em afirmar que o conceito “está em crise”. Diversos estudos demonstram que, “ao longo dos últimos 100 anos, o tempo que dedicamos à alimentação diminuiu muito significativamente“.

Vânia Costa: “A Dieta Mediterrânica é intergeracional. É preciso não perder estas tradições, recuperar e também inovar”

Além disso, o Programa Nacional de Promoção da Atividade Física (PNPAF) revela concretamente que “os portugueses têm um estilo de vida sedentário” e, de um modo geral, “dormem mal, compram mais alimentos ultraprocessados, têm dificuldades em termos do convívio e do tempo que devem disponibilizar para a alimentação“.

Faz falta “a consciência da necessidade de mudança das nossas rotinas” e “maior literacia em saúde sobre a Dieta Mediterrânica para que as pessoas comecem a valorizá-la”.

Existem movimentos que defendem a diminuição do consumo de carne e de peixe, com a substituição por outros grupos de alimentos, mas “a dieta mediterrânica é muito mais do que isso”. A grande esperança reside nas novas gerações. “Preocupam-se muito com o ambiente e a sustentabilidade ambiental” e, na opinião de Vânia Costa, esta é “uma premissa importante” porque a Dieta Mediterrânica, “além de ser um estilo de vida promotor da saúde e protetor da doença, está perfeitamente descrita como sustentável“.

Projeto internacional vai ajudar a “saber fazer”

Com o objetivo de estudar a literacia neste domínio, a equipa de professores da Licenciatura em Dietética e Nutrição da Escola Superior de Saúde de Lisboa está, desde há dois anos, ativamente envolvida no estudo internacional “Tool4MEDLife – Da tradição à inovação: novos alimentos e ferramentas educativas para um estilo de vida mediterrânico saudável e sustentável“. A investigação “envolve vários países do Mediterrâneo. Nomeadamente, Portugal, Espanha, Itália, Croácia e Turquia”.

A fase de diagnóstico deste estudo pioneiro visou “analisar a adesão à Dieta Mediterrânica de pessoas em todo o ciclo de vida” e assenta numa amostra de mais de 4.500 indivíduos. “Medimos não só a adesão à Dieta Mediterrânica, mas também as competências alimentares e culinárias, na medida em que, para praticar este padrão alimentar, é preciso saber cozinhar“.

Quando ter acesso a informação é demasiada informação?

Atualmente, “estamos a desenvolver um conjunto de ferramentas para o público, com o objetivo de ajudar as pessoas a aumentarem a sua literacia sobre a Dieta Mediterrânica, ou seja, não só ter acesso a mais informação e conhecimento, mas também serem capazes de pôr esse conhecimento em prática”. Nomeadamente, jogos e uma app, que vão ser testados em grupos focais até ao final do ano [de 2025]”.

Os relatórios sobre a fase de diagnóstico ainda não foram partilhados, mas a nutricionista antecipa algumas conclusões: “em termos de adesão à Dieta Mediterrânica, não nos comparamos mal com os outros países”. Contudo, “verificamos que o consumo de leguminosas, hortícolas e cereais integrais é insuficiente e o consumo de produtos açucarados continua elevado“.

As pessoas “têm dificuldade em identificar as refeições que estão de acordo com a Dieta Mediterrânica e as quantidades adequadas, em planear as refeições tendo em conta os produtos locais e da época, e também não percebem inteiramente a importância de envolver os outros membros da família nas tarefas relacionadas com as refeições”.

“É preciso recuperar as tradições” à volta da comida

“O Programa Nacional para a Promoção de Alimentação Saudável tem feito um bom trabalho em investir, promover, dinamizar e disponibilizar ferramentas para promover a Dieta Mediterrânica, mas é preciso que todas as entidades, das escolas às empresas, reconheçam que esse investimento faz sentido e seja uma prioridade na oferta alimentar”, defende a docente. “A Dieta Mediterrânica é intergeracional, implica a passagem dos conhecimentos adquiridos na família de geração em geração. É preciso não perder estas tradições, recuperar e também inovar”, acrescenta a especialista.

O conceito tem uma estrutura basilar: “o azeite como a gordura principal, investir mais no consumo diário de produtos frescos de origem vegetal, incluindo hortícolas, frutos, leguminosas, cereais (preferencialmente integrais) e reduzir o consumo da carne e pescado”.

Ao contrário da carne de caça, menos IVA na alimentação teria “impacto direto” na população

“É essencial investir na literacia alimentar. Saber comprar, preparar/cozinhar e comer de forma saudável estes alimentos para os voltar a pôr diariamente na mesa dos portugueses“, defende a nutricionista. “A Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde tem tido também esta missão. Sempre que possível, integra nas suas atividades a promoção da literacia alimentar e a literacia em saúde sobre a Dieta Mediterrânica”.

Desde que a UNESCO declarou a Dieta Mediterrânica como Património Cultural Imaterial da Humanidade, as alterações climáticas e a consciência do seu impacto ambiental “traduziram-se, sem dúvida, numa maior consciência da necessidade de reduzir o consumo de carne”. Por outro lado, “surgiram estudos que identificam que o consumo de vinho deve ser de nível zero” e “o mercado tem se ajustado para promover uma maior oferta de cereais integrais, produtos com menos aditivos, menos sal e menos açúcar”.

Mesmo assim, “ingerimos quantidades de carne muito acima das necessidades”. Esta questão “tem muito a ver com a forma como hoje cozinhamos os alimentos”. Estufados e guisados com leguminosas e hortícolas “permitem diminuir significativamente a quantidade de carne sem sentir falta dela e aproximar-nos do modo de confeção de alimentos que a Dieta Mediterrânica fomenta: numa única panela, cozinhar todos os alimentos em simultâneo, sem desperdício de energia e de água. Mas, para isso, é preciso tempo e saber fazer”, conclui.