Hoje celebra-se o Dia Mundial da Obesidade. A data, instituída pela World Obesity Federation, tem como objetivo consciencializar os cidadãos para uma problemática com números cada vez mais preocupantes, face a todo um ambiente obesogénico que ultrapassa – e condiciona – a mera especificidade individual.
Em entrevista, Gil Faria, investigador, médico e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde, avalia a complexidade desta doença crónica, o estigma que ainda se sente no sistema de saúde, os novos fármacos baseados em agonistas do GLP-1 e ainda o papel dos nutricionistas nesta equação.
VIVER SAUDÁVEL (VS) – Muitos cidadãos ainda não olham para a obesidade como uma doença, atribuindo-a a maus hábitos alimentares. No entanto, a evidência científica diz-nos que são vários os fatores a ter em conta, sejam metabólicos, sociais ou até ambientais. Neste Dia Mundial da Obesidade, qual a mensagem a reter?
Gil Faria (GF) – A mensagem que precisamos de repetir, até se tornar consensual, é simples: a obesidade não é falta de força de vontade. É uma doença crónica, biologicamente determinada, que se desenvolve num ambiente social profundamente obesogénico.
Durante décadas, simplificámos o problema: “coma menos, mexa-se mais”. Continuar a acreditar nisto é ignorar décadas de investigação científica. O corpo humano não é uma máquina aritmética. É regulado por sistemas hormonais complexos que defendem o peso corporal. Quando alguém perde peso, o organismo responde aumentando a fome, reduzindo o metabolismo e alterando a regulação energética. Isto não é opinião, é fisiologia.
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Além disso, vivemos num contexto social onde alimentos altamente calóricos são baratos, acessíveis e intensamente promovidos. Trabalhamos sentados, dormimos menos, vivemos com mais stress. Culpar o indivíduo por não resistir a um ambiente desenhado para estimular o consumo é intelectualmente desonesto.
Neste Dia Mundial da Obesidade, a mensagem deveria ser desconfortável, mas libertadora: se continuarmos a falar em culpa, nunca falaremos seriamente em tratamento.
VS – O estigma é real e também se encontra nos profissionais de saúde, o que pode afastar os doentes do consultório. De que forma é possível endereçar esta problemática com sucesso?
GF – O estigma na obesidade é talvez uma das últimas formas de preconceito social ainda amplamente toleradas. E é particularmente grave quando vem de quem deveria tratar.
Há evidência consistente de que pessoas com obesidade relatam consultas mais curtas, menor empatia e menor encaminhamento para terapêuticas avançadas. Alguns profissionais, mesmo inconscientemente, continuam a associar obesidade a falta de disciplina. O doente sente esse julgamento, mesmo quando não é explícito e muitos internalizam a culpa e evitam regressar ao consultório. O resultado é atraso no tratamento e progressão das complicações.
Combater este problema exige formação. A obesidade deve ser ensinada nas faculdades como doença metabólica complexa, e não apenas como consequência comportamental. É fundamental promover linguagem respeitosa, centrada na pessoa (“pessoa com obesidade” e não “obeso”). E precisamos de protocolos claros que normalizem a referenciação para fármacos ou cirurgia quando indicados, sem hesitação moral.
Mas, acima de tudo, precisamos de reconhecer que nenhum profissional está imune a preconceitos culturais. O primeiro passo é admitir que o estigma existe. O segundo é combatê-lo ativamente. Reconhecer que a força de vontade não é suficiente contra mecanismos hormonais poderosos é um passo essencial para oferecer cuidados mais humanos e eficazes.
VS – Em muitos casos, a solução passa por uma atuação cirúrgica e/ou farmacológica. Enquanto cirurgião especialista em obesidade e doenças metabólicas, como avalia o crescente uso de ferramentas inovadoras como o Ozempic, entretanto comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde?
GF – Os fármacos baseados em agonistas do GLP-1 representam uma mudança histórica no tratamento da obesidade. Atuam diretamente nos circuitos biológicos da fome e da saciedade permitindo uma regulação mais equilibrada do apetite e uma perda de peso clinicamente significativa.
A comparticipação pelo Serviço Nacional de Saúde será um sinal importante de reconhecimento institucional de que estamos perante tratamento médico legítimo. E isto desloca a conversa da culpa para a terapêutica.
Mas é essencial clarificar que estes medicamentos não são soluções mágicas nem substituem o acompanhamento clínico estruturado. A obesidade é crónica e recidivante; quando a medicação é interrompida, o risco de reganho de peso é elevado, porque a doença subjacente permanece.
Nos casos mais graves, a cirurgia metabólica continua a ser o tratamento mais eficaz e duradouro. Fármacos e cirurgia não competem; complementam-se. O futuro está na personalização da terapêutica, adaptada ao perfil metabólico de cada doente.
VS – Qual o papel do nutricionista no combate à obesidade?
GF – O nutricionista é uma peça central na abordagem da obesidade e o seu papel vai muito além de prescrever planos alimentares.
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É o profissional que ajuda a reconstruir a relação com a comida, a adaptar a alimentação à realidade social e económica da pessoa e a criar estratégias sustentáveis no longo prazo. Numa doença marcada por tentativas repetidas e frustração acumulada, o acompanhamento nutricional deve ser empático, flexível, personalizado e baseado em evidência. Especificamente, o acompanhamento nutricional após cirurgia metabólica é fundamental para permitir a progressão da dieta ao longo das várias fases de pós-operatório com conforto e sem complicações; e a longo prazo, para garantir a adequada ingestão de macro e micronutrientes.
A alimentação saudável continua a ser um pilar essencial, mas precisa de ser integrada num contexto mais amplo que inclua sono adequado, atividade física, saúde mental e, quando necessário, intervenção médica.
Sem acompanhamento nutricional estruturado e sem exercício físico regular, qualquer tratamento farmacológico ou cirúrgico perde consistência no longo prazo.
VS – Um amplo estudo britânico concluiu que, quando os tratamentos para a obesidade são interrompidos, o aumento de peso ocorre quatro vezes mais rápido do que após a interrupção de uma dieta e de um programa de exercício. A composição de equipas multidisciplinares – com médicos, nutricionistas e prescritores de exercício físico, entre outros profissionais – é a chave para uma vida mais saudável?
GF – Esse estudo confirma aquilo que a prática clínica já demonstrava: a obesidade é uma doença crónica. Quando se interrompe o tratamento, o corpo tende a regressar ao seu “ponto de regulação” anterior. O reganho de peso não é falha do doente, nem do tratamento: é pura fisiologia.
É precisamente por isso que a abordagem multidisciplinar e o acompanhamento a longo prazo são fundamentais. A obesidade não é apenas metabólica, é também comportamental, psicológica e social. Médicos, nutricionistas, profissionais de exercício físico e psicólogos devem trabalhar em conjunto.
A chave não é apenas perder peso, é manter saúde ao longo do tempo. E isso exige continuidade terapêutica, acompanhamento regular e estratégias individualizadas. Precisamos de um sistema que reconheça a obesidade como doença crónica com necessidade de seguimento prolongado (tal como a diabetes ou a hipertensão) e precisamos de mais equipas formadas para o fazer e preparadas para a continuidade de cuidados após a intervenção inicial. Só assim conseguiremos transformar resultados clínicos em valor duradouro.




