“A fortificação não deve ser encarada como um indicador automático de saúde” 574

Importa refletir, no âmbito da saúde pública, sobre a forma como a fortificação voluntária de alimentos é atualmente enquadrada e comunicada, consideram os investigadores Ana Pimenta Martins, Ana Maria Gomes (docentes no Centro de Biotecnologia e Química Fina, integrado na da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa) e Duarte Torres (Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto; Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto).

Em entrevista à VIVER SAUDÁVEL, depois de conquistarem recentemente o prémio de Melhor Publicação de 2022 da Acta Portuguesa de Nutrição, pelo artigo “Analysis of the supply of micronutrient-fortified foods in Portugal“, os especialistas explicam o processo de análise e os resultados o obtidos.

VIVER SAUDÁVEL (VS ) – Fortificação não é sinónimo de saúde, como talvez nos queiram fazer pensar. O que procuraram investigar e quais a principais conclusões a apresentar?

Ana Pimenta Martins, Ana Maria Gomes e Duarte Torres – (R, de resposta) – O principal objetivo da nossa investigação é avaliar, pela primeira vez em Portugal, o impacto da fortificação voluntária de alimentos com micronutrientes e o seu contributo para a adequação nutricional da população portuguesa com idade superior a 3 anos, recorrendo aos dados do Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física 2015–2016, que é representativo da população e, até à data, o mais recente disponível.

Para chegar a esse objetivo, foi necessário começar por mapear a oferta de alimentos fortificados disponível no mercado português. De seguida, analisámos quais os fatores sociodemográficos e relacionados com a saúde associados ao consumo destes produtos e avaliámos se os alimentos fortificados apresentam, de facto, uma melhor qualidade nutricional face aos não fortificados, recorrendo à versão atualizada do Nutri-Score.

Os resultados do trabalho realizado até ao momento mostram que os alimentos voluntariamente fortificados com micronutrientes representam 16% do total de alimentos analisados (n=5704), reportados como consumidos pelos portugueses. A fortificação concentra-se sobretudo nas categorias de cereais de pequeno-almoço, bolachas e biscoitos, laticínios, bebidas não alcoólicas e substitutos do leite, sendo que os micronutrientes mais frequentemente adicionados são as vitaminas do complexo B e a vitamina D e os minerais ferro e cálcio.

Ana Maria Gomes, Duarte Torres e Ana Pimenta Martins 

Quando analisamos a qualidade nutricional global dos alimentos fortificados, recorrendo ao Nutri-Score atualizado, observamos que a fortificação não se traduz, de forma consistente, num perfil nutricional mais favorável. De facto, em algumas categorias alimentares, os alimentos fortificados apresentaram classificações menos favoráveis quando comparados com os produtos não fortificados da mesma categoria. Por isso, a fortificação não deve ser encarada como um indicador automático de saúde, sendo fundamental considerar o perfil nutricional global dos alimentos e o seu enquadramento no padrão alimentar.

Analisámos ainda os fatores associados ao consumo de alimentos voluntariamente fortificados, verificando que ser criança ou adolescente, ter maior nível de escolaridade e praticar regularmente atividade física associam-se positivamente ao consumo. Pelo contrário, residir em áreas predominantemente rurais, realizar menos refeições intercalares por dia e apresentar obesidade se associam a um menor consumo destes produtos (DOI: 10.1111/nbu.12681).

VS – A Indústria Alimentar tem procurado diversificar a sua oferta, aproximando-se de opções com um maior número de alegações de saúde. Os produtos fortificados podem ser um aliado valioso, ainda que também um inimigo escondido?

R – A fortificação voluntária de alimentos com micronutrientes pode desempenhar um papel relevante na saúde pública, ao aumentar o aporte de micronutrientes na dieta e, potencialmente, reduzir o risco de inadequações nutricionais na população.

Na União Europeia, esta prática é enquadrada pelo Regulamento (CE) n.º 1925/2006, que visa garantir condições de concorrência leal para a indústria, a proteção do consumidor e a promoção da saúde. Este Regulamento define quantidades mínimas de micronutrientes que devem ser adicionadas, de forma a garantir que a fortificação tem relevância nutricional, correspondendo a pelo menos 15% dos Valores de Referência do Nutriente autorizado por 100 g ou 100 mL nos alimentos, ou 7,5% por 100 mL, no caso das bebidas. Embora este Regulamento exclua a fortificação de alimentos não processados, como frutas, hortícolas, carne ou peixe, bem como de bebidas alcoólicas, não estabelece critérios claros quanto aos alimentos processados elegíveis para fortificação. Sendo uma prática voluntária e definida pelos fabricantes, esta ausência de critérios pode levar a decisões orientadas sobretudo por estratégias comerciais, independentemente do perfil nutricional dos alimentos.

A fortificação voluntária é frequentemente acompanhada de alegações nutricionais relacionadas com vitaminas e minerais (Regulamento 1924/2006), o que pode tornar os produtos mais atrativos para os consumidores e criar uma perceção de benefícios para a saúde. No entanto, esta perceção pode ser enganadora, sobretudo quando aplicada a alimentos ricos em açúcar, gorduras saturadas e/ou sal. Os nossos resultados, baseados na análise da qualidade nutricional global através do Nutri-Score atualizado, mostram que os alimentos fortificados nem sempre apresentam melhor perfil nutricional. De facto, verificámos que, em categorias como os cereais de pequeno-almoço e os iogurtes, os produtos fortificados tendiam a apresentar classificações Nutri-Score menos favoráveis quando comparados com os seus equivalentes não fortificados.

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Assim, é verdade que os alimentos fortificados podem ser, simultaneamente, aliados e “inimigos escondidos”: aliados quando integrados em produtos nutricionalmente equilibrados e consumidos de forma adequada, mas problemáticos quando a fortificação é usada como estratégia de marketing para promover alimentos com perfil nutricional de menor qualidade. É essencial definir perfis nutricionais obrigatórios que impeçam a adição de micronutrientes a tais produtos, conforme recomendado por entidades como a OMS e a EFSA. Estes resultados reforçam a importância de uma abordagem integrada, que articule fortificação, qualidade nutricional global e literacia alimentar, capacitando os consumidores para uma leitura crítica dos rótulos e para a tomada de decisões alimentares informadas.

VS – Qual o impacto da fortificação na dieta dos portugueses? 

R – Apesar da crescente presença de alimentos fortificados no mercado, o impacto da fortificação voluntária na adequação nutricional da dieta dos portugueses ainda não é conhecido. Até à data, não existem dados nacionais que permitam quantificar o seu contributo efetivo para a ingestão habitual de micronutrientes, o que reforça a relevância desta linha de investigação.

A ausência de monitorização sistemática levanta questões sobre a ingestão excessiva de alguns micronutrientes, especialmente em consumidores que combinam produtos fortificados com suplementos. Estes aspetos reforçam a necessidade de estudos longitudinais e de sistemas de vigilância que permitam avaliar tanto benefícios como riscos.

VS – Escolheram debruçar-se nas categorias de cereais de pequeno-almoço, bolachas e doces, laticínios, bebidas não alcoólicas e substitutos de leite. Porquê?

R – A escolha destas categorias alimentares baseou-se nos resultados do mapeamento da oferta nacional de alimentos fortificados, tendo por base os alimentos reportados como consumidos pelos participantes do IAN-AF 2015-2016. Os cereais de pequeno-almoço, bolachas e biscoitos, laticínios, bebidas não alcoólicas e substitutos do leite foram os grupos que apresentaram maior prevalência de alimentos fortificados, concentrando a maioria dos produtos com micronutrientes adicionados.

Importa referir que são também categorias fortemente associadas a estratégias de marketing e consumo por crianças e adolescentes, grupos identificados como principais consumidores de alimentos fortificados. Por esse motivo, considerámos que estas categorias eram as mais relevantes para discussão, não apenas pela dimensão nutricional, mas também pelo potencial impacto comportamental da fortificação, aspetos relevantes para políticas de saúde pública.

VS – Que estratégia metodológica seguiram e quais foram os maiores desafios à sua concretização?

R – A análise baseou-se na base de dados de rótulos alimentares do IAN-AF 2015–2016, que incluía inicialmente 6510 rótulos de alimentos para os quais foi possível obter informação completa de rotulagem alimentar. Para efeitos deste estudo, foi necessário aplicar critérios de exclusão, uma vez que nem todos os alimentos são elegíveis para fortificação com micronutrientes. Assim, de acordo com o enquadramento legal, foram excluídos alimentos não processados, como frutas, hortícolas, carne, peixe e azeite, bem como bebidas alcoólicas. Foram igualmente excluídos alimentos destinados a fins nutricionais específicos, como fórmulas infantis, alimentos para bebés e crianças pequenas, substitutos de refeição, alimentos para dietas de restrição calórica, alimentos para fins medicinais específicos e suplementos alimentares, por estarem abrangidos por legislação própria.

As conquistas dos últimos dez anos foram importantes para a resiliência e a sustentação das concretizações da próxima década.

Desta forma, apenas foram considerados alimentos processados elegíveis para fortificação, resultando numa amostra final de 5704 rótulos, pertencentes a diferentes grupos alimentares do IAN-AF 2015-2016, que serviram de base à identificação e caracterização dos alimentos voluntariamente fortificados com micronutrientes.

Consideramos alimentos fortificados aqueles que apresentavam a adição de micronutrientes legalmente autorizados, identificados simultaneamente na lista de ingredientes e na declaração nutricional do rótulo. Este critério permitiu assegurar que os alimentos eram efetivamente fortificados, independentemente de conterem naturalmente alguns desses micronutrientes. O sódio foi excluído da análise, uma vez que a sua declaração é obrigatória independentemente de constar naturalmente dos alimentos ou de ser adicionado.

Entre os principais desafios, destaca-se a identificação das diferentes formas químicas dos micronutrientes autorizados para adição aos alimentos, bem como de alguns aditivos alimentares associados, de modo a garantir a correta identificação dos produtos efetivamente fortificados nas listas de ingredientes. Foi ainda fundamental distinguir a adição voluntária da presença natural de micronutrientes, por exemplo, em produtos lácteos, garantindo que os alimentos identificados eram, de facto, fortificados.

Estes desafios evidenciam a necessidade de bases de dados atualizadas e metodologias harmonizadas para monitorizar a evolução das práticas de fortificação.

Importa referir que os dados de consumo alimentar e de rotulagem utilizados na nossa investigação foram recolhidos há mais de 7 anos, podendo não refletir integralmente o contexto atual em termos de reformulação de produtos, práticas de fortificação e disponibilidade no mercado. Reconhecemos que a indústria alimentar tem vindo a desenvolver esforços para reformular produtos, com o objetivo de melhorar o seu perfil nutricional. Neste sentido, o trabalho que temos vindo a desenvolver constitui uma base de referência fundamental, permitindo enquadrar a situação à data e criar condições para que, no futuro, seja possível monitorizar a evolução das práticas de fortificação e da qualidade nutricional dos alimentos.

VS – Face aos resultados obtidos, defendem alguma atuação no âmbito da saúde pública?

R – O trabalho efetuado até à data sugere a necessidade de uma reflexão no âmbito da saúde pública sobre a forma como a fortificação voluntária de alimentos é atualmente enquadrada e comunicada. Pese embora a fortificação possa desempenhar um papel relevante na melhoria da ingestão de micronutrientes, é essencial garantir que a adição de vitaminas e/ou minerais se faça em alimentos com perfil nutricional equilibrado, integrada com políticas de reformulação. No entanto, a Comissão Europeia continua sem definir perfis nutricionais que permitam prevenir a adição de micronutrientes a alimentos nutricionalmente desequilibrados. A ausência destes perfis cria espaço para que a fortificação seja aplicada a produtos com elevado teor de açúcar, gordura saturada e/ou sal, nutrientes cujo consumo excessivo está associado a um maior risco de doenças crónicas não transmissíveis.

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Paralelamente, a crescente aposta da indústria alimentar na fortificação levanta a questão da eventual ingestão excessiva de alguns micronutrientes pelos consumidores. Contudo, a ausência de dados nacionais impede, para já, qualquer conclusão sobre este potencial problema, reforçando a necessidade de investigação que permita avaliar o contributo da fortificação para a ingestão e adequação de micronutrientes.

Também uma maior articulação entre as estratégias de fortificação voluntária e as prioridades nutricionais identificadas a nível populacional poderá contribuir para reforçar o impacto positivo desta prática na saúde pública. Estas medidas, no seu conjunto, contribuirão para maximizar os benefícios da fortificação e mitigar os riscos associados à sua aplicação.