Mais do que apresentar marcas ou contar histórias de sucesso, a mesa-redonda ‘Empreendedorismo na nutrição’, inserida nas VIII Jornadas de Ciências da Nutrição do Núcleo de Estudantes de Ciências da Nutrição (NECN) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), procurou mostrar aos estudantes o que existe entre uma ideia e a sua concretização. O retrato que ficou foi tudo menos simplista: empreender exige visão, trabalho, adaptação, rede de apoio e capacidade para lidar com dificuldades que vão muito além da componente técnica.
Em palco estiveram Joana Maria Martins, da Picnic in Box, e Andreia Ferreira, da Love Seed. A partir de projetos diferentes, mas atravessados por desafios semelhantes, ambas mostraram que a nutrição também pode ganhar forma em negócios próprios, produtos e conceitos pensados para responder ao mercado sem perder a ligação à identidade profissional.
Muito para além da parte clínica
Na abertura da sessão, moderada por Teresa Maria Pinto, professora da UTAD, ficou clara a intenção da organização: alargar o horizonte profissional dos estudantes. “Muitas vezes, quando pensamos em Ciências da Nutrição, pensamos muito na parte clínica. Mas as Ciências da Nutrição são um mundo”, adiantou, explicando que a mesa-redonda surgia para “abrir mais uma porta” aos participantes.
Foi nesse enquadramento que Joana Maria Martins recuou às origens da Picnic in Box. “O nosso projeto nasceu em 2020, em pleno período de pandemia mundial”, recordou. A ideia surgiu num contexto muito particular, quando a irmã, também nutricionista, deixou de conseguir manter a sua atividade na área da nutrição clínica durante o confinamento. “Criámos um projeto que levava a alimentação a casa das pessoas, como uma forma de conforto”, explicou.
O conceito acabou por crescer rapidamente e por exigir uma dedicação total. Joana Maria Martins contou que, em setembro de 2025, teve de deixar a atividade que mantinha na área da alimentação coletiva e restauração, já que o crescimento do projeto deixou de ser compatível com os restantes compromissos profissionais.
Do conceito ao produto viável
No mercado desde 2022, a Love Seed evidenciou um percurso marcado por sucessivos ajustamentos entre a ideia inicial e as exigências da produção. O projeto, idealizado pela nutricionista Ana Bravo, nasceu da “vontade de criar snacks mais simples e equilibrados”.
Mas entre a intenção inicial e o produto final houve um caminho exigente, confirmou a cofundadora Andreia Ferreira. A produção artesanal colocava problemas de consistência, formato e embalagem; a passagem para uma escala industrial trouxe novas exigências, mas também estabilidade e viabilidade. O testemunho mostrou um dos traços mais importantes do empreendedorismo: saber adaptar o projeto à realidade sem perder de vista a sua essência.
A lacuna que surgiu dos dois lados
Quando a conversa passou para os desafios encontrados na criação das marcas, houve um ponto comum. “A literacia financeira foi uma das principais lacunas sentidas no arranque do projeto”, admitiu Joana Maria Martins. Andreia Ferreira convergiu no diagnóstico: “A vertente financeira é sempre desafiante, porque não faz parte da nossa formação inicial”, assegurou, lembrando que as barreiras surgem muitas vezes onde menos se espera.
A literacia financeira apareceu, assim, como uma ausência relevante para quem quer transformar conhecimento técnico em negócio. Saber de segurança alimentar, qualidade do produto ou composição nutricional é indispensável; perceber custos, distribuição, negociação, armazenamento e escalabilidade também.
Ajustar, negociar, encontrar parceiros
Outro dos temas fortes da sessão foi a necessidade de tornar cada projeto viável sem perder identidade. No caso da Picnic in Box, essa exigência passa por manter a personalização, a imagem cuidada e a segurança alimentar, mesmo com um volume crescente de encomendas. Na Love Seed, passou por rever produção e logística para tornar o produto sustentável no mercado.
Joana Maria Martins salientou que a marca se distingue por ser conduzida por nutricionistas. “Sentimos que damos essa tranquilidade”, certificou, sobretudo em situações que exigem maior cuidado, como alergias alimentares ou pedidos específicos.
Também a relação entre qualidade e preço, a escolha de parceiros e as dificuldades logísticas surgiram como temas incontornáveis. A sessão ajudou, nesse sentido, a desmontar qualquer visão romantizada do empreendedorismo: ter uma boa ideia não basta; é preciso torná-la viável, sustentada e ajustada ao mercado.
“Nunca desistam”, mas com flexibilidade
Foi nas respostas finais que a mesa-redonda ganhou maior força para os estudantes. Perante a pergunta sobre que conselhos deixariam a quem quer empreender, Joana Maria Martins foi direta: “Acima de tudo, nunca desistam”. Reconheceu o peso dos sacrifícios pessoais e profissionais, mas insistiu na importância de acreditar no projeto.
Andreia Ferreira acrescentou uma nuance a esta mensagem. “Não desistir é muito importante”, concordou, mas precisou que também não é útil avançar de forma cega: “Por vezes, é preciso contornar os obstáculos, ou dar uns passos atrás, para depois realmente conseguirmos chegar lá”.
As duas intervenções convergiram ainda noutra ideia essencial: ninguém constrói um projeto sozinho. Encontrar as pessoas certas, pedir ajuda, criar rede e saber escolher parceiros pode ser determinante. “Precisamos sempre de apoio à nossa volta”, atestou.
Uma novidade que marcou a edição
No final do evento, que decorreu nos dias 23 e 24 de fevereiro, em Vila Real, Catarina Gonçalves, presidente do NECN-UTAD, destacou precisamente esta mesa-redonda como uma das novidades mais marcantes da edição. “Consideramos fundamental abordar esta vertente, cada vez mais relevante para os futuros nutricionistas, incentivando uma visão mais autónoma, inovadora e estratégica da profissão”, afirmou. A introdução deste tema, garantiu, “foi muito bem recebida e abriu espaço a uma discussão pertinente sobre oportunidades, desafios e novas formas de atuação no mercado de trabalho”.
Subordinadas ao tema “Do saber à ação, do prato à solução”, as jornadas contaram com 158 participantes – 117 presenciais e 41 online – números que, segundo a organização, “superaram as expectativas iniciais”. O balanço global, sublinhou Catarina Gonçalves, foi “bastante positivo”, acrescentando que “sentimos que cumprimos os objetivos a que nos propusemos e que proporcionámos um evento de qualidade, tanto a nível científico como organizacional”.
Questionada sobre os principais destaques do evento, a aluna do terceiro ano da licenciatura em Ciências da Nutrição da UTAD referiu que “a nutrição no desporto voltou a assumir um papel de grande relevo, sendo tradicionalmente uma das áreas que mais desperta o interesse dos estudantes”. A par disso, realçou a aposta num “programa diversificado”, capaz de refletir várias frentes de intervenção do nutricionista, da nutrição clínica à nutrição comunitária e saúde pública, sem esquecer a sustentabilidade, a tecnologia na indústria alimentar, entre outras.
As Jornadas terminaram com o concurso de pósteres e o momento alumni, sob o mote ‘Estágios que marcam percursos: nutrição na prática’.
Esta reportagem é composta por duas partes. A primeira, sobre o painel “Nutrição hoje: progredir, comunicar, participar”, já se encontra disponível:
Progredir, comunicar, participar: três desafios para a nutrição de hoje




