Profissionais qualificados gastam mais em vinho e as mulheres estão menos tempo à mesa

Em Portugal a despesa em bebidas alcoólicas varia significativamente consoante a classe social. Profissionais intelectuais, científicos e agentes culturais, são quem mais gasta em vinho e em bebidas destiladas. Segundo o INE, em 2024, as famílias portuguesas gastaram 171 euros em bebidas alcoólicas, o que corresponde a 5,5% das despesas totais com alimentação em contexto doméstico.

Estas são conclusões do artigo “Classe Social, Consumo e Gosto no Portugal Contemporâneo: Resultados e Pista para Investigação Futura sobre Práticas Alimentares” de Vasco Ramos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Publicado na revista científica “Journal of Consumer Culture”, em 2023, o trabalho de investigação venceu o prémio João Ferreira de Almeida 2025, instituído pelo Iscte e pela Associação Portuguesa de Sociologia, na categoria de artigo científico.

“A proporção de gastos por tipo de bebida reforça distinções sociais”, afirma em comunicado Vasco Ramos, sociólogo e autor deste estudo sobre hábitos de consumo em Portugal. “O vinho, sendo a bebida mais consumida independentemente da posição social, é especialmente valorizado por frações com maior capital cultural, mas também pelas classes médias, como gestores intermédios e pequenos proprietários”.

A investigação baseou-se no Inquérito às Despesas das Famílias, promovido pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) entre março de 2015 e março de 2016. O artigo analisou como os hábitos alimentares em Portugal estão relacionados com a classe social. Desta análise conclui-se que existem diferenças segundo a classe social, tanto no volume de despesa, como no tipo de bebidas consumidas em casa.

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Em termos absolutos, as classes dominantes são as que mais consomem em contexto doméstico, destacando-se as “frações culturais”: grupos com elevado capital escolar e profissional ligado às artes e ao ensino superior. Já os executivos e gestores de topo privilegiam o consumo fora de casa.

Segundo o estudo de Vasco Ramos, as bebidas destiladas são características das elites com um nível económico mais elevado. Pelo contrário, o consumo de cerveja ganha peso à medida que diminui a capacidade económica, sendo mais comum entre trabalhadores manuais e do setor dos serviços.

A investigação mostra que existem diferenças de género em relação ao consumo de álcool. “O consumo de álcool é mais elevado entre os homens e mais moderado nas mulheres, reforçando a associação entre masculinidade e práticas de consumo de álcool mais intensas”, afirma o vencedor do prémio do Iscte.

Os dados presentes no artigo foram obtidos através de uma amostra representativa de 11.398 famílias, num total de 29.901 inquiridos. Neste trabalho foram analisadas as correspondências das despesas dos agregados familiares, em que a pessoa responsável pelas compras tem idades compreendidas entre os 25 e os 74 anos.

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A investigação teve como base as ideias do sociólogo francês Pierre Bourdieu, com destaque para a teoria apresentada na obra “A Distinção”, publicada em 1979. Segundo Bourdieu, “o gosto não é apenas uma escolha pessoal, está ligado à posição social dos indivíduos”.

Envolvimento masculino aumenta com os filhos

Numa investigação subsequente, o mesmo investigador concluiu que tal como no consumo de bebidas alcoólicas, também na divisão das tarefas domésticas se observam padrões que refletem desigualdades sociais e de género profundamente enraizadas. Apesar das mudanças sociais das últimas décadas, os dados revelam que a cozinha continua a ser um espaço profundamente feminino em Portugal.

As diferenças começam logo no início do dia. De acordo com o estudo, 88% das mulheres preparam o seu pequeno-almoço, enquanto 52% dos homens têm o pequeno‑almoço preparado por uma mulher da família. A desigualdade torna‑se ainda mais evidente nas refeições principais. Nestas, a participação dos homens também é reduzida. Ao almoço, a percentagem é de 18%, sendo que ao jantar sobe para uns modestos 19%.

Estas assimetrias são particularmente marcadas em agregados sem filhos e entre idosos, contextos em que mais de 80% das refeições caseiras são preparadas por mulheres. “Um dado interessante é que o envolvimento masculino é maior em famílias com filhos pequenos ou adolescentes, situando‑se entre 23% e 28%”, afirma Vasco Ramos. A partilha equilibrada das tarefas é mais comum em lares com crianças pequenas (19%), mas continua a ser minoritária.

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A terceirização da preparação das refeições através de serviços externos permanece reduzida (9%), o que reforça o peso do trabalho doméstico realizado dentro da família. Em resumo, a cozinha permanece um domínio predominantemente feminino, com a participação masculina a surgir como exceção e não como regra, incluindo em agregados familiares mais jovens.

Os resultados desta segunda investigação foram obtidos no âmbito do Inquérito às Práticas Alimentares em Portugal (2024). Neste caso, foi realizado um inquérito de âmbito nacional (incluindo Continente e Regiões Autónomas) que obteve uma amostra de 1518 inquiridos.

Aceda ao estudo “Classe Social, Consumo e Gosto no Portugal Contemporâneo” aqui.