A Unidade Local de Saúde São João (ULSSJ), no Porto, inicia hoje, em parceria com três municípios, um projeto-piloto de Prescrição Comunitária dirigido aos utentes dos cuidados de saúde primários, para que estes beneficiem dos recursos existentes na comunidade.
Até aqui conselhos de um médico de família como mais exercício físico ou aprender a cozinhar eram apenas sugestões, mas, com o projeto Prescrição Comunitária, o clínico poderá encaminhar o utente para os serviços de uma equipa dedicada que lhe apresentará várias opções de programas existentes na comunidade, desde aulas de pilates, um ‘workshop’ de culinária ou oficinas de trabalhos manuais, entre outras.
A ideia partiu da Direção Clínica dos Cuidados de Saúde Primários da ULSSJ, em parceria com os municípios do Porto, Valongo e Maia.
Em declarações à agência Lusa, o adjunto da direção clínica para a área dos cuidados primários da ULSSJ explicou que “a ideia é criar uma comunicação mais formalizada entre o profissional de saúde e uma equipa de autarquia para garantir que os utentes têm conhecimento dos recursos existentes na comunidade”.
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“O objetivo é que depois o próprio utente, e segundo as suas preferências e disponibilidade, encontre uma resposta para as suas necessidades e dê continuidade às sugestões do médico. Procuramos aumentar a adesão às prescrições que neste contexto não são farmacológicas”, disse Miguel Cabral.
Usando como paralelo a receita que é passada a um utente para o levantamento de medicação numa farmácia, neste modelo há uma prescrição comunitária, ou seja, a “receita” do médico é, por exemplo, fazer mais exercício ou juntar-se a um grupo de caminhadas, opções que constam em muitos programas das autarquias.
“Vamos colocar, por hipótese, um senhor que ficou viúvo recentemente, num contexto de casal, em que era a esposa quem fazia as refeições em casa, num contexto assim mais tradicional, e o senhor tem autonomia, mas, para além do luto que está a processar, tem um problema imediato que é o facto de não saber cozinhar e, como tal, estar dependente no seu dia a dia. Porventura, poder-lhe-á ser recomendado frequentar um ‘workshop’ de culinária, algo que sabemos que vão surgindo por diversas iniciativas na comunidade”, exemplificou o responsável.
Neste caso, continuou Miguel Cabral, “juntar-se-ia ao recurso comunitário, a capacitação do utente e anular-se-ia um risco acrescido porque, se calhar, ele até iria enveredar pela utilização de refeições rápidas, o que acabaria por ser mais prejudicial para a sua saúde e mais dispendioso”.
Já em comunicado, a ULSSJ descreve que a Prescrição Comunitária é uma abordagem que permite aos profissionais de saúde identificar pessoas cujas necessidades, clínicas e não clínicas, possam beneficiar de respostas e recursos municipais disponíveis.
Este conceito baseia-se no reconhecimento de que a saúde de cada um é influenciada por múltiplos fatores, conhecidos como determinantes de saúde.
“Embora a prestação direta de cuidados de saúde seja um elemento essencial para a saúde e bem-estar das pessoas, outros fatores como a alimentação, a atividade física, as condições sociais e o ambiente em que se vive desempenham igualmente um papel determinante, podendo aumentar ou diminuir o risco de doença. À semelhança da prescrição de um medicamento para tratar um problema de saúde específico, pretende-se que os profissionais de saúde possam também realizar uma Prescrição Comunitária”, acrescenta.
Em causa está um ato que “se pretende igualmente formal e rigoroso, assenta em evidência científica e tem demonstrado eficácia na melhoria da saúde e do bem-estar” das pessoas.
Assim, esta prescrição pode atuar quer numa lógica preventiva, promovendo estilos de vida saudáveis e intervindo sobre fatores de risco como a inatividade física, o excesso de peso ou fatores sociais, quer no apoio à gestão de problemas de saúde concretos, tanto ao nível da saúde física como da saúde mental.
Neste projeto-piloto, compete às equipas municipais a identificação e mobilização de respostas locais, bem como o acompanhamento e monitorização deste modelo.
“Em articulação com estas equipas, será desenvolvido um modelo de intervenção em regime de cocriação, garantindo que a solução final esteja ajustada às necessidades e à realidade específica da ULS São João e de cada concelho no seu território de influência”, sustenta.




