A saúde oral continua a ser um fator frequentemente ignorado nas estratégias de prevenção da diabetes, apesar da evidência científica crescente sobre a ligação entre doenças gengivais e o risco de desenvolver esta patologia. O estudo “Oral health and diabetes: a systematic review and meta-analysis”, liderado por João Botelho, professor da Egas Moniz School of Health and Science, com a participação dos investigadores Luís Proença e Vanessa Machado, e em colaboração com o Programa de Saúde Oral da Organização Mundial da Saúde (WHO), conclui que pessoas com periodontite podem ter até 26% maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 ao longo da vida.
A investigação publicada esta semana na revista científica The Lancet Public Health, baseada na análise de 28 estudos longitudinais realizados em 16 países e com mais de 300 mil participantes, reforça a existência de uma relação bidirecional entre estas patologias e deixa um alerta para a necessidade de integrar a saúde oral nas estratégias de prevenção e gestão das doenças crónicas não transmissíveis.
De acordo com os resultados revelados, pessoas com periodontite apresentam entre 19% e 26% maior risco de desenvolver diabetes tipo 2, enquanto indivíduos já diagnosticados com diabetes apresentam maior probabilidade de desenvolver doença periodontal e complicações associadas ao longo do tempo.
A investigação evidencia ainda que a diabetes está associada a um aumento entre 11% e 16% do risco de perda dentária, enquanto pessoas com perda dentária significativa apresentam cerca de 30% maior risco de desenvolver diabetes no futuro. Estes dados sublinham ainda que alterações na saúde oral podem funcionar como sinais precoces de risco metabólico, reforçando, por isso, o papel que a prevenção e deteção antecipada da doença desempenham na qualidade de vida dos pacientes.
“A saúde oral não pode continuar a ser vista como uma dimensão isolada da saúde pública. A integração desta na medicina geral pode desempenhar um papel importante na identificação precoce de pessoas em risco de diabetes e contribuir, assim, para um acompanhamento clínico mais integrado e eficaz”, sublinha João Botelho, em comunicado.
A diabetes constitui atualmente um dos principais desafios de saúde pública à escala global, “afetando mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo”, destaca a Egas Moniz School of Health and Science. Paralelamente, as doenças orais, como a cárie dentária, doenças periodontais e cancro oral, “permanecem entre as condições de saúde mais prevalentes, impactando aproximadamente cerca de 3,7 mil milhões de pessoas”.
Por ocasião do Dia da Saúde Oral, celebrado a 20 de março, os investigadores alertaram para necessidade de maior articulação entre a medicina dentária e a medicina geral, através de avaliações de saúde oral nos programas de prevenção e acompanhamento da diabetes.




